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domingo, 5 de março de 2023

 MIGUEL D'ORS


AS TIME GOES BY

                                  A Francisco Bejarano

Decir pestes de él tiene, sin duda,
un sólido presyigio literario
- tacharlo de asesino, por ejemplo,
o compararlo con
uno de eses ciclones con nombre de corista
que pasan y que dejan en los telediarios
un paisaje de grandes palmeras derrocadas
y uralitas errantes
simplemente lamentarlo a base
de tardes y de otoños en pálidos jardines -,
pero ahora, con la mano en el poema,
os lo confieso: he sido siempre yo
el que salió ganando de todos nuestros tratos.
A cambio de esta luz sabia y serena
con la que la experiencia ilumina las cosas
a mí se me ha llevado
solo la juventud, ese divino
tesoro que no sierve para nada
- ya lo dijo Mark Twain - puesto en las manos
insensatas de un joven.

                                               30/31-III-1994    


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AS TIME GOES BY

                                     Para Francisco Bejarano

Dizer o piorio dele tem, sem dúvida,
um sólido prestígio literário                                 
- crismá-lo de assassino, por exemplo,
ou compará-lo com 
um desses ciclones com nome de corista
que passam e que deixam nos telejornais
uma paisagem de grandes palmeiras derrubadas
e uralites errantes,
ou simplesmente lamentá.lo à base
de tardes e de outonos em pálidos jardins -,
mas agora, com a mão no poema,
confesso-vos: fui sempre eu 
que segui a ganhar de todos os nossos encontros.
Em troca de esta luz sábia e serena
com que a experiência ilumina as coisas
a mim levou-me apenas
a juventude, esse divino 
tesouro que não serve para nada
- já o disse Mark Twain - colocado nas mãos
de um jovem.

                                                                        30-31-III-1994

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

 MIGUEL D'ORS


ES LO QUE LLAMAN GLORIA

Desconocidos que te escriben cartas.
En tus versos, confiesan - entre un torpe amasijo
de entusiasmo, inocencia y metáforas ciegas-,
reconocen su vida.

    Muchachos que han quemado unos pedazos
de sus mejores años componiendo,
con la más desapiadada sinceridad, poemas
tuyos (que te parecen tan mediocres
como los tuyos tuyos).

Antologizadores que te ponen,
como ropas extrañas, adjectivos,
etiquetas, propósitos que jamás soñarias.

Amigas de tus hijas que te estudian en Lengua
y que tienen que hacer un comentario
de texto (¿o cementerio?) y te preguntan
sobre las estructuras.

Hispanistas que vienen a enseñarte quién eres.

Y tú siempre dudando -y dudando tus dudas-
si es que ellos no se enteran
de nada, o si tal vez están burlándose
de ti, confabulados
en una broma cósmica (pero este me parece
demasiada crueldad para ser verosímil),
o si acaso -y entonces eres tú
quien no se entera- de tu boca sale
la voz incandescente de algún ángel
-pero esto ya es ponerse demasiado sublime-.

Solo hay dos cosas claras:
que por alguna parte hay un malentendido
y que todo esto embrollo
                                         es lo que llaman Gloria.

                                                          4-XII-1997


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É O QUE SE CHAMA GLÓRIA

Desconhecidos que te escrevem cartas.
Nos teus versos, confessam - entre uma torpe mistura
de entusiasmo, inocência e metáforas cegas -,
reconhecem a sua vida.

    Rapazes que queimaram pedaços
dos seus melhores anos compondo,
com a mais desapiedada sinceridade, poemas
teus (que te parecem tão medíocres 
como os teus teus).

Antologizadores que te põem,
como ropas esquisitas, adjectivos,
etiquetas, propósitos que jamais sonharias.

Amigas das tuas filhas que te estudam na Língua
e têm de fazer um comentário
de texto (ou cemitério?) e te perguntam
sobre as estruturas.

Hispanistas que vêm ensinar-te quem és.

E tu sempre duvidando - e duvidando das dúvidas -
se eles não entendem 
nada ou, se porventura, estão a gozar 
contigo, confabulados
numa piada cósmica (mas tal parece-me
demasiado cruel para ser verosímil),
ou, se por acaso, e então és tu
que não se apercebe -da tua boca sai
a voz incadescente de algum anjo
-mas isto está a pôr-se demasiado sublime-.

Só há duas coisas claras;
que em qualquer parte há um mal-entendido
e que todo este imbróglio
                                          é o que se chama glória.

                                                                        4-XII- 1997

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

 MIGUEL D'ORS


LÓGICA TEOLÓGICA

                                                    A José Luis García Martín

Que eres omnipotente lo proclaman
las rosas, el Cevino, los otoños 
de Vermont, las gaviotas
y Concha Valladares.
                                   Por lo tanto,
haber hecho los lunes,
las albas ciudadanas
y las poetisas españolas
                                        tiene 
que haber sido por darnos
ejemplo de modestia.

                                        15-XII-1994


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LÓGICA TEOLÓGICA

                                           Para José Luis García Martín

Que és omnipotente proclamam-no
as rosas, o Cervino, as gaivotas 
e Concha Valladares.
                                   No entanto,
ter feito as segundas-feiras,
as albas citadinas
e as poetisas espanholas
                                        tem
que ter sido para dar-nos
exemplo de modéstia.

                                          15-XII-1994

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

 MIGUEL D'ORS


PARADA DE DIEZ MINUTOS

                       A Fernando González Caballero y Nati G. Rejón

El tren se ha detenido. "Dez minutos", avisa
por algún sitio un altavoz raído.
A través del cristal empañado, la tarde,
que se adormece bajo la llovizna.
                                                      Debajo
de un paraguas lustroso, en un pradillo
puesto como un remiendo en la ladera,
un paisano, fumando, apacienta dos vacas
de color de avellana.
                                  De pronto, qué nostalgia
de ser ese hombre oscuro, de que mi vida fuesen
sus vacas, su paraguas y su boina,
sus prados y sus sendas de agua negra,
su volver, ya de noche, con hierba en los zapatos,
al fuego familiar
(y me imagino el vaho que exhalará su ropa
mientras que la parenta trajina con la cena),
su gesto antiguo cuando parta el pan,
feliz con esa plena felicidad que gozan
los que ignoran que existe algo llamado
felicidad...
                  Que ese hombre no se vuelva,
que su mirada no se encontre con la mía,
que el tren se ponga en marcha
antes que en sus ojos brille la miserable 
nostalgia de ser yo.

                                        23/30-XII-1996


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PARAGEM DE DEZ MINUTOS

                                Para Fernando González Caballero e Nati G. Rejón

O comboio parou. "Dez minutos", avisa,
de parte incerta, um altifalante roufenho.
Através de vidros embaciados, a tarde,
que adormece sob o chuvisco.
                                                 Debaixo
de um guarda-chuva lustroso, num pradinho
colocado como remendo na ladeira,
um paisano, fumando, apascenta duas vacas
cor de avelã. 
                     De imediato, que nostalgia
de ser esse homem obscuro, de que a minha vida fosse
as suas vacas, o seu guarda-chuva e a sua boina,
os seus prados e as suas veredas de água negra,
o seu regresso, já de noite, com erva nos sapatos
ao fogo familiar
(e imagino o bafo que exalará a sua roupa
enquanto a comadre se atarefa no jantar),
o seu gesto antigo de partir o pão,
feliz com essa felicidade que gozam
os que ignoram que existe algo chamado
felicidade...     
                    Que esse homem não se volte,
que o seu olhar não se encontre com o meu,
que o comboio arranque
antes que nos seus olhos brilhe a miserável
nostalgia de ser eu.

                                             29/30-XII-1996

domingo, 7 de agosto de 2022

MIGUEL D'ORS

 UN SONETO ME MANDA HACER QUEVEDO

Desayanuos noticias opiniones
martes lluvias atascos "buenos días"
clases fichas cafés bibliografías
facturas doctorados macarrones

semanas conferencias comisiones
alumnas primaveras guerras trajes
adioses onomásticas viajes
cartas amigos libros vacaciones

y se me van los años y me meto
ya en los últimos versos del soneto
y me alejo de mí en veloz huida

y contemplando tanta nada junta
mi casi medio siglo se pergunta
dónde demonios estará la vida

                                         10-XI-1995


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UM SONETO ME MANDA FAZER QUEVEDO

Desjejuns notícias opiniões
terças-feiras chuvas engarrafamentos "bons dias"
aulas fichas cafés bibliografias
facturas doutorados macarrões

semanas conferências comissões
alunas primaveras guerras trajes
adeuses aniversários viagens
cartas amigos livros férias

e os anos vão-se-me e meto-me
já nos últimos versos do soneto
e afasto-me de mim em veloz fuga 

e contemplando tanto nada junto
o meu quase meio século pergunto
em que demo estará a vida

                                     10-XI.1995

domingo, 19 de junho de 2022

 MIGUEL D'ORS

AGRADECIMIENTO

Ya que la edad empieza
a empujarme al adiós,
mi Musa a preocuparse
por la jubilación
y, por decirlo todo,
a ser un buen montón
los críticos que piensan
que em mí voz se acabó
lo que se daba,
                         amigos,
lectores, afición 
en general, por si
no tengo otra ocasión,
quiero dar aquí gracias
al colaborador
que en todos estes años
jamás me abandonó.

Simon teve a Garfunkel
y Manolo a Ramón;
don Antonio Machado
a su hermano mayor;
a Quintero y Quiroga
Rafael de León.
Yo tuve la fortuna
de poder contar con 
con alguien que conocía
mucho mejor que yo
el color y el perfume
y el peso y el sabor
de las palabres, alguien
que siempre mejoró
mis versos, que ni una
sola hora dejó
de trabajar en ellos,
por más que miguel d'ors
se fuese, se olvidase,                  
se obnubilase. Y no
sonó nunca su nombre
en la prensa. En su honor
levanto aquí esta copa
agradecida. Estoy
hablando - una vez más -
del tiempo, un gran autor.

                               28/29-X-2004


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AGRADECIMENTO

Já que a idade começa
a empurrar-me para o adeus,
a minha Musa a preocupar-se
com a jubilação
e, para dizer tudo,
a ser uma boa maquia
de criíticos que pensam
que na minha voz acabou
o que se dava, 
                        amigos,
leitores, aficionados
em geral, se, por acaso,
não tenha outra ocasião,
quero aqui agradecer
ao colaborador
que nestes anos todos
nunca me abandonou.

Simon teve Garfunkel
e Manolo teve Ramón;
don Antonio Machado
ao seu irmão mais velho;
A Quintero e Quiroga
Rafael de León.
Eu tive a fortuna
de poder contar com
alguém que conhecia
muito melhor que eu
a cor e o perfume
e o peso e o sabor
das palavras, alguém 
que sempre melhorou 
os meus versos, que nem uma
única hora deixou
de trabalhar neles,
por mais que miguel d'ors
fugisse, se esquecesse,
se obnubilasse. E nunca
apareceu o seu nome
na imprensa. Em sua honra
levanto aqui esta taça
agradecida. Estou 
falando - uma vez mais -
do tempo, um grande autor.

                                 28/29-X-2004        

quarta-feira, 4 de maio de 2022

MIGUEL D'ORS


ORACIÓN POR NOSOTROS, LOS DE SIEMPRE


                                   "Todo esto del Concilio está muy bien, pero
                                                  desengañate: al final, al Cielo iremos los de
                                                  siempre".

                                                      (De un chiste de Mingote)

Aqui estamos nosotros, los de siempre,
nuestra virtud, que Tú tan bien conoces.

Nosotros te creímos casi desde la cuna,
y hasta aqui Te seguimos
con paso regular, sin armar alboroto.
Perdónanos, Señor.
                                Ni un minuto de duda.
No robamos a nadie, no injuriamos;
a la mujer del prójimo, ni un siquiera mirarla;
no quebrantamos nunca
el domingo, la Pascua, los ayunos,
los diezmos y primicias. Tú lo sabes:
los tuyos siempre. (Y sabes
que no sieümpre fue fácil). Perdónanos, Señor.

Mientras nuestros hermanos menores se embriagaban
en burdeles rfemotos, nosotros con los bueyes,
podando, vendimiando de sol a sol, doblados,
aguantándole al viejo
su malhumor, su gota, el que siempre estuviera
hablándonos del otro - el sinvergüerza aquel-.
Y de dinero, justos. Perdónanos, Señor.

Cuando Simón ("el Piedra") 
Te negaba tres veces (y nosotros
temblábamos detrás de los olivos),
nuestro silencio estaba -Tú lo sabes-
contigo. Y no digamos cuando Judas
Te traicionó. Perdónanos, Señor.

A nosotros no nos
hizo falta que nos crucificasen
a Tu derecha para creer en Ti -a última hora,
viendo ya de muy cerca
las puertas del Infierno ("Así cualquiera")-,
ni caer de un caballo,
ni reclamar a voces confesión
como los bandoleros de las viejas comedias,
que ene un solo minuto ¡zas!, santos de primera.
Nosotros veinticuaro horas al día,
treinta días al mes, doce meses al año,
rectos en Tu camino. Perdónanos, Señor.

Mientras otras ovejas se Te decarrilaban,
nosotros, gente de orden,
responsables, tranquilos, trabajando,
artesanos callados, en nuestra salvación.
Perdónanos, Señor.
                                Porque no Te entendiemos:
vuelve a casa el perdido
aquel, olendo a piara todavía,
y Tú que le organizas la gran fiesta;
a los que se pusieron
a trabajar cuando era prácticamente noche,
el 100% del sueldo; y a Simón le haces Papa.
Y nosotros, perplejos: "Pues si que fuimos primos".
Perdónanos, Señor.
                                No Te entendimos.
Algunos nos decían: "Os ha faltado Amor";
y hubo quien sentenció que las mismas rameras
entrarán en Tu reino delante de nosotros.
Y nosotros, perplejos: "Qué justicia es la Tuya?"
Perdónanos, Señor.
                               Tú sabes que lo hacíamos
todo por agradarte.
Tú sabes que si fuimos como fuimos,
si tuvimos estrecho el corazón,
si medimos en gramos, segundos y milímetros
la inmensidad de Tu misericordia
fue porque así formábamos parte de Tus designios:
la sombra que hace más clamorosa la luz.
Perdónanos, Señor. Y en nuestras obras mira,
más que los resultados,
                                      las buenas intenciones.

                                                           30-I-2003


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ORAÇÃO POR NÓS. OS DE SEMPRE

                                "Tudo isto do Concílio está muito bem, mas
                                desengana-te: no fim, para o céh, iremos os de
                                sempre".

                                             (De um chiste de Mingote).

Aqui estamos, os de sempre,
a nossa virtude, que Tu tão bem conheces.

Cremos em Ti quase desde o berço,
e até aqui Te seguimos
com passo regular, sem armar alvoroço.
Perdoa-nos, Senhor.
                                 Nem um minuto de dúvida.
Não roubamos ninguém, não injuriamos;
à mulher do próximo, nem sequer mirá-la;
não falhamos nunca o domingo, a Páscoa, os jejuns,
os dízimos e prmícias. Tu sabe-lo:
teus sempre. (E sabes 
que nem sempre foi fácil). Perdoa-nos, Senhor.

Enquanto os nossos irmãos menores se embriagavam
em bordéis remotos, nós, com os bois,
podando, vindimando de sol a sol, dobrados,
aguentando ao velho
o seu mau humor, a sua gota, que estivesse sempre
a falar-nos do outro -esse sem vergonha-.
E de dinheiro, apertados. Perdoa-nos, Senhor.

Quando Simão ("o Pedra")
Te negou três vezes (e nós 
tremiamos atrás das oliveiras)
o nosso silêncio estava - Tu sabe-lo -
contigo. Para não falar quando Judas
Te atraiçoou. Perdoa-nos, Senhor.

A nós não
foi necessário que nos crucificassem 
à Tua direita para crer em Ti - à última hora,
vendo já de muito perto
as portas do Inferno ("Assim qualquer um") -,
nem cair de um cavalo,
nem reclamar aos gritos confissão
como os bandidos das velhas comédias
que num minuto, zás!, santos de primeira.
Nós, vinte e quatro horas por dia,
trinta dias por mês, doze meses por ano,
rectos no Teu caminho. Perdoa-nos, Senhor.

Enquanto outras ovelhas se desencaminhavam,
nós, gente de ordem,
responsáveis, tranquilos, trabalhando,
artesãos calados, na nossa salvação.
Perdoa-nos, Senhor.
                                 Porque não Te entendemos:
volta a casa aquele 
perdido, cheirando ainda a bedum
e Tu organizas-lhe a grande festa;
a trabalhar quando era praticamente noite,
100% de soldo: e a Simão fazes Papa.
E nós, perplexos: "Pois se fomos primeiros".
Perdoa-nos, Senhor.
                                 Tu sabes que fazíamos
tudo para agradar-te.
Tu sabes que se fomos como fomos,
se tivemos o coração estreito,
se medimos em gramas, segundos e milímetros
a imensidão da Tua misericórdia
foi porque assim formàvamos parte dos Teus desígnios:
a sombra que torna mais resplandecente a luz.
Perdoa-nos, Senhor. E nas nossas obras repara,
mais que nos resultados,
                                        nas boas intenções.

                                                        30-I-2003


segunda-feira, 21 de março de 2022

MIGUEL D'ORS 

CONVERSACIÓN CON EL OTRO

Lo sabemos los dos: somos muy diferentes
y coincidimos poco en opiniones
y costumbres: tú seco, altivo, formalista;
yo tímido, inseguro, con la lágrima fácil.
Tú miembro diligente 
del Opus Dei; yo pecador, oveja
blanca y negra, y un tanto cimarrona,
del rebaño de Cristo, con muy poco entusiasmo
por los curas. Tú serio; yo proclive a reírme
del Sistema Solar,
de ti, de mí y aun de mi propria risa.
Tú un burgués sin problemas; yo un problema
bancario vitalicio. Tú huraño y solitario;
yo multitudinario de amistad
y solitario. Tú de derechas; yo todo
dificultades para diferenciar el asco
del comunismo y del consumismo.

Pero después, fantasma advenedizo,
criatura del rencor, después de tantos
años de compartir el mismo nombre,
de llevarte a mi lado noche y día
junto a mi Àngel Custodio (vaya dúo),
de verte llegar siempre a todas partes
por delante de mí - y oír el alboroto,
hacer de tripas corazón, y adentro -,
después de tantas tortas
dirigidas a ti que terminaron
en mi cara(1), no es raro
que hayamos acabado comprendiéndonos
y hasta, de alguma forma, ya lo vea,
teniéndonos cariño.
                                         26-III-2003

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1 ¿Recuerdas, por ejemplo, la llegada a Granada,
qué bonita campaña, con carteles,
llamada al orden del decano, etcétera?,
¿y mi larga carrera de poeta inexistente?
¿y aqueelos silogismos bizantinos
con que los editores rechazaban mis libros
creyendo que eran tuyos?


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Sabemo-lo os dois: somos muito diferentes
e coincidimos pouco em opiniões
e costumes - tu seco, altivo, formal;
eu tímido, inseguro, de lágrima fácil.
Tu, membro diligente
da Opus Dei, eu, pecador,
ovelha branca e negra, e um tanto tresmalhada,
do rebanho de Cristo, com muito pouco entusiasmo
pelos curas. Tu, sério; eu, propenso a rir-me 
do Sistema Solar,
de ti, de mim e do meu próprio riso.
Tu, um burguês sem problemas; eu, um problema
bancário vitalício. Tu, arredio e solitário,
eu, de amizades multitudinárias
e solitário. Tu das direitas, eu cheio
de dificuldade para distinguir o asco
do comunismo e do consumismo.

Mas depois, fantasma arrivadiço,
criatura do rancor, depois de tantos 
anos de partilhar o mesmo nome,
de levar-te ao meu lado noite e dia
junto ao meu Anjo Custódio (que duo)
de ver-te chegar sempre a todo o lado
à minha frente - e ouvir o alvoroço,
fazer das tripas coração e adiante -, 
depois de tantas tortas
que te eram dirigidas acabarem 
na minha cara(1)  não é bizarro
que tenhamos acabado por nos compreender
e até, de alguma forma, vá lá,
a ter-nos carinho.

                                              26-III-2003

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(1) Recordas, por exemplo, a chegada a Granada,
que bonita campanha, com cartazes,
chamada à ordem do decano, etcétera?
e a minha longa carreira de poeta inexistente?
e aqueles silogismos bizantinos
com que os editores recusavam os meus livros
crendo que eram teus?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

 MIGUEL D'ORS

CONVERSACIONES TRAS SU DETENCIÒN

Como disimulaba el muy, ni un día
dejó de dar su clase, y qué pontualidad
con la corbata y los usteds, un hombre
de una sola mujer, su Misa los domingos,
escribiendo medido, muchas veces 
con rima, siete hijos, yo lo vi confesándose,
el único contento con su sueldo,
en su clase ni el Estructuralismo
ni la Desconstrucción, tan anodino,
nunca en un sindicato ni una huelga,
él su rutina, y vaya una manera
de reírse del arte contemporáneo, daba 
pésames, enviaba crismas por Navidad,
felicitaba el santo a los amigos,
llamaba la atención el poco que llamaba
la atención, quién hubiera podido imaginarlo,
detrás de todo aquello comedimiento
iba la dinamita, cómo disimulaba,
quién hubiera podido imaginar
que todo aquello era
un plan milimetrado para hacer
pedazos el Sistema.

                                    Por el monte Castrove, 19.XI.2009


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CONVERSAS APÓS A SUA DETENÇÃO

Quanto dissimulava ele, nem um dia
deixou de dar a aula, e que pontualidade
com a gravata e os cumprimentos, um homem
de uma única mulher, a sua Missa aos domingos,
escrevendo com medida, muitas vezes
com rima, sete filhos, eu vi-o confessando-se,
o único contente com o seu salário,
nas suas aulas nem o Estruturalismo,
nem a Desconstrução, tão anódino,
nunca num sindicato, ou numa greve,
coma a sua rotina e essa maneira 
de rir-se da arte contemporânea, dava
pêsames, enviava boas-festas pelo Natal,
felicitava os amigos no aniversário, 
chamava a atenção o pouco que chamava
a atenção, quem houvera podido imaginá-lo,
detrás de todo aquele comedimento
ia a dinamite, como dissimulava,
quem houvera podido imaginar
que tudo aquilo era
um plano milimétrico para fazer
em pedaços o Sistema.

                                            Pelo monte Castrove, 19-XI-2009                                      

sexta-feira, 22 de outubro de 2021


MIGUEL D'ORS

LOS PLACERES PROHIBIDOS

                                                               A mi hermana Rafa y a Jose

Una copa de vino de la Rioja,
una copa en que, roja
y olorosa, destella na alegría
sencilla, solidaria y aun diria
católica; una copa en que se encierra
la verdad primigena de la tierra
y el sol, qué algarabia
de sabores, de aromas y de sueños:
pinceladas de roble y caramelo,
de setiembre, de nuez,
de musgo, unos pequeños
toques de piedra gótica, un tal vez
como de terciopelo...
y de pronto un sabor a no sé qué
que eleva al cubo el goce... ¡Ya lo sé:
es el inigualable sabor de lo prohibido!

El mismo de fumar
un lento cigarillo distraído:
qué placer degustar
el leve azul del humo, sus volutas ociosas,
admirar cómo sube,
sutil y digresivo,
con vocación de nube
cuando además se sabe
que es humo subversivo
contra el presente estado de las cosas
y elevarse con él -si azul, si gris... -
hacia el libre país
de los ensueños, suave-
mente...
              Pero el placer
más intenso y profundo
de todos cuantos caben en el mundo,
un goce tan sereno y a la vez tan ardiente
que es imposible que haya
otro que se le pueda parecer,
es este de saber
que uno es, gracias a Dios, exactamente
todo lo que aborrece esa canalla.

                                         14//II/2007/Poyo, 29/XI/2009    


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OS PRAZERES PROIBIDOS 

                                       À minha irmã Rafa e a José

Um copo de vinho de Rioja,
um copo em que, vermelho 
e fragrante, cintila uma alegria
simples, solidária e diria mesmo
católica, um copo em que se encerra
a verdade primígena da terra
e o sol, que algaravia
de sabores, de aroma e de sonhos
pincelados de carvalho e caramelo,
de setembro, de noz,
de musgo, uns pequenos 
toques de pedra gótica, um talvez
como de veludo...
e de súbito um sabor a não sei quê
que eleva ao cubo o gozo...! Já sei:
é o inigualável sabor do proibido!

O mesmo quanto a fumar
um lento cigarro distraído:
que prazer degustar
o leve azul do fumo, as suas volutas ociosas,
admirar como sobe,
subtil e digressivo,
com vocação de nuvem,
quando além disso se sabe
que é fumo subversivo
contra o presente estado das coisas
e elevar-se com ele - tão azul, tão cinzento... -
até ao livre país 
dos sonhos, suave
-mente.
             Mas o prazer
mais intenso e profundo
de todos quantos cabem no mundo,
um gozo tão sereno e ao mesmo tempo tão ardente
que é impossível que haja
outro que se lhe possa comparar,
é este de saber
que se é, graças a Deus, exactamente 
tudo o que aborrece essa canalha.

                                       14-II-2007/ Poyo, 29-XI.2009                                               

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

 MIGUEL D'ORS


MIS SIETE MOTIVOS PARA DESEAR 

QUE NO ME DEDIQUEN UNA CALLE

Primero: que quién sabe
dónde iria parar mo pobre nombre.
no iba a estar mi recuerdo mosqueado
si le pantan al lado un puticlub,
una herrika taberna o hasta puede un banco.

Segundo: por no ver entre los bombos
retóricos de la inauguración
- solo con otras caras y otras fechas -
los mismos figurones que ahora
me honran con su despego.

Tercero: porque mi imaginacíon
ya está assistiendo al pleno en que otro ayuntamiento
aprueba echar abajo mi memoria
para sustituirla por sabe Diós cuál otra 
más políticamente fotogénica.
Arróhemosle trabajo a los ilustrisísimos.

Cuarto: que los conozco
y sé que a finde cuentas lo que me dedicasen
iba a ser una rúa o una kalea,
pero nunca la calle prometida,
que no está el horno para mucha España.

Quinto: porque el futuro,
al verme celebrado por mi tiempo,
acaso pensaría que fui cómplice de él.
Que quede claro, frères humains, que yo no tuve
nada que ver con esto.
 
Sexto: porque uno es 
tan redondamente vanidoso
que prefiere mil veces presumir de modestia
a presumir de placa,
así fuese de bronce de Carrara.

Y además, que la d, la O y el apóstrofo
no se ponen así.
                                            Santiago,17/XI/Poyo 18/XI-2009


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OS MEUS SETE MOTIVOS PARA DESEJAR
QUE NÃO ME DEDIQUEM UMA RUA

Primeiro: quem sabe
onde irá parar o meu pobre nome.
Não ia estar a minha recordação manchada
se o plantam ao lado de uma casa de putas,
uma herrika taberna ou até mesmo um banco.

Segundo: para não ver entre os bombos
retóricos da inauguração
- só que com outras caras e outras datas -
os mesmos figurões que agora mesmo
me honram com o seu despego.

Terceiro: porque a minha imaginação 
já está assistindo ao plenário em que outra câmara                          
aprovou deitar abaixo a minha memória
para substituí-la por sabe Deus qual outra
mais politicamente fotogénica.
Poupemos trabalho aos ilustrissíssimos.

Quarto: que os conheço
e sei que, no fim contas, o que me dedicassem
iria ser uma rúa ou uma kalea,
nunca a rua prometida,
que não convém a muita Espanha.

Quinto: porque o futuro
ao ver-me celebrado no meu tempo,
acaso pensaria que fui cúmplice dele.
Que fique claro, fréres humains, que não tive
nada a ver com isto.

Sexto: porque se é 
tão supinamente vaidoso,
que se prefere mil vezes parecer maldito
que fingir de placa,
ainda que fosse de bronze de Carrara.

E, além disso, que o D, o O e o apóstrofe
não se colocam assim.

                                                  Santiago, 17/XI/Poyo, 18/XI/2009

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