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terça-feira, 29 de março de 2022

 ANTHONY HECHT

PUBLIC GARDENS

"Flow'rs of all hue," a sightless Milton wrote
Of Paradise, which doesn't mean "all flowers."
An impoverished exile in his loneliest hours
Knows that not everybody makes the boat.

He has not mastered the language, he still retains
A craving for some remembered native dishes;
These sorrowful foreign skies, all smoke and ashes,
Remain uncleansed by the pummeling winter rains.

Jobless, he mopes in the shabby public gardens
Where importunate pigeons harry him for food.
Back in the dark unwelcome solitude
Of his attic room, he can view through the daisied curtains

The pantile roofs of this dirty little port.
But without passport or valid papers his fate
Lies with officials. Immense reasons of state
Conjoin to deny him permission to depart.

His a sad but not uncommon lot,
Familiar to border guards, to police and such.
Even plantain, spleenwort, lichen, tuber and vetch
May be found in Paradise; the teasel not.


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JARDINS PÚBLICOS

"Flores de todos os matizes", um Milton cego escreveu
Do Paraíso, o que não significa "todas as flores."
Um exilado empobrecido nas suas horas mais solitárias
Sabe que nem todos conseguem apanhar o barco.

Ele não dominou a língua, ainda conserva 
O apetite por certos pratos nativos, que recorda;
Estes céus estranhos, penosos, cheios de fumo e cinzas,
Que a chuva invernal fustiga e não consegue dissipar.

Desempregado, varre jardins públicos ignóbeis,
Onde pombos inoportunos o atormentam por comida.
De volta à sua solidão escura, indesejada,
Do seu quarto no sótâo, vê através de cortinas decoradas com              [margaridas

Os telhados com goteiras deste pequeno porto sujo.
Mas sem passaporte ou papéis válidos, o seu destino
Está nas mãos da lei. Razões imensas de estado
Conjugam-se para lhe negar permissão para partir.

O seu género é triste, mas não incomum,
Familiar a guardas fronteiriços, polícia e afins.
Mesmo tanchagem, asplénio, líquen, túbera e            [ervilhaca
podem encontrar-se no Paraíso; o cardo não.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

 ANTHONY HECHT

A BRIEF ACCOUNT of OUR CITY

for Dorothea Tanning

If you approach our city from the south,
The first thing that you'll see is the Old Fort,
High on its rocks. Its crenellated walls,
Dungeons and barbicans and towers date back
To the eighth century. The local barons
Of hereditary title moved their courts
Inside whenever they were under siege
With all their retinues, taxing the poor,
Feuding with neighboring baronies, masterful
Only in greed and management of arms,
Great murderous vulgar men, they must have been.
The fort, history records, was never taken.
It might be worth a visit when you come.
For a mere thirty kroner you can ascend
The turrets for a quite incomparable view.
From there our forests look a lot like parsley
And cress; there the wind enters your throat
Like an iced mountain stream. Piled here and there
You will find pyramids of cannonballs
In the great courtyard, stacked with croquembouches,
Warm to the touch where the sun glances off them
Ana chilly in the shade. The arsenal,
Containing arquebuses, fruitwood bows,
As well as heavy mortars and great cannons,
Is open to the public. The furniture
Is solid, thick and serviceable stuff,
No nonsense. But what may strike you most of all
Is the plain, barren spareness of the rooms.
No art here. Nothing to appease the ever.
And not because such things have been removed
To our museums. This was the way they lived:
In self-denying, plain austerity.
As you draw nearer to the city itself
You will make out, beyond the citadel,
The shapely belfry of our Lady of Sorrows.
Then you will see, in the midst of a great field,
Surrounded on all sides by acres of wheat,
A large, well-cared-for, isolated house -
No others neighboring, or even within view -
Which is given, free of charge by the city board
To the Public Executioner. His children
Are allowed a special tutor, but not admitted
To any of our schools. The family
Can raise all that's requires for their meals
Right on the grounds, and, if need be, a doctor
Will call on them, given half a day's notice.
The children are forbidden to leave the place,
As is, indeed, the entire family,
Except when the father is called upon
To perform official duties. And by this means
Everyone is kept happy; our citizens
Need have no fear of encountering any of them,
While they live comfortably at our expense.
Whenever you visit, be certain that you dine
At one of our fine restaurants, don't miss
The Goldene Nockerl, which for potato dumplings
Cannot be matched, and our rich amber beer
Is widely known as the finest in this region.


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UM RELATÓRIO BREVE SOBRE A NOSSA CIDADE

Para Dorothea Tanning


Se vos aproximardes da nossa cidade pelo sul,
A primeira coisa que vereis é o Velho Forte,
Erguido no seu penhasco. Os seus muros crenelados,
Masmorras e barbicãs e torres datam 
Do século oitavo. Os barões locais
De título hereditário transferiam as suas cortes
Para o interior, sempre que estavam cercados,
Com todo o seu séquito, taxando os pobres,
Guerreando com baronias vizinhas, excelsos
Apenas na ganância e no manejo das armas.
Homens vulgares, grandemente homicidas, deverão ter sido.
O forte, regista a história, nunca foi tomado.
Poderá valer uma visita, quando aqui vierem.
Por apenas trinta kroner pode subir-se
Aos torreões para uma vista verdadeiramente incomparável.
De lá as nossas florestas parecem bastante salsa
E agrião; lá o vento entra-vos pela garganta
Como regato de montanha gelado. Empilhadas por ali
Encontrarão pirâmides de balas de canhão
No enorme pátio, armazenados como pastéis de nata,
Cálidos ao tacto onde o sol neles se reflecte
E gélidos à sombra. O arsenal, 
Contendo arcabuzes, arcos de madeira,
Bem como morteiros e grandes canhões, 
Está aberto ao público. A mobília
É sólida, material resistente e utilitário,
Sem pretensões. Mas o que mais poderá surpreendeÉ o Despojamento chão, árido, das salas.
Aqui não há arte. Nada que agrade à vista..
E não porque tais coisas tenham sido removidas
Para os nossos museus. Era a forma como viviam:
Com austeridade dessinteressada, chã.
Quando chegardes mais perto da cidade
Ireis avistar, depois da cidadela,
O campanário esbelto de Nossa Senhora da Mágoas.
Depois vereis, no mei de um grande campo,
Rodeado por todos os lados de acres de trigo,
Uma casa grande, cuidada, isolada -
Nenhuma outra perto ou mesmo visível -
Que é oferecida, sem encargos, pela vereação
Ao Carrasco Público. Aos seus filhos
É autorizado um tutor privado, mas não são admitidos 
Em nenhuma das nossas escolas. A família
Pode cultivar tudo o que necessita para comer
No território circundante e, se necessário, um médico
Pode ser chamado com meio dia de antecedência.
As crianças estão proibidas de sair do local,
Como também, por certo, a família inteira,
Excepto quando o pai, apenas, é convocado
Para exercer os seus deveres oficiais. E desta forma
Toda a gente se mantem feliz; os nossos cidadãos
Evitam ter receio de encontrar algum deles,
Enquanto eles vivem, confortavelmente, à nossa custa.
Sempre que visitardes, garanti jantar
Num dos nossos bons restaurantes; não percam
O Goldene Nockerl, cujos bolinhos de batata
Não têm igual, e a nossa capitosa cerveja ambarina
É conhecida como a melhor da região.

sábado, 8 de janeiro de 2022

ANTHONY HECHT


A FALL


Those desolate, brute, chilling sublimities,
Unchanging but as the light may chance to fall, 
Deserts of snow, forlorn barrens of rock,
What could be more indifferent to man´s life
Than your average Alp, stripped to the blackened band sheets one
Above the tree line, except where the ice rags,
Patches, and sheets of winter cling yearlong?
The cowbell's ludicrous music, the austere
Sobrieties of Calvin, precision watches,
A cheese or two, and that is all the Swiss
Have given the world, unless we were to cite
The questionable morals of their banks.
But how are people to live in dignity
When at two p.m. the first shadows of night,
Formed by the massive shoulder of some slope,
Cast, for the rest of the day, entire valleys -
Their window boxes of geraniums,
Their cobbles, pinecones, banners and coffee cups -
Into increasing sinks and pools of dark?
And that is but half the story. The opposing slope
Keeps morning from its flaxen charities
Until, on midsummer days, eleven-thirty,
When fresh birdsong and cow dung rinse the air
And all outdoors still glistens with night-dew. 
All this serves to promote a state of mind
Cheerless and without prospects. But yesterday
I let myself, in spite of dark misgivings,
Be talked into a strenuous excursion
Along one high ridge promising a view.
And suddenly, at a narrowing of the path,
The whole earth fell away, and dizzily
I beheld the most majestic torrent in Europe,
A pure cascade, over six hundred feet,
Falling straight down - it was like Rapunzel's hair,
But white, as if old age and disappointment
Had left her bereft of suitors. Down it plunged,
Its great, continuous, unending weight
Toppling from above in a long shaft
Or carven stem that broke up at its base
Into enormous rhododendron blooms
Of spray, a dense array of shaken blossoms.
I teetered perilously, scared and dazed,
And slowly, careful of both hand and foot,
Made my painstaking way back down the trail..
That evening in my bedroom I recalled
The scene's terror and grandeur, my vertigo
Mixed with a feeling little short of awe.
And I retraced my steps in the secure
Comfort of lamplight on a Baedeker.
That towering waterfall I just had viewed
At what had seemed the peril of my life
Was regarded locally with humorous
Contempt, and designated the Pisse-Vache.


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UMA QUEDA

Estas sublimidades desoladas, grosseiras, arrepiantes,
Imutáveis, excepto pelo acaso da luz que nelas cai,
Desertos de neve, aridez desamparada de rocha
Que poderia ser mais indiferente à vida humana
Que o mais trivial dos Alpes, despojado até ao osso escurecido
Acima da linha das árvores, a não ser, os farrapos de gelo,
Manchas e lençóis do inverno se grudam todo o ano?
A música risível dos chocalhos das vacas, as sobriedades
Austerras de Calvino, relógios de precisão,
 Um queijo ou dois, é tudo o que os suíços
Deram ao mundo, a não ser que se cite
A moral questionável dos seus bancos.
Mas, como poderão as pessoas viver com dignidade,
Quando às duas da tarde as primeiras sombras da noite,
Formadas pelos bordos massivos de alguma encosta
Arrastam, pelo resto do dia, vales inteiros -
As caixas de gerânios nas janelas,
Calçadas, pinhas, bandeiras e chávenas de café -
Para crescentes fossas e charcos de escuridão?
E isso é apenas metade da história. A encosta oposta
Mantem a manhã afastada das suas esmolas de linho
Até que, nos dias do meio do verão, às onze e meia,
Novos cantos de pássaros e esterco de vaca se elevam
E todo o exterior ainda brilha com orvalho nocturno.
Tudo isto serve para promover um estado de espírito
Sem jovialidade e sem perspectivas. Mas, ontem
Consenti-me , apesar de pressentimetos sombrios,
Ser convencido por uma excursão esforçada
Ao longo de uma crista desolada prometendo uma vista.
E, de súbito, quando a vereda estreitava,
A terra inteira desabou e estonteado
Contemplei a torrente mais majestosa da Europa,
Uma cascata pura, de mais de seiscentos pés,
Caindo a pique - era como o cabelo de Rapunzel,
Mas branco, como se desapontamento e velhice
Lhe tivessem roubado os pretendentes. Mergulhava,
O seu peso enorme, contínuo, infindável,
Desabando desde cima numa longa coluna
Ou caule cinzelado que rebentava na base
Em gigantescas florescências de rododendro
De espuma, um arranjo denso de flores sacudidas.
Vacilei perigosamente, assustado e aturdido,
E lentamente, tendo cuidado com mãos e pés,
Regressei laboriosamente ao declive da vereda.
Nessa noite, no meu quarto, recordei
O terror e a grandeza da cena, a minha vertigem
Misturada com uma emoção muito próxima do terror.
E percorri de novo os meus passos no conforto
Seguro da luz da lâmpada, num Roteiro Turístico.
Essa queda de água grandiosa que tinha visto,
Ao que me pareceu em risco de vida,
Era considerada localmente com desprezo 
Humorado e designada Pisse-Vache.


segunda-feira, 27 de setembro de 2021

ANTHOHY HECHT

A DEATH IN WINTER

                                 IN MEMORY OF JOSEPH BRODSKY,
                                                             born May 24, 1940, Leningrad,
                                                             died January 28, 1996, BROOKLYN.



Delicate sensors registered the shock,
Cool scanners  shuddered but went unobserved;
It was very dark, of course, the city scarved
In the sleeping death of each day's light, each clock

Reckoning that brief moment only in passing.
Historian, watchman, made their careful note
Of power surges and ebbs, who's in, who's out.
At he hourly Bellevue bed-check no one was missing.

But this tremor, beyond the ten-tone Richter scale,
Unsettles us more, with its quiet ultra-sound,
Than could tectonic plates, the underground
Turning of coats and strata, the old turmoil

And trepidation od societies and spheres.
Spaces are mourners. Prospect Park is the first
To cloak itself in darkness. Well rehearsed,
The Nevsky Prospect blacks out, disappears,

And before St. Mark's, the whole world living room
Empties and floats away (as the spirit does)
With its pigeons and its tiny orchestras,
While the Luxembourg' stone gentry pace and roam

In solitary grief. Time itself mourns,
Going back to the same hour as if in search,
Time and again, of bedroom, study, porch,
In nightly, demented, desperate returns,

Looking for something lost, a loss untold,
Greater than many of us understand.
In the Republic of Letters one fine hand,
Cyrillic, cursive, American, has been stilled.

Survivor of show trial, of state oppression,
Exiled from parents, language, neighbourhood,
Tjis man was the lasting sovereignity of the word,
Beyond the grasp of politics or fashion,

The hawk's domain and climate, whose largesse
Comes as a gift of snow from the obscure
Mid-winter gray in verse precise and pure,
He now dwells in the care of each of us.

Reader, dwell with his poems. Underneath
Their gaiety and music, note the chilled strain
Of irony, of felt and mastered pain,
The sound of someone laughing through clenched teeeth.


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UMA MORTE NO INVERNO
                                              IN MEMORY OF JOSEPH BRODSKY,
                                                                                     nascido 24 de Maio de i940, Leninegrado,
                                                                                     falecido 28 de Janeiro de 1996, Brooklyn.

Sensores delicados registaram o choque,
Antenas indiferentes tremeram, mas não foram observadas;
Estava muito escuro, é certo, a cidade encaixada
Na morte do sono da vida de cada dia, os relógios

Reconhecendo esse momento breve, apenas pela passagem.
Historiador, vigilante, tomaram nota cuidadosa
Das marés do poder, quem dentro, quem fora,
Na horária contagem de camas de Bellevue ninguém faltava.

Mas este tremor, além dos dez graus da escala de Richter,
Perturba-nos mais, com o seu ultra-som tranquílo,
que placas tectónicas gélidas, a subterrânea
Revolução de camadas e estratos, o velho tumulto

E trepidação de sociedades e esferas.
Os espaços lamentam. Prospect Park é o primeiro
A revestir-se de escuridão. Bem ensaiada,
Nevsky Prospect desmaia, desaparece,

E à frente de S. Marcos, a sala de visitas universal
Esvazia-se e escapa flutuando (tal como o espírito)
Com os seus pombos e orquestras diminutas,
Enquanto a nobreza de pedra de Luxemburgo paseia e vagueia

Em pesar solitário. O próprio tempo a carpir,
Regressando à mesma hora, como se buscasse,
Uma vez e outra, quarto de dormir, estúdio, alpendre,
Em retornos loucos, desesperados, todas as noites,

À procura de algo perdido, uma perda inenarrada, 
Maior do que muitos de nós compreendem.
Na República das Letras uma mão admirável,
Cirílica, cursiva, americana, foi calada.

Sobrevivnte de julgamentos fantoches, da opressão do estado,
Exilado de família, língua, vizinhança,
Deste homem era a soberania persistente da palavra,
Para além do alcance de política ou moda,

O domínio e a atmosfera do falcão, cuja amplitude
Chega como dádiva de neve do obscuro
Cinzento do meio do inverno em verso preciso e puro.
Agora permanece ao cuidado de cada um de nós.

Leitor, habita os seus poemas. Por baixo
Da sua jovialidade e música, nota a tensão gelada
Da ironia, de dor sentida e dominada.
O som de alguém a rir, entre dentes cerrados.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

ANTHONY HECHT


DEATH THE SCHOLAR

                          No opinion, however absurd or incredible,
                          can be imagined which has not been main-
                          tained by one of the philosophers. DESCARTES

I bide my time, you see, I bide my time.
Recently I resumed work on the classics.
I find among these well-patinaed relics
Some glacier-capped aiguilles of the sublime.

Sophocles, for example. The best of fates...
And the Elder Pliny: The supreme happiness
Of life is that it end abruply. Yes, 
We share these quiet, twin-skulled tête-a- têtes.

Come, let me be the tutor to your hopes.
My scholarly emendations can expose
All your most cherished errors. I am of those
Who may be called authentic philantropes.

Ignorance: the one unpardonable crime.
Your Solon, Stragirites, your philosophes
To me are countrified, unpolished oafs.
I bide my time, you see, I bide my time.


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MORTE, O ERUDITO 

                              Nenhuma opinião, por absurda ou incrível,
                              que se possa imaginar, deixou de ser de-
                             fendida por um dos filósofos. DESCARTES

Aguardo o meu tempo. percebes, aguardo o meu tempo.
Recentemente retomei o trabalho nos clássicos.
Encontro neles relíquias de patina valiosa,
Algumas aiguilles de glaciares encimados de sublime.

Sófocles, por exemplo. O melhor dos destinos...
E Plínio, o Velho. A felicidade suprema
Da vida é que acabe abruptamente. Sim,
Partilhamos estes tête-a-têtes sossegados, de caveiras gémeas.

Anuí, deixa-me ser o tutor das tuas esperanças.
As minhas correcções eruditas podem expor
Todos os teus erros mais acalentados. Sou dos que
podem ser chamados filantropos autênticos.

Ignorância: o único crime imperdoável.
Os vossos Sólons, Estagiritas, os vossos philosophes
São para mim simplórios ruralizados, rudes.
Aguardo meu tempo, percebes, aguardo o meu tempo.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

 ANTHONY HECHT


DEATH THE MEXICAN REVOLUTIONARY

Wines of the great châteaux
Have been uncorked for you;
Come, take this terrace chair;
Examine the menu.
The view from here is such
As cannot find a match,
For even as you dine
You're so placed as to watch
Starvation in our streets
That gives your canapé
A more exquisite taste
By contrast, like the play
Of shadow and of light.
The misery of the poor
Appears, as on TV,
Set off by the allure
And glamour of the ads.
We recommend the quail,
Which you would do well to eat
Before your powers fail,
For I inaugurate
A brand new social order
Six cold, decisive feet
South of the border.


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MORTE, O REVOLUCIONÁRIO MEXICANO

Vinhos de grandes châteaux
Foram desarrolhados para ti;
Vem. senta-te nesta cadeira do terraço;
Consulta o menú.
A vista daqui é tal
Que não há parecida,
Pois mesmo durante o jantar
Estás bem colocado para observar
A fome nas nossas ruas,
Que fornece ao teu canapé
Um gosto mais refinado
Por contraste como o jogo
De sombra e de luz.
A miséria dos pobres
Aparece, como na TV,
Embaciada pela sedução
E o esplendor dos anúncios.
Recomendamos a galinhola,
Que te faria bem comer,
Antes que os poderes fraquejem,
Porque eu inauguro 
Uma ordem social toda nova,
Seis gélidos, decisivos metros
A sul da fronteira

sábado, 8 de maio de 2021

 ANTHONY HECHT


DEATH THE JUDGE

Here's Justice, blind as a bat,
(Blind, if you like, as Love)
And yet, because of that,
Supreme exemplar of

Unbiased inquiry,
Knowing ahead of time
That nobody is free
Of crime or would-be crime,

And in accordance (closed
To Fortitude, Repentance,
Compassion) has composed
His predertemined sentence,

Ahd in his chambers sits
Below a funeral wreath
And grimaces and spits
And grins and picks his teeth.


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MORTE, O JUIZ

Eis a Justiça, cega que nem um morcego
(Cega, se quiserem, como o Amor)
E todavia, por causa disso
Exemplar supremo de

Inquérito imparcial,
Sabendo, antes do tempo,
Que ninguém está livre
Do crime ou da sua possibilidade

E em conformidade (impérvia
A Coragem, Arrependimento,
Compaixão) redigiu 
A sua sentença pré-determinada

E sentou-se nos seus aposentos
Debaixo de uma grinalda funerária
E faz esgares e cospe,
Irónico sorri e palita os dentes

sábado, 10 de abril de 2021

 ANTHONY HECHT


DEATH AS A MEMBER OF
THE HAARLEM GUILD OF ST LUKE

Not just another Hals, all starch and ruff -
Some boorish member of the bourgeiosie -
I am an artisan, take note of me:
Cabinet maker, intarsiatori buff,
Witha a honed scapel delicate enough
To limn foreshortened lutes, books, masonry,
In pearwood, sandalwood and ebony,
As a marquetry still life, a trompe l'oeil bluff.
And yt my clients, scorning expertise,
As if my carving hand were called in doubt,
Venture capriciously to do wiyhout
Even lapped, fished, or mitered joints, decline
My chiseled skills, discountenance my fees
And settle for a simple box of pine.


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A MORTE COMO MEMBRO DA
GUILDA DE S. LUCAS EM HAARLEM

Por certo, não outro Hals, todo goma e gola -
Membro rústico da burguesia -
Sou um artesão, atentem em mim:
Marceneiro, polidor de intrasiatori,
Com escapelo afiado muito hábil
Para delinear perspectivas de alaúdes, livros, alvenaria,
Em pereira, sãndalo e ébano,
Como tauxia de natureza-morta, uma ilusão trompe l'oeil,
E, todavia, os meus clientes desprezam perícia,
Como se a minha mão que lavra fosse posta em dúvida,
Caprichosamente aventuram-se a dispensar
Mesmo juntas imbricadas, com talas ou mitradas, declinam
A minha arte de cinzelar, desesperam dos meus preços
E contentam-se com um simples caixão de pinho.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

 ANTHONY HECHT


DEATH RIDING INTO TOWN

Here comes Clint Eastwood riding into town,
          One of the horsey Four
Of the Apocalypse, who won renown
          With Famine, Plague and War.

Note the official badge he seems to flaunt,
           His casual offhand grace, 
Ponder his polished six-guns and his gaunt
           Uncommonly pale face.

Dürer observed him pass at an easy trot,
           Accompanied by the Devil;
To some a hero by whom the human lot
           Is finally bulldozzed level.

Exalted mana is his name and sweet
          To all the long suffering,
Who kneel to embrace him, clasping his bone feet,
          His scythe, ashes and sting.

While to the light of heart and proud of purse
          Encountered on his way
He smiles his cryptic smile and bids a terse
          "Go ahead, make my day!"


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A MORTE CAVALGANDO PARA A CIDADE

Aí vem Clint Eastwood, cavalgando para a cidade,
         Um dos Quatro ginetes
Do Apocalipse, que ganhou renome
         Com Penúria, Praga e Guerra.

Note-se a insígnia oficial que parece exibir,
         A sua graça casual, espontânea,
Ponderem os seus seis-tiros polidos e a sua face
         Ossuda, estranhamente pálida.

Dürer observou-o passar num trote descuidado,
         Acompanhado pelo Diabo;
Para alguns um herói que ao género humano
         Por fim terraplana liso.

Maná sublime é o seu nome e carinhoso
         Para todos os que muito sofrem.
Que ajoelham para abraçá-la , agarrando os dedos dos pés,
         A sua foice, cinzas e ferrão,

Enquanto aos de coração ligeiro e bolsa orgulhosa
        Que encontra pelo caminho
Sorri um sorriso críptico e saúda com sucinto
         "Prossigam, que o meu dia seja pleno!"
          

domingo, 31 de janeiro de 2021

 ANTHONY HECHT


DEATH SAUNTERING ABOUT

The crowds have gathered here by the paddock gates
And racing skills like the flags os foreign states
       Billow and snap in the sun,
And thoroughbreds prance and paw the surf, the race
Is hotly contested, for win and show and place,
       Before it has yet begun.

Tha ladies's gowns in corals and mauves and reds,
Like fluently-changing variegated beds
       Of a wild informal garden,
Float hither and you where gentlemen advance
Questions of form, the inscrutable ways of chance,
       As edges of shadow harden.

Among these holiday throngs, a passer-by,
Mute, unremarked, insouciant, saunter I,
      One who has placed -
Despite the tumult, the pounding of hooves, the sweat,
And the urgent importance of evribody's bet -
      No premium on haste.


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A MORTE VADIANDO

As multidões reuniram-se junto ao cercado
E sedas de corrida como bandeiras de países estrangeiros
    Agitam-se e quebram ao sol,
E puros-sangue empinam-se e escarvam a pista, e a corrida
É vivamente discutida pela vitória e espectáculo e lugar,
    Ainda antes de começar.

Os vestidos da senhoras, em coral e lilás e vermelho, 
Como canteiros variegados, em mudança constante
    Deu jardim silvestre, infernal,
Flutuam para cá e para lá, onde cavalheiros avançam
Questões de forma, os caminhos inescrutáveis da sorte,
    Enquanto margens de sombra endurecem.

Entre estas turbas festivas, um transeunte,
Calado, despercebido, indiferente, eu, que vadio,
    Alguém que não colocou -
Apesar do tumulto, a percussão dos cascos, o suor,
E a importância urgente das apostas de todos -
    Nenhum prémio na pressa.

domingo, 10 de janeiro de 2021

 ANTHONY HECHT


APPLICATION FOR A GRANT

Noble executors of the munificient testament
Of the late John Simon Guggenheim, distinguished bunch
Of benefactors, there are certain kinds of men
Who set their hearts on being bartenders,
For whom a life upon dack-boards, among fifths,
Tapped kegs and lemon twists, crowded with lushes
Who can master neither their bladders nor consonants,
Is the only life, greatly to be desired.
There´s the man who yearns for the White House, there to
        compose
Rhythmical lists orf enemies, while someone else
Wants to be known to the Tour d'Argent head waiter.
As the Sibyl of Cumae said: It takes all kinds.
Nothing could bribe your Timon, your chrter member
Of the Fraternal Order os Grizzly Bears to love
His fellow, whereas it's just the opposite
With interior decorators; that´s what makes horse races.
One man may have a sharp nose for tax shelters.
Screwing the IRS with mirth and profit;
Another devote himself to his shell collection,
Deaf to his offspring, indifferent to the feast
With which his wife hopes to attract his notice.
Some at the Health Club sweating under bar bells
Labor away like grunting troglodytes,
Smelly and thick and inarticulate,
Their brains squeezed out through their pores by sheer
         exertion.
As for me, the prize for poets, the simple gift
For amphybrachs strewn by a kind Euterpe,
With perhaps a laurel crown of the evergreen 
Imperishable of your fine endowment
Would supply my modest wants, who dream of nothing
But a pad on Eighth Street and your approbation.

                                                  (FREELY FROM HORACE)


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CANDIDATURA A UMA BOLSA

Nobres executores do testamento munificente
Do falecido John Guggenheim, escol notável 
De benfeitores, há certos homens
Que ambicionam ser empregados de bar,
Para quem uma vida sobre esteiras, entre quartilhos,
Barris espichados e espremedores de limão, rodeados de bêbedos,
Que não conseguem controlar as bexigas, nem as consoantes,
É a única vida, que sempre desejaram.
Há aquele que aspira à Casa Branca, onde redigir
Listas rítmicas de inimigos, enquanto outro
Quer se conhecido do chefe de mesa do Tour d'Argent.
Como a Sibila de Cumes disse: todos os tipos são precisos.
Ninguém poderá subornar o vosso Timon, membro encartado
Da Ordem Fraternal dos Ursos Pardos para que favorecesse 
O seu comparsa, todavia passa-se o oposto
Com decoradores de interiores; tal garante as corridas de cavalos.
Um homem pode ter um faro infalível para paraísos fiscais,
Lixando o IRS com júbilo e proveito;
Outro dedica-se à coleção de conchas,
Surdo para descendentes, indiferente à festa
Com que a cônjuge tenta atrair-lhe a atenção.
Alguns no Health Club, suando na passadeira rolante,
Dão o litro como trogloditas urrantes,
Fedorentos e broncos e tartamudos,
O esforço hercúleo a espremer-lhes o cérebro pelos poros.
No que me respeita, o prémio para poetas, a dádiva simples
Para anfíbracos semeados por uma pródiga Euterpe,
Talvez uma coroa de louros da vossa perene,
Imperecível, graciosa dotação,
Chegaria para as minhas necessidades modestas, que sonham
Apenas com um travesseiro em Eighth Street e a vossa aprovação.

                                                           (ADAPTADO LIVREMENTE DE HORÁCIO)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

 ANTHONY HECHT


PERIPETEIA

Of course, the familiar rustling of programs,
My hair mussed from behind by a grand gesture
Of mink. A little craning about to see
If anyone I know is in the audience,
And, as the house fills up,
A mild relief that no one there Knows me.
A certain amount of getting up and down
From my aisle seat to let the others in.
Then my eyes wonder briefly over the cast,
Management, stand-ins, make-up men, designers,
Perfume and liquor ads, ans rise prayerlike
To the false heaven of rosetted lights,
The stucco lyres and emblems of high art
That promise, witn crude Broadway honesty,
Something less than perfection:
Two bulls are missing and Apollo's bored.

And then the cool, drawn-out anticipation,
Not of the play itself, but the false dusk
And equally false night when the houselights
Obey some planetary rheostat
And bring a stillness on. It is that stillness
I wait for.
                 Before it comes,
Whether we like it or not, we are a crowd,
Foul-breathed, gum-chewing, fat with arrogance,
Passion, opinion, and appetite for blood.
But in that instant, which the mind protracts,
From dim to dark before the curtain rises,
Each of us is miraculously alone
In calm, invunerable isolation,
Neither a neighbor nor a fellow but,
As at the beginning and end, a single soul,
With all the sweet and sour of loneliness.
I, as a connoisseur of loneliness,
Savour it richly, and set it down
In an endless umber landscape, a stubble field
Under a lilac, electric, storm-flushed sky,
Where, in companionship with wirthless stones,
Mica-flecked, or at best some rusty quartz,
I stood in childood, waiting for thigs to mend.
A useful discipline, perhaps. One that might lead
To solitary, self-denying work
That issues in something harmless, like a poem,
Governed by laws that stand for other laws,
Both of which aim, through kindred disciplines,
At the soul's knowledge and habiliment.
In any case, in a self-granted freedom,
The mind, lone regent of itself, prolongs
The dark and silence; mirrors itself, delights
In consciousness of consciousness, alone,
Sufficient, nimble, touched with a smaal grace.

Then, as it must at last, the curtain rises,
The play begins. Something by Shakespeare,
Framed in the arched proscenium, it seems
A dream, neither better nor worse
Than whatever I shall dream after I rise
With hat and coat, go home to bed, and dream.
If anything, more limited, more strict -
No one will fly or turn into a moose.
But acceptable, like a dream, because remote,
And there is, after all, a pretty girl.
Perhaps tonight she'll figure in the cast
I summon to my slumber and control
In vast arenas, limitless space, and time
That yield and sway in soft Einsteinian tides.
Who is she? Sylvia? Amelia Earhart?
Some creature that appears and disappears
From life, from reverie, a fugitive or dreams?
There on the stage, with awkward grace, the actors,
Beautifully costumed in Renaissance brocade,
Perform their duties, even as I must mine,
Though not, as I am, always free to smile.

Something is happening. Some consternation.
Are the knives out? Is someone's life in danger?
And can the magic cloak and book protect?
One has, of course, real confidence in Shakespeare.
And I relax in my plush seat, convinced
That prompt as dawn and genuine as a toothache
The dream will be accomplished, provisionally true
As anything else one cares to think about.
The players are aghast. Can it be the villain,
The outageous drunks, plotting the coup d'état,
Are slyer than we thought? Or we more innocent?
Can it be that poems lie? As in a dream,
Leaving a stunned and gap-mouthed Ferdinand,
Father and faery pageant, she, even she,
Miraculous Miranda, steps from the stage,
Moves up the aisle to my seat, where she stops,
Smiles gently, seriously, and takes my hand
And leads me out of the theatre, into a night
As luminous as noon, more deeply real,
Simply because of her hand, than any dream
Shakespeare or I or anyone ever dreamed.


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   PERIPETEIA

Por certo, o manuseio familiar de programas,
O meu cabelo desarranjado por trás por um gesto largo
De vison. Um ligeiro olhar à volta para ver
Se alguém conhecido está na audiência
E, à medida que a casa enche,
Um inofensivo alívio por ali ninguém me conhecer.
Levantar e sentar com alguma frequência
Do meu assento de coxia, para outros entrarem.
Então passo brevemente os olhos sobre o elenco,
Administração, duplos, maquilhadores, designers,
Anúncios de perfume e bebidas e olhar em jeito de prece
Para o céu falso de lâmpadas em roseta,
As liras de estuque e emblemas de grande arte
Que prometem, com a honestidade rude da Broadway,
Algo menos que perfeição:
Faltam dois touros e Apolo está entediado.

E depois a calma, prolongada antecipação
Não da peça em si, mas do falso crepúsculo
E igualmente falsa noite, em que as luzes
Obedecem certo reóstato planetário
E trazem tranquilidade. É por essa tranquilidade
Que espero. 
                     Antes que chegue,
Gostemos disso ou não, somos uma multidão,
De mau hálito, mastigadora de pastilhas, obesos de arrogância,
Paixão, opinião e apetite de sangue.
Mas, nesse instante, que a mente prolonga,
Do sombrio ao escuro, antes de a cortina subir,
todos estamos miracuolosamente sós,
Em isolamento calmo, invunerável,
Nem um vizinho, nem um parceiro, mas,
No início e no fim, uma única alma,
Com todo o doce e amargo da solidão,
Eu, como um perito em solidão,
Saboreio-a requintadamente, 
Deposito-a numa paisagem ocre, um campo de restolho
Sob um céu lilás, eléctrico, tempestuoso,
Onde, na companhia de rochas sem préstimo,
Salpicadas de mica, ou, pelo melhor, quartzo enferrujado,
Eu tinha estado na infância, à espera do conserto das coisas.
Uma disciplina útil, talvez. Uma que pode conduzir
A trabalho solitário, abnegado,
Que resulta em algo inofensivo, como um poema,
Governado por leis que existem por outras leis,
Ambas apostadas, por semelhantes disciplinas
Ao conhecimento e atavio da alma.
Em qualquer caso, numa liberdade auto-oferecida,
A mente, única regente de si mesma, prolonga
A escuridão e o silêncio; espelha-se, alegra-se
Na consciência da consciência, sozinha,
Suficiente, sagaz, tocada por ligeira graça.

Então, como por fim é devido, a cortina sobe,
A peça começa. Algo de Shakespeare.
Enquadrada no proscénio arqueado, parece
Um sonho, nem melhor nem pior
Do que o que sonharei após me levantar
Com chapéu e casaco, ir para a cama e sonhar.
Porventura, mais limitado, mais estrito -
ninguém irá voar ou tornar.se um alce.
Mas aceitável, como um sonho, porque remoto,
E há, além de mais, uma rapariga bonita.
Talvez ela hoje figure no elenco
Que convoco para a minha modorra e controlo
Em arenas vastas, espaço ilimitado e tempo
Que cede e oscila em marés suaves, einsteinianas.
Quem é ela? Sylvia? Amelia Earhart?
Qualquer criatura que aparece e desaparece
Da vida, do devaneio, uma fugitiva de sonhos?
Ali no palco, com graça canhestra, os actores,
Belamente vestidos em brocado da Renascença,
Cumprem os seus papéis, como eu o meu,
Embora não, como eu, autorizados sempre a sorrir.

Alguma coisa está a acontecer. Alguma consternação.
Desembainharam os punhais? Está a vida de alguém em perigo?
E a capa e o livro mágicos podem proteger?
Tem-se, é claro, total confiança em Shakespeare.
E eu relaxo no meu assento confortável, convencido
Que pontual como madrugada e genuíno como dor de dentes
O sonho será cumprido, provisoriamente verdadeiro
Como tudo o mais em que nos preocupa pensar.
Os actores estão aterrados. Será que os vilões,
Os bêbedos abomináveis, planeando um golpe de estado,
São mais ardilosos que pensávamos? Ou nós mais inocentes?
Poderão os poemas mentir? Como num sonho,
Abandonando um Ferdinand atónito, boquiaberto,
Pai e irreal préstito, ela, ela própria,
Miraculosa Miranda, desce do palco, 
Sobe a coxia até ao meu assento, onde para,
Sorri gentilmente, seriamente, e pega na minha mão
E conduz.me para fora do teatro, para uma noite
Tão luminosa como meio-dia, mais fundamente real,
Apenas por causa da sua mão, do que qualquer sonho
Que Shakespeare ou eu ou alguém jamais sonhou.

domingo, 22 de novembro de 2020

 ANTHONY HECHT


A LOT OF NIGHT MUSIC

       Even a Pyrrhonist
Who knows only that he can nrver know
       (But adores a paradox)
Would admit it's getting dark. Pale as a wrist-
       Watch numeral glow,
Fireflies build a sky among the flox,

       Imparting their faint light
Conservatively only to themselves,
       Earthmurk and fluorescent
Sweeten the home of ants. Comes on the night
       When the mind rockets and delves
In blind hyperbolas of its own bent.

       Above, the moon at large,
Muse-goddess, slightly polluted by the runs
       Of American astronauts,
(Poor, poxed Diana, laid open to the charge
       Of social Actaeons)
Miçdly solicits our prtty cash and thoughts.

       At once with their votive mites,
Out of the woods and woodwork poets come,
       Hauling their truths and booty,
Each one a Phosphor, writing by his on lights,
       And with a diesel hum
Of mosquitoes or priests, proffer their worthy
                         duty.

       They speak in tongues, no doubt,
High glossolalia, runic gibberish.
       Some are like desert saints,
Wheat-germ ascetics, draped in pelt and clout.
       Some come in schools, like fish,
Then make their litany of dark complaints;

       Those laugh and rejoice
At liberation from the bonds of gender,
       Race, morals and mind,
As well as meter, rhyme and the human voice,
       Still others arrive to render
The croos-word world in perfectly declined
       
      Pronouns, starting with ME.
Yet there are honest voices to be heard:
      The crickets keep their vigil
Among the grass; in some invisible tree
      Anonymously a bird 
Whistles a a fioritura, a light, vestigial

      Reminder of a time,
An Aesopic Age when all the beasts were moral
      And taught their ways to men;
Some herbal dream, some chlorophyll sublime
      In which Apollo's laurel
Blooms in a world made innocent again.


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MUITA MÚSICA NOCTURNA

       Mesmo um Pirrónico
Que sabe apenas que nunca pode saber
       (Mas adora um paradoxo)
Admitiria que escurece. Mortiços como o brilho
       Dos números de um relógio de pulso,
Pirilampos criam um céu entre floxes,
       
       Transmitindo a luz ténue,
Conservando-a apenas para eles.
       Terra sombria e odor floral
Perfumam a casa das formigas. Chega na noite,
       Quando a mente dispara e exuma
Em hipérboles cegas da sua propensão.

       Por cima, a lua à solta,
Deusa das musas, levemente poluída por corridas
       De astronautas americanos
(Pobre, pustulenta Diana, vítima da acusação
       De Acteons sociais)
Humildemente solicita os nossos trocos e pensamentos.

       Logo, com seus ácaros votivos,
Desde bosques e carpintaria chegam poetas,
       Arrastando as suas verdades e saque,
Todos fosfóricos, escrevendo pelas próprias luzes
       E um zumbido de gasóleo
De mosquitos ou padres, recitam o seu dever
                        palavroso.

      Uma algaraviada, é certo;
Elevada glossolália, geringonça rúnica.
      Alguns como santos do deserto,
Ascéticos de germe de trigo, ornados de petulância e trapos.
      Alguns em cardume, como peixe,
Estes produzem a sua litania de sombrias queixas;

      Esses riem e e alegram-se
Pela libertação das cadeias de género.
      Raça, moral e espírito,
Bem como de metro, rima e voz humana.
      Ainda outros esforçam-se por transmitir
O mundo de palavras cruzadas em pronomes perfeitamente
      
      Declinados, começando por EU.
 Todavia, ouvem-se vozes honestas:
      Os grilos mantêm a vigília,
No meio da erva; nalguma árvore invisível
      Um pássaro anónimo
Assobia uma fioritura, uma suave lembrança

      Vestigial de um tempo,
Uma Idade Esópica, quando todas as bestas eram virtuosas
      E ensinavam tais modos aos homens;
Algum sonho herbáceo, algum sublime clorofilico
      Em que o louro de Apolo
Floresce num mundo de novo inocente.
      

  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...