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quinta-feira, 13 de outubro de 2022

 FERNANDO ORTIZ

DE VITA BEATA

¿Viajar? Viaje el que quiera, pero que a mí me deje
su coche en esa plaza que suelo frecuentar;
donde compro la prensa y hay un bar que me fía
- lo que viene muy bien si las cosas van mal -,
bancos donde sentarse cuando es invierno al sol
y árboles que en verano muy grata sombra dan.
¿Leer? Yo nunca leo, ojeo, aunque me gusta
ver los escaparates y también los stands
de alguna librería, boutique, zapatería...
Como español, me quejo de los juegos de azar
- ni un décimo premiado en treinta largos años -.
Y así, vamos tirando, pues pasó nuestra edad.


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DE VITA BEATA

Viajar? Viaje quem queira, mas que a mim me deixe
o seu carro nessa praça que costumo frequentar;
onde compro jornais e há um bar que me fia
- o que vem bem a calhar, se as coisas vão mal -
bancos onde sentar quando é inverno ao sol
e árvores que no verão dão muito grata sombra.
Ler? Eu nunca leio, folheio, ainda que goste
de ver os escaparates e também os stands
de alguma livraria, boutique, sapataria...
Como espanhol, queixo-me dos jogos de sorte
- nem um décimo premiado em trinta largos anos -
e assim, vamos andando, pois passou a nossa época.


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

 FERNANDO ORTIZ
                              

VALIENTE SOLDADO DEL ARTE
                                 (Jaime Gil de Biedma)

Qué habilidad para hacerse querer
y entrar hasta en el reino de los sueños ajenos.
La inteligencia, una añagaza
a fin de soportar con dignidad
esa necesidad tan suya de admiración y afecto.
Un poquitín blasé, y era el pudor
disimulando la ternura.
Si algo aprendí de ti
es que somos contradictorios:
que la vida nos lleva, complicada y sencilla,
al igual que una copla pegadiza.
En pocas líneas, deslizaste
noches de viernes, tardes de los lunes
y entre ellas, como al gesgaire,
los momentos más puros de identidad del hombre.
Al final sospechabas
que resulta ridículo dedicar tiempo al verso.
Supiste, sin embargo, en tus poemas,
evocar con humor y placer las batallas ganadas
cantando la catástrofe, la gran guerra perdida.


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VALENTE SOLDADO DA ARTE
                                           (Jaime Gil de Biedma)

Que habilidade para fazer-se querer
e entar até no reino dos sonhos alheios.
A inteligência, um embuste
a fim de suportar com dignidade
essa necessidade tão sua de admiração e afecto.
Um bocadinho blasé, e era o pudor
dissimulado e ternura.
Se algo aprendi de ti
é que somos contraditórios;
que a vida nos leva, complicada e simples,
igual a uma copla pegadiça.
Em poucas linhas evadiste 
noites de sexta-feira, tardes de segunda,
e entre elas,como por descuido,
os momentos mais puros da identidade de homem.
Por fim suspeitavas
que resulta ridículo dedicar tempo ao verso.
Soubeste, todavia, nos teus poemas,
evocar com humor e prazer as batalhas ganhas,
cantando a catástrofe, a grande guerra perdida.


quarta-feira, 13 de julho de 2022

FERNANDO ORTIZ

EL TIPO AQUÉL 

Ahora al personaje literario
- el mismo que os habló desde mi verso -
yo lo deshago, digo, y lo disperso
como al humo dispersa el incensario.

Fue siempre un paseante solitario
que, haciendo de su ombligo el universo,
dio enver del mundo sólo el lado adverso.
Un sujeto tristón. Un perdulario.

Quien lo inventó no quiere ni hablar de él,
pues cada día se le acerca más
con su paso apagado y quejumbroso.

Oírle me resultaba ya enfadoso.
Para penas las mías; y además
me da un poco de grima el tipo áquel. 


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AQUELE TIPO

Agora ao personagem literário
- o mesmo que vos falou desde o meu verso -
desfaço-o, digo, disperso-o
como o incensório dispersa o fumo.

Foi sempre um passeante solitário
que, fazendo do seu umbigo o universo
deu em ver do mundo só o lado adverso.
Um sujeito tristonho. Um perdulário.

Quem o inventou nem quer falar dele,
pois cada dia lhe fica mais próximo
com o seu passo apagado e queixoso.

Ouvi-lo já me resulta enfadonho.
Para penas, as minhas; e, além disso,
arrepia-me um pouco aquele tipo.

domingo, 22 de maio de 2022

 FERNANDO ORTIZ

EPÍSTOLA A EMILIO

                                  Y aprenda el hombre la verdad del hombre

                                                   GABRIEL GARCÍA Y TASSARA

  ¿Tú recuerdas, Emilio, cuando un día
me invitaste a escribirte en nobles versos
para hacerte llegar noticia mía?

  No ignoras desde entonces los adversos
sucesos que ocuparan mis mañanas,
tardes y noches y los más diversos

momentos de mi vida. Así, sin ganas
un tiempo estuvo de empuñar la pluma
ni de otras cosas que pensaba vanas.

  Envuelto me encontré en un mar de bruma
y desdeñe lo que me alimentaba
y de la realidad tomé la espuma.

  Pero ya para mí sonó la aldaba
que me impulsa a ponerme en movimiento
hacia mí mismo, rota cualquiera traba.

  Y esa aldaba sonó desde el momento
en el que comprendí que a mi enemigo
peor, yo mismo daba el alimento.

  Qué decirte, si tú fuiste testigo
de cómo, contra mí mismo revuelto,
era incapaz de razonar conmigo.

  No sé se mis asuntos se han resuelto
de una vez para siempre. Es eso extraño.
Mas sí que ando más ligero y suelto.

  Quizá el temor sea origen de mi daño;
el alcohol, la mujer... fueron confusas
maneras varias de llamarme a engaño.

  Hay más de mil, y todas son ilusas,
para huir de saber el proprio nombre.
Algo, Emilio, que nunca admite excusas:
que aprenda el hombre la verdad del hombre.


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EPÍSTOLA A EMILIO

                             E aprenda o homem a verdade do homem
                                                GABRIEL GARCÍA Y TASSARA

  Tu recordas, Emilio, quando um dia
me convidaste a escrever-te em nobres versos
para fazer chegar-te notícias minhas?

  Não ignotras, desde então, os adversos
sucessos que ocuparam as minhas manhãs,
tardes e noites e os mais diversos

  momentos da minha vida. Assim, sem vontade,
um tempo estive sem empunhar a pena,
nem outras coisas que pensava vãs.
  
  Envolto me encontrei num mar de bruma
e desdenhei o que me alimentava
e da realidade colhi a espuma.

  Mas para mim já soou a aldabra
que me impulsa a pôr-me em movimento
em direcção a mim mesmo, rompido qualquer estorvo.

  E essa aldabra soou desde o momento
em que compreendi que ao meu pior
inimigo eu mesmo dava alimento.

  Que dizer-te, se tu foste testemunha
de como, com mim mesmo revoltado,
era incapaz de argumentar comigo.

  Não sei se os meus assuntos se resolveram
de uma vez para sempre. Isso é estranho.
Mas é certo que ando mais ligeiro e solto.

  Talvez o temor seja a origem do meu dano;
o álcool, a mulher... foram confusas 
maneiras várias de de me chamar ao engano.

  Há mais de mil e todas são ilusas,
para fugir de saber o próprio nome.
Algo, Emilio, que nunca admite escusas:
que aprenda o homem a verdade do homem.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

FERNANDO ORTIZ


JON JUARISTI 


Se llama Jon Juaristi y escribe en castellano.
  Tomó de Blas de Otero su severo chasquido.
De Jaime Gil desgarro. y un humor conseguido
con desgarro, ironía, y un tono algo mundano.

  Qué bien y recio lo haces cuando quires, hermano.
A veces, al leerte, a Juan Ruiz he leído.
Otras a Luis Cernuda, ese pájaro herido.
Qué buen español eres entre tanto villano.

  Yo quisiera algún día escribirte un soneto
enviándote en él un abrazo muy grande
- tiene que serlo, mira: va de andaluz a vasco -

para felicitarte por ese tu secreto
por el que el hijodalgo tu verso a gusto escande
y bufa  el hideputa porque le das un chasco.


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JON JUARISTI

Chama-se Jon Juaristi e escreve em castelhano.
Tomou de Blas de Otero o seu severo estalido.
De Jaime Gil arrojo e um humor conseguido
com talento, ironia e um tom algo mundano.

Que bem e vigoroso o fazes quando queres, irmão.
Às vezes, ao ler-te, a Juan Ruiz tenho lido.
Outras a Luis Cernuda, esse pássaro ferido.
Que bom espanhol és entre tanto vilão.

Eu gostaria de algum dia escrever-te um soneto,
enviando-te nele um abraço muito grande
- tem que ser, repara: vai de andaluz a basco -

para felicitar-te por esse teu segredo
pelo que o filho d'algo o teu verso a gosto escande
e bufa o filho da puta porque lhe dás um estalo.

sábado, 5 de março de 2022

FERNANDO ORTIZ


GALERÍA DE FANTASMAS


                                                          (Juan Luis Panero)


                              I

¿ Por qué si eres de un estirpe heroica
- Per Abbat, Kipling, Borges -
te lamentas en elegías?
Tous les elégiaques sont des canailles.
De esto tiene la culpa el tiempo que vivimos, y tú que lo conoces.

                            II

  Fitzgerald, Zelda, Drieu, Montherlant, Hemingway...
La sorda herrumbre del hastío,
las risotadas en la sombra,
más foscas
en la áurea luz de tus fantasmas.
Y esas copas aún sucias de la noche de ayer somos nosotros.


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GALERIA DE FANTASMAS

                                      (Juan Luis Panero)


                        I

Por quê se és de uma estirpe heróica
- Por Abbat, Kipling, Borges -
te lamentas em em elegias?
Tous les elégiaques sont des canailles.
Disto tem culpa o tempo em que vivemos e tu que o conheces.

                      II

Fitzgerald, Zelda, Drieu, Montherlant, Hemingway...
A surda ferrugem do fastio,
as risadas da sombra,
mais frescas
debaixo da áurea luz dos teus fantasmas.
E essas taças sujas da noite de ontem somos nós.

domingo, 16 de janeiro de 2022

 FERNANDO ORTIZ


UNA AMIGA

He preferido siempre las mañanas.
Aún no enroquecida la ciudad
hice grata costumbre del paseo
por avenidas gratas de silencio.
Hubo una perra, Rufa era su nombre,
Que salía conmigo y con el alba
al claro frescos de la prima hora.
Huameaba la la perra en los rincones,
me adelantaba y esperaba luego
para juguetear y saludarme.
Refregaba su lomo por la hierba
de un cercano jardín. Y si ella erguía
hocico, orejas, cueelo, allí, sin duda,
por el suelo saltaban unos pájaros.
Quiso Rufa cazarlos muchas veces
y nunca jamás pudo, aunque puso
constancia e ilusión de tenaz niño.
Y, sorprendida por el vuelo súbito,
me miraba con ojos inocentes
como quien quiere que le explique algo
alguien de confianza, un buen amigo.
De vuelta a casa, muy de amanecida
- mis hijas, aún pequeñas, descansaban -
solo en mi gabinete, con mis libros,
Rufa se retiraba a su rincón
donde se ensimismaba en sus assuntos.

Hoy que me he despertado con el alba,
me veo inclinado sobre mi escritorio,,
absorto, en mi pequeño apartamiento.
Mis hijas, ya mayores, vendrán luego
a visitarme. Aberta la ventana,
se oye el lejano aullido de algún perro. 


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UMA AMIGA

Preferi sempre as manhãs.
Ainda não enroquecida a cidade
faz grato costume o passeio
por avenidas gratas de silêncio.
Tive uma cadela, Rufa de seu nume,
que saía comigo e com a alvorada
para o claro fresco da primeira hora.
Farejava a cadela pelos cantos,
adiantava-se e logo esperava
para brincar e saudar-me.
Roçava o lombo pela erva
de um jardim próximo E se erguia
focinho, orelhas, pescoço, aí, sem dúvida,
pelo solo saltavam uns pássaros.
Quis Rufa caçá-los muitas vezes
e nuca conseguiu, ainda que empenhasse
constância e ilusão de tenaz criança.
E, surpreendida pelo voo súbito,
mirava-me com olhos inocentes
como quem quer que lhe explique algo
alguém de confiança, um bom amigo.
De volta a casa, muito cedo
- as minhas filhas, ainda pequenas, descansavam -
sozinho no meu gabinete, com os meus livros,
Rufa retirava-se para o seu canto
onde se ensimesmava nos seus assuntos.

Hoje que acordei com a alvorada,
vejo-me inclinado sobre a minha secretária,
absorto, no meu pequeno apartamento.
As minhas filhas, já crescidas, virão mais tarde
visitar-me. Aberta a janela,
ouve-se o longínquo latido de algum cão.

domingo, 3 de outubro de 2021

 FERNANDO ORTIZ


AZULEJO

[ S. XVII. Monasterio de la Encarnación. Osuna]


Dos viejas al brasero que un anciano remueve
mientras fuma su pipa y habla de otro tiempo.
Un galán embozado que a su ronda se atreve
desafiando el frío - buena cara al mal tiempo -.

   Al calor perro y gato se arrejuntan. La nieve
para el viejo y el niño es mero pasatiempo.
Para el galán se trata tan sólo de ese leve
acicate a su ronda; lo más, un contratiempo.

   Para el hombre que, sólo, nada sabe ni espera,
es el invierno el centro de los ciclos del año,
la hora más severa y más ensimismada...

   Después, viendra la angustia azul de primavera,
descenderá el verano de su purpúreo escaño
y otoño es el perfume de las rosas quemadas.


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AZULEJO
[S. XVIII. Monasterio de la Encarnación. Osuna]

Duas velhas à braseira que um ancião remexe,
enquanto fuma o seu cachimbo e fala de outro tempo.
Um galã embuçado que à sua ronda se atreve,
desfiando o frio - boa cara ao mau tempo -.

Ao calor cão e gato coabitam. A neve
para a criança e o velho é mero passatempo.
Para o galã trata-se só desse leve 
acicate para a sua ronda; no máximo, um contratempo.

Para o homem que, só, nada sabe nem espera,
é o inverno o centro dos ciclos do ano,
a hora mais severa e mais ensimesmada...

Depois, virá a angústia azul da primavera;
descerá o estio do seu purpúreo escanho
e o outono é o perfume de rosas queimadas.





sexta-feira, 30 de julho de 2021

 FERNANDO ORTIZ


A ALTAS HORAS

En esta noche de noviembre y frío,
inacabable, porque el sueño tarda,
muy avanzada ya la madrugada,
a los cuarenta años de mi vida,
quiero dejarme de literaturas
para contar al fin lo que me importa.

   Quedarme sin tabaco, qué fastidio.


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A ALTAS HORAS

Nesta noite de novembro e frio,
inacabável, porque o sono tarda,
muito avançada já a madrugada,
aos quarenta anos da minha vida,
quero deixar-me de literaturas
para contar, por fim, o que me importa.
   
   Ficar sem tabaco, que chatice.

domingo, 20 de junho de 2021

FERNANDO ORTIZ


MARZO

En la tarde de Marzo restalla la flor de azahar
y el azul es tan vivo como en libro miniado.
El aire, a veces frío, aún recuerda el invierno
y hay sol de primavera.
Detrás de un portalón está el zaguán, un patio, la húmeds
                                                                          [penumbra,
y en su interior un pájaro que anuncia ya el estío.
Qué sorpresa ante el pájaro,
la flor, el cielo azul, el aire tornadizo
y este aleteo de cenizas,
su ciego afán inútil para no dispersarse en la tarde de marzo.


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MARÇO

Na tarde de Março crepita a flor da laranjeira
e o azul é tão vivo como em livro de miniaturas.
O ar, por vezes frio,, ainda recorda o inverno
e há sol de primavera.
Detrás de um portão  está o vestíbulo, um pátio, a húmida
                                                                         [penumbra,
e no seu interior um pássaro anuncia já o estio.
Que surpresa perante o pássaro,
a flor, o céu azul, o ar inconstante
e este esvoaçar de cinzas,
o seu afã inútil para não dispersar-se na tarde de março. 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

 FERNANDO ORTIZ

 

AUTORRETRATO

Quien dijo que de niño supe de duendes, miente.
No sabe ni siquiera que pasó tras mi frente.
Es falso que tuviese miedo a la oscuridad
y en la noche escuchara las campanas doblar...
Primera juventud... Primera despedida,
el alcohol, la poesía; amor, miedo a la vida.
Aquella nimiedad que empezó de muy joven
no me dejó escuchar confidencias de amores.
No quise ser torero, militar ni abogado.
Y como nada quise, en nada me he quedado.
Al fin, frente a mi sueño; la ruinas , los escombros
nunca más me dejaron alzar firmes los hombros.
Ahora ya no espero, ni pienso, ni creo en nada
sino en esa oscura ave que ha de venir al alba.
Y cuando yo me aleje por la esquina del tiempo
habrá siempre algún milro silbando de contento.


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AUTO-RETRATO

Quem disse que em criança soube de duendes, mente.
Não sabe sequer o que se passou à minha frente.
É falso que tivesse medo da escuridão
e à noite escutasse os sinos a dobrar...
Início da juventude... Primeira despedida,
o álcool, a poesia; amor, medo da vida.
Aquela insignificância que começou ainda muito jovem
não me deixou ouvir confidências de amores.
Não quis ser toureiro, militar, nem advogado.
E como nada quis, com nada fiquei.
Por fim, frente ao meu sonho, as ruínas, os escombros,
nunca mais deixaram erguer firmes os ombros.
Agora já não espero, nem penso, nem creio em nada
senão nessa escura ave que há de vir de madrugada.
E quando me afastar pela esquina do tempo
haverá sempre algum melro cantando de contente.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

 FERNANDO ORTIZ


LIBROS

                                         (Profanación y homenaje)

  Retirado sin paz a estos desiertos
dejáronme unos pocos libros juntos.
Solo y sin paz. Oficio de difuntos
ejerce quien conversa con los muertos.

  No sé bien si entedidos -sí que abiertos-
hundieron con mi vida mis asuntos.
Fueron desacordados contrapuentos:
sueño a los ojos que soñé despiertos.

  Las graves almas que la muerte ausenta
encomiendan su injuria vengadora,
su soplo frío a la seca imprenta.

  En fuga irrevocable huye la hora;
pero aquélla el mejor cálculo cuenta
que en el amor al otro nos mejora.


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LIVROS
  
                                           (Profanação e homenagem)                  

  Retirado sem paz nestes desertos
deixaram-me uns poucos livros juntos.
Só e sem paz. Ofício de defuntos
exerce quem conversa com os mortos.

  Não sei bem se entendidos -ainda que abertos-
fundiram com a minha vida os meus assuntos.
Foram desacordados contrapontos:
sonho os olhos que sonhei despertos.

  As graves almas que a morte ausenta
encomendam a sua injúria vingadora,
o seu sopro frio à seca impressa.

  Em fuga irrevogável foge a hora:
mas aquela o melhor cálculo conta
que no amor ao outro nos melhora.                                                                      

sábado, 6 de março de 2021

 FERNANDO ORTIZ


ODA AL REGRESO DEL REY DON SEBASTIAN

                        Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra...
                                                                            
                                                                 FERNANDO PESSOA

En el último confín de Occidente
existe una ciudad donde es irreal la vida
o tan real al menos como el museo en el que se conserva
entre berninescos carruajes de embajadores, nuncios, reyes,
príncipes e infantinas,
la negra carroza de pesada madera
de quien fuera dueño del mundo,
un mundo o un imperio donde jamás se puso el sol.

Deambulando por sus calles y plazas
puede que encontréis e cualquier terraza sentado a un caballero
atildado, de redondas lentes,
vestido de negro como el Rey que Dios guarde,
sosteniendo entre sus dedos, fumador empedernido,
un cigarrillo que se consume como sus recuerdos,
como su hastío, como el viento que canta en las almenas
entre las torres de la tarde.

El caballero levanta sin prisa su copa de coñac
y toma um lento sorbo.
La vida hay que tomarla a lentos sorbos
o bien apurada de un trago.
En cualquiera de los dos casos a nadie -ni siquiera a uno mismo-
le importa demasiado el destino de nuestra vida,
lo mismo que no importa demasiado el destino del coñac de una copa
ni el d una copa de coñac.

Alguien, quizá un turista, se detiene a perguntarle la hora
y él contesta con cortesía
en un ceremonioso inglés literario y pulido:
"Sí. Es la hora de los estandartes
para que ondee el azur con las quinas plateadas.
Sebastián, rey de reynos, volvió desde el Océano
entre naves de niebla y albas picas de humo.
Si es que no vino por la carretera de Sintra,
por la carretera de Sintra, al volante de un Chevrolet prestado.


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ODE AO REGRESSO DO REI DOM SEBASTIÃO

                                        Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra...

                                                                      FERNANDO PESSOA

No último confim do Ocidente
existe uma cidade onde é irreal a vida
ou tão real, pelo menos, como o museu no qual se conserva
entre berninescas carruagens de embaixadores, núncios, reis,
príncipes e infantas,
a negra carroça de pesada madeira
de quem foi dono do mundo,
um mundo ou um império onde jamais se punha o sol.

Deambulando pelas suas ruas e praças
talvez se encontre em qualquer esplanada, sentado, um cavalheiro
pulcro, de redondas lentes,
vestido de negro, como o Rei que Deus guarde,
sustentando entre os dedos, fumador empedernido,
um cigarro que se consome como as suas recordações,
como o seu fastio, como o vento que canta nas ameias
entre as torres da tarde.

O cavalheiro levanta sem pressa um cálice de aguardente
e toma um lento sorvo.
A vida há-de ser tomada a lentos sorvos
ou então engolida de um trago.
Em qualquer dos casos a ninguém -nem sequer a si mesmo-
importa demasiado o destino da nossa vida,
assim como não importa demasiado o destino da aguardente de um cálice
nem o de um cálice de aguardente.

Alguém, talvez um turista, detém-se para lhe perguntar as horas
e ele responde com cortesia
num cerimonioso inglês literário e polido:
"Sim. São horas de levantar os estandartes
para que ondeie o azur com as quinas prateadas.
Sebastião, rei de reinos, voltou desde o Oceano
entre naves de névoa e albas lanças de fumo.
Se é que não veio pela estrada de Sintra,
pela estrada de Sintra, ao volante de um Chevrolet emprestado".

domingo, 7 de fevereiro de 2021

 FERNANDO ORTIZ


ALBANIO EN EL EDÉN

                                     A sus paisanos

                                                    LUIS CERNUDA

El joven andaluz que tiene gran razón para su orgullo,
el poeta cuya palabra lúcida se entreabre
tal perla vegetal tras verder valvas,
harto de fatigar sus esperanzas en el rincón nativo,
pendón de bandería regional para compadres
y autores señoritos de obrillas impotentes;
harto ya de este vulgo luciente, aún más estúpido que el otro
que forman el común, y su ambiente letal y provinciano,
deja al fin a la ciudad en la que un día soñara la vida como
embeleso inagotable.

La sirena de un buque, el silbato de un tren
eran aceros en su pecho
punzándole a iniciar el viaje más soberbio y más libre.
Privácion, infortunio, países nunca hollados
no bastaran jamás a detenerle
en la búsqueda insomne de la palabra viva,
melódica, amorosa,
de apasionada gravedadmy afilada amargura,
a este andaluz altivo y solitario.

Ventaja grande es que esté ya muerto
y que de muerto cumpla veinte años, que así pueden
los decendientes mismos de quienes le ignoraron
retractarse de errores propios o de su casta
para poder impunes cometer otros nuevos.
Hoy alaban su nombre. y honran al erudito
sucesor del gusano, royendo su memoria.

Más él no transigió en la vida ni en la muerte
y a salvo puso su alma irreductible
como demonio arisco que ríe entre negruras:
"Harto estaba de mi ciudad nativa
y pasados treinta años
deseos no siento de volver a ella."

Gracias demos a Dios por la paz de Cernuda vencido;
gracias demos a Dios por la paz de Cernuda exaltado;
gracias demos a Dios, que supo devolverle (como hará con nosotros),
nulo al fin, ya tranquilo, entre su nada.  


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ALBANIO NO ÉDEN

                                      Aos seus conterrâneos

                                                        LUIS CERNUDA

O jovem andaluz que tem grande razão para o seu orgulho,
o poeta cuja palavra lúcida se entreabre
qual pérola vegetal entre verdes valvas,
farto de fatigar as suas esperanças no rincão nativo,
pendão de bandeira regional para compadres
e outros senhorzinhos de obritas impotentes;
farto já de este vulgo luzidio, ainda mais estúpido que o outro
que formam o comum e o seu ambiente letal e provinciano,
deixa por fim a cidade onde um dia sonhara a vida como enlevo inesgotável.

A sirene de um navio, o apito de um comboio
eram inquietações no seu peito
incitando-o a iniciar a viagem mais soberbo e mais livre.
Privação, infortúnio, países nunca pisados
não bastarão para o deter
na busca insone da palavra viva,
melódica, amorosa,
de apaixonada gravidade e afilada amargura,
a este andaluz altivo e solitário.

Grande vantagem é que esteja já morto
e que de morto cumpra vinte anos, pois assim podem
os próprios descendentes dos que o ignoraram
retratar.se de erros pessoais ou da sua casta
para poder, impunes, cometer outros novos.
Hoje falam do seu nome e honram o erudito
sucessor do verme, roendo a sua memória.

Mas ele não transigiu na vida nem na morte
e pôs a salvo a sua alma irredutível
como demónio arisco que ri entre negruras:
"Farto estava da minha cidade natal
e passados trinta anos
não sinto desejos de lá voltar."

Demos graças a Deus, pela paz de Cernuda vencido;
demos graças a Deus, pela paz de Cernuda exaltado;
demos graças a Deus, que soube devolver-lhe (como fará connosco)
nulo por fim, já tranquilo, entre o seu nada. 

domingo, 17 de janeiro de 2021

 FERNANDO ORTIZ


VIEJA AMIGA

Es ajena y estraña. Si la observas
no puedes evitar el sonreírte-
A nadie le interessan sus manías
- no digamos a ti que las conoces ..
A veces finges crédito a su historia
para no entristecela.
                                  Mas con todo
han aprendido a valorar su astucia:
si su encanto ya no es el de una joven
hay dias que aún consigue seducirte.

Los años van haciéndola más vieja,
un poquitín ridícula y sin duda
irritante. -¿De qué modo tratarla?
Debes tener paciencia, pues al cabo
qué hacer si no.

                         Se trata de tu vida.


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VELHA AMIGA

É alheia e estranha. Se a observas
não podes evitar sorrir.
A ninguém interessa as suas manias
- não nos referimos a ti que a conheces -.
Às vezes finges dar crédito à sua história
para não entristecê-la.
                                    Mas, contudo,
aprendeste a valorizar a sua astúcia:
se o seu encanto já não é o duma jovem
há dias que ainda consegue seduzir-te.

Os anos vão fazendo-a mais velha,
um pouquinho ridícula e sem dúvida
irritante - De que modo tratá-la?
Deves ter paciência, pois no fim
que fazer se não.
                           Trata-se da tua vida.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

 FERNANDO ORTIZ


    CABALLERO VEITICUATRO

                       Los restos de Arguijo descansan cerca de la
                       tumba de Béquer, ante la que tantas veces
                       meditó Cernuda.

Envuelto en negra capa,
a la hora que las campanas con grave asombro
advierten la caída de la tarde,
camina el caballero como sombra
por calles donde el viento se pierde en los adarves.

¿Irá a la Iglesia de la Compañia,
a la conversación discreta de unos pocos,
el comento y lectura de unos versos latinos
donde hallar el sosiego
que enturbian comerciantes, notarios, acreedores ?

¿Dónde va el caballero
con paso que se alza sobre el gris de las horas?
Allá, allá lejos;
donde no existe olvido,
junto a su hermano en la melancolía,
a cumplir su destino más secreto y más libre.


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   CAVALEIRO VINTE E QUATRO

                   Os restos mortais de Arguijo descansam perto do túmulo
                   de Bécquer, diante do qual tantas vezes meditou
                   Cernuda. 

Envolto em negra capa,
à hora em que os sinos com grave assombro,
avisam a queda da tarde, 
caminha o cavaleiro como sombra
por ruas onde o vento se perde nos adarves.

Foi à Igreja da Companhia,
à conversa discreta de uns poucos,
ao comentário e leitura de una versos latinos
onde encontrar o sossego
que perturbam comerciantes, notários, credores?

Onde vai o cavaleiro
com passo que se levanta sobre o cinzento das horas?
Acolá, acolá longe;
onde não existe esquecimento,
junto ao seu irmão em melancolia,
a cumprir o seu destino mais secreto e mais livre.

domingo, 29 de novembro de 2020

 FERNANDO ORTIZ


             INTERIOR

                                  (Joaquín Sáenz)

Quien sabe si aquella luz viene de fuera o de adentro
de los alzados visillios. Ni a qu´lado del espejo
surge esa mano de niebla que va dibujando un sueño
de relojes y almanaques, de puertas y verdinegros
salones acristalados que son del agua el reflejo.
Agua de un rio muy hondo que viene desde muy lejos
- Aquí las cosas nos miran con grandes ojos secretos -.

Con parsimonia el reloj suena en el patio en silencio.


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          INTERIOR

                               (Joaquín Sáez)

Quem sabe se aquela luz vem de fora ou de dentro
das cortinas subidas. Nem de que lado do espelho
surge essa mão de névoa que vai desenhando um sonho
de relógios, de almanaques, de portas e verde-negros
salões envidraçados que são da água o reflexo.
Água de um rio muito fundo que vem desde muito longe.
- Aqui as coisas observam-nos com grandes olhos secretos -.

Com parcimónia o relógio soa no pátio em silêncio.


                                   

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

 FERNANDO ORTIZ



                LA PRIMAVERA
                              
                                    (Homenaje a Juan Gil-Albert)

¿Qiuén no anduvo, una vez, en primavera,
ajeno entre los hombres, sólo atento
al canto de los pájaros y al humus
de la tierra de abril tras lluvia leve?

  Una gota de acíbar es entonces
más dulce que la miel. Suaviza
las cuerdas interiores que así pueden
en el pecho vibrar. Y es ese arpegio,
ese trémulo son, cual un misterio
que desde lo hondo clama. Un don supremo.
Una perene primavera triste
y espléndida a la vez. Es un absorto
amor a lo que alienta. Son tus versos.


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             A PRIMAVERA

                              (Homenagem a Juan Gil-Albert)

Quem não andou, uma vez, na primavera,
alheado dos homens, atento apenas
ao canto dos pássaros e ao húmus
da terra de abril depois de chuva leve?

  Uma gota de aloé é então
mais doce que o mel. Suaviza
as cordas interiores que assim podem
vibrar no peito. E é esse arpejo,
esse trémulo som, qual o mistério
que desde o fundo clama. Um dom supremo.
Uma perene primavera triste
e esplêndida ao mesmo tempo. É um absorto 
amor ao qual alenta. São os teus versos.



sábado, 10 de outubro de 2020

 FERNANDO ORTIZ ( SEVILHA, 1947-2014 )


      25 DE FEBRERO DE 1810

                  Blanco White, abandona el Puerto de Cádiz, en
                  el "Lord Howard", rumbo a Inglaterra


Blancas de cal las casas que en el alba se alejan.
  Un tibio sol de invierno va atemperando el aire.
Desde el mar los tejados menos altos y nítidos.
Temo la soledad. Y la melancolia
me invade si contemplo el puerto abandonado
y la ciudad hundiéndose bajo aguas azules.

  Si miro al mar veo sólo  mi presente inestable,
precario, tornadizo, al igual que las aguas
que el "Lord Howard" remueve y aparta con la quilla
- como el tiempo pasado la espuma se disuelve 
mientras el barco sigue seguro su camino -.
Mas levanto mis ojos y un viento ajeno y libre
despeina mis cabellos, acaricia mi cara,
templando mi inquietud ante el vasto horizonte.

  Ahora miro adelante. ¿Qué habrá tras esas nubes?
Dejo tierra y afectos. Perdonadme mi odio
y también el amor que sufro por vosotros
aunque nunca consiga desterraros del alma
habréis de serme extraños. Así, al menos, lo quiero.

  No han de volver mis ojos, ni han de volver mis pasos.
Amo la libertad. Y mi amada no es facil.


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    23 DE FEVEREIRO DE 1810

              Blanco White abandona o porto de Cádiz no
              barco "Lord Howard", rumo a Inglaterra

Brancas de cal as casas que na madrugada se afastam.
Um tépido sol de inverno vai temperando o ar.
Desde o mar os telhados menos altos e nítidos.
Temo a solidão. E a melancolia
invade-me se contemplo o porto abandonado
e a cidade afundando-se debaixo de águas azuis.

  Se observo o mar só vejo o meu presente instável,
precário, volúvel, igual às águas
que o "Lord Howard" remove e divide com a sua quilha
- como o tempo passado a espuma dissolve-se 
enquanto o barco segue seguro o seu caminho -.
Mas ergo os olhos e um vento alheio e livre
despenteia-me os cabelos, acaricia a minha cara,
suavizando a minha inquietação ante o vasto horizonte.

  Agora olho em frente. Que haverá por trás dessas nuvens?
Deixo terra e afectos. Perdoai o meu ódio
e também o amor que sofro por vós :
ainda que nunca consiga desterrar-vos da alma
havereis de ser-me estranhos. Assim, pelo menos, quero.

  Não irão voltar os meus olhos, nem irão voltar os meus passos.
Amo a liberdade. E a minha amada não é fácil.






  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...