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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

 ANÓNIMOS (ANTES DE 1330)


A tua casa está atulhada
de livros de teologia. Porquê?
São inúteis sem dinheiro,
o qual não possuis.
Ouro é que precisas, moedas
do país! A tua rapariga
cuida da Suma Teológica
e de toda essa tralha?


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O mundo é balança, onde os homens são pesados -
quanto piores mais se gabam;
mas é assim que estão feitas as balanças -
o prato vazio é o que se eleva.





domingo, 8 de novembro de 2020

 AMIR SHAHI (SÉC XV)


Que me importa se todos
me olham de lado
e onde tenho um defeito,
centenas são suspeitos?
Sou apenas um espelho
e todos os que me desprezam
apenas vêem o que há,
reflectido, deles.


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FAGHANI (SÉC XV-XVI)

Traz vinho, rapaz - sei que estou a morrer;
caído de bêbedo é como deixarei o espectáculo terreno:
entrei na vida completamente ignorante
e é precisamente assim que tenciono sair.


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VAHSHI (SÉC XVI)

Suave brisa, informa o meu senhor,
que em panegíricos sou o melhor,
mas se ele for recalcitrante e rude
informa-o que, na sátira, também excelo. 

domingo, 11 de outubro de 2020

 EBN-E YAMIN (SÉC XIII-XIV)


Se alguém te fizer o bem
premeia-o com tudo o que tenha -
deixa quem te magoar ao mundo,
o mundo garantirá a sua recompensa.


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Duas fatias de pão - cevada rude
ou trigo fino . serão bastantes;
também duas mudas de roupa
chegarão, novas ou usadas;
satisfação e um canto
a que possa chamar meu,
onde ninguém me diga: "Não
podes estar aqui, vai-te embora!"
Yamin prefere isso -mil vezes-
a qualquer glória,
ao reino do rei Qobad
e ao do esplêndido Khosrow.



HAFEZ (SÉC XIV)


Um sinal negro enfeitava
a sua face; despiu-se e brilhou
incomparável em esplendor
ao da lua; era tão esguio,
que se via o coração, como
a água límpida que sobre
as pedras se derrama.


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Todo o amigo prova ser inimigo,
a corrupção roeu-lhes toda a pureza.
dizem que a noite está prenhe de tempos novos,
mas se aqui não há homens, como é possível?

sábado, 12 de setembro de 2020

 KHOSROW DEHLAVI (SÉC XII-XIV)


Ela ficou comigo a noite passada
         para apoquentar a presa abjecta;
quanto mais eu implorava,
         mais ela urgia demora;
a nossa conversa não tinha acabado
         quando a noite se tornou dia -
não há que culpar a noite,
          tínhamos muito para dizer.
        



ROKN-E-SAYEN (SÈC XIV))


Se a riqueza mundana
significa que dormes no luxo,
ou se a tua almofada
é a terra e a pobreza,
não te agarres a nada
(em breve será passado) -
e não te regozijes
do que não irá durar:
já que almas peregrinas
não têm aqui morada,
que há para glória de dois
dias? E o que temer?




segunda-feira, 24 de agosto de 2020

 SERAJI SEGZI (SÉC XIII


Os meus olhos insones
sabem como passo as noites,
que, com relutância, se arrastam
até à primeira luz da aurora.
Na despedida, disseste:
" a morte é tudo o que peço!" -
a morte seria fácil,
a vida é que é difícil.


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RUMI ( SÉC XIII)

Nas noites que passo contigo,
o amor não me deixa dormir;
nas noites em que estou só,
fico acordado e choro;
contigo ou sem ti
Deus sabe que estou vigil -
mas, atenta, que formas distintas
uma noite insone pode ter!


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S'AD GILANI  (SÉC XIII-XIV)

Quanta mais desdita
       pelo teu coração desditoso?
Que maior cárcere
       te dispões a suportar?
Conheces a história do teu coração -
       ergue-te, desperta
do sono desmazelado do amor,
       estás bem melhor acordado.


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ALA'AL - DOWLEH SEMNANI (SÉC XIII-XIV)

Antes alegrar um único coração,
que construir cem casas
por "caridade": antes escravizar
um homem livre com a tua
gentileza, que libertar
mil homens da escravidão.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

SA'DI (SÉC XIII)


A natureza da pessoa má
está-lhe no sangue,
a nobreza não chega com altos
cargos e muito dinheiro -
pensei que, agora, que eras
rico serias generoso,
mas cães são sempre cães,
mesmo com coleira de ouro.


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Quando a alma está pronta para partir,
todos os cirurgiões e a sua ciência irão falhar,
pois que um burro morto não se erguerá,
por muito que lhe puxem orelhas e rabo.


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Ah, arrependi-me, pus vestes piedosas,
ouvi, tomei nota, sempre que os sábios falavam,
mas depois vi esse rapaz, corpo de cipreste,
e, de repente, esqueci os ensinamentos...


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Todos os dias chegas com algo novo,
mais amável sempre que te vejo:
disse, "irei contigo ao juiz recuperar
o meu coração". Mas temo que roubes o dele.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

JAMALLADIN ESFAHANI (SÉC XIII) 



 "A paciência depressa resolverá 
os teus problemas", 
disse o meu amigo: 
"a vida irá melhorar, água 
fresca voltará a encher 
o leito seco do riacho". 
"De que servirá a água - 
respondi-lhe - 
"a um peixe morto?"



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 SHATRANJI (SÉC XIII) 



 Para aprender necessitas um professor, 
alguém que saiba. Acaso pensas 
que os livros serão suficientes? 
Serás como a galinha, que o galo 
evitou - ovos bonitos, 
mas deles não sairá pinto.

domingo, 21 de junho de 2020

SEYFADDIN BAKHARZI (SÉC XII-XIII)



Seyf, não te queixes se a vida é injusta,
não insultes a existência, nem blasfemes,
dizendo: "Tenho tão pouco e ele tanto";
toma a vida pelo que é - um sonho, um sonho.


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Todas as vezes que desisto do amor
e, de novo, vivo com Saúde e Bom Senso,
alguma cara bonita passa por mim -
a loucura logo abrevia a Abstinência.





AYESHEH SAMARQANDI (SÉC XIII)



Meu odiado amor, ontem
à noite e pela noite fora
eles, essa praga, contaram-me
histórias tuas - a intriga
era que quebravas promessas:
e adivinha - o meu
coração disse: "È verdade". 


sábado, 6 de junho de 2020

MAHSATI (  SÉC XIII )


Aquele que a tua beleza deslumbrou
                            voltou para casa;
aquele que só por ti anseia
                            voltou para casa;
prepara, de novo, a gaiola, espalha o painço
                             da gentileza nela,
repara, de asa partida, o teu pássaro
                              voltou, de novo, para casa.



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Não és muito inteligente
e homens como tu não conhecem
a gentileza que um amante
tem obrigação de mostrar -
ó meu amigo fugidio, regozijo-me
de estar, contigo, aqui, esta noite,
mas, contudo, espero
não o lamentar, de manhã.





TAJADIN BARKHARZI ( SÉC XIII)



Ver a tua bela face
aturde os meus olhos
e ficam cheios de água
como nuvens primaveris;
como poderia ser diferente? -
tu és o sol; os olhos
ficam cheios de água,
se olharem para o sol.

terça-feira, 26 de maio de 2020

ANVARI (SÉC XIII)



Aceita o que te dá, mesmo que seja mesquinho -
para este senhor, mesquinho já é abundante,
uma dádiva dele é como ser circuncisado -
uma vez na vida e já é bastante.




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A noite passada fui hóspede de um grande senhor,
um verdadeiro sacana, um estupor;
nenhum de nós conseguiu dormir, à noite -
ele por ter comido de mais, eu pelo jejum.




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Toda a calamidade que o céu ordena
- mesmo as que não me são destinadas -
logo que chegam à terra
perguntam : "Onde é a casa de Anvari?"

segunda-feira, 18 de maio de 2020

EPIGRAMAS PERSAS MEDIEVAIS


 BULFARAJ E-RUNI (SEC XI-XII)


Enquanto me restar um sopro
será por esse jovem servo
e o seu vinho inebriante;
esta é a parte da vida que quis,
o resto veio por acidente.



SEYED HASSAN-E GHAZNAVI (SEC XII)


Os prazeres buscava com cautela;
agora bebo vinho, sem me importar
quem está por perto. Tinha
receio de perder a reputação;
agora que a perdi, de que terei medo?



ATAI RAZI (SEC XI-XII)


Em viagem, todas as noites,
em todos os lugares vi, até
à primeira luz da madrugada,
a tua face que me perseguia -
enviaste-me a insónia,
com medo que nos meus
sonhos te abraçasse.



FAKHRADDIN MOBARAK SHAH (SEC XII)


Eu disse: "Sabes como o amor
devastou o meu louco coração?"
Sorrindo, ela replicou: "Meu caro,
por misericórdia! Que sabe a vela
de como a mariposa
tenteia, definha e morre?"

terça-feira, 12 de maio de 2020

EPIGRAMAS PERSAS MEDIEVAIS


SANA'I (SÉC XI-XII)


Se pudesse escolher vir, não teria vindo;
se pudesse escolher ir, quando teria ido?
O melhor seria nunca ter vindo,
se não estivesse aqui, não teria de ir.



MAS'UD-E S'AD (SÉC XI-XII)


Sê um falcão no teu desejo,
um leopardo na majestade -
traz beleza ao campo da caça
e às tuas batalhas vitória.
O pavão e o rouxinol
será melhor que os ignores -
um é sumptuoso espectáculo vácuo,
outro um belo som, mas nada mais.


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Qual seja a arte que tenhas,
nela não te esforces demasiado -
muito esforço e ponderação
estragam-te a obra e revelam-se nela.

Pratica de forma fácil,
negligente, sem um plano -
e se algo não conseguires fazer,
passa a outro que faça.


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Nem acendalhas para o fogo,
nem óleo para iluminar;
o meu corpo, agora tão débil,
como a minha visão incerta -
estou aqui prisioneiro,
o sol e a lua contentam-me;
um aquece.me o dia,
outra ilumina-me a noite.

terça-feira, 5 de maio de 2020

EPIGRAMAS PERSAS MEDIEVAIS


MOHAMMAD ABDOH (SÉC X)

Perguntam-me porque fujo
dos cortesãos e respondo: 
porque sou inteligente
e só idiotas vivem na corte.


AMAREH (SÉC X-XI)
Esconder-me-ei nos poemas,
enquanto os escrevo,
desejando beijar teus lábios,
quando os recitas.

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Porque o mundo te tratou bem,
não penses que é motivo de júbilo;
tratou bem tanta gente
e – num instante – prostrou-a.



ABU SA’ID ABUL KHAIR (SÉC X-XI)


A sua ausência é a faca,
que te corta a garganta?
Que ninguém repare
nas manchas de sangue na veste;
chora, mas ao chorar,
que ninguém te ouça:
arde, mas ao arder,
que o fumo não se veja.



AZRAQI (SÉC XI)


Para quê vasos de ouro e prata,
onde cultivar narcisos?
As flores são mais saudáveis
ao pó e à chuva.
Há ouro e prata imensurável
em regiões longínquas?
O lar é o maior tesouro –
apesar da fealdade, do pesar, da dor.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

EPIGRAMAS PERSAS MEDIEVAIS
(UMA ANTOLOGIA)
Os poemas aqui incluídos foram selecionados e vertidos (de forma muito liberal) a partir das traduções inglesas do poeta Dick Davis, contida na sua antologia “Borrowed Ware – Medieval Persian Epigrams”.


AGHAJI ( SÉC. X)

O exército da neve precipita-se pelo ar,
como pombas brancas fugindo com medo do falcão.


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Querem prova de que não sou
criança mimada? Não sabem
em que me ocupo? Tragam-me
um cavalo, um arco, um livro,
alguns poemas, uma pena, um alaúde,
dados, vinho, ainda um tabuleiro de xadrez.


SHAHID (SÉC. X)


Se as penas fossem fogo, o fumo subiria,
escurecendo, para sempre, a terra e o céu;
corre o mundo, que nunca encontrarás
um homem que seja feliz e também sábio.



RUDAKI (SÉC X)

Vive a tua vida com alegria,
vive com raparigas de olhos negros, brilhantes,
pois o mundo é apenas
um sonho vazio, varrido pelo vento;
não temas o que irá acontecer,
nem lembres o que já passou –
aqui estou, com o seu cabelo negro
e a sua face é como a lua:
feliz o que jantou e partilhou,
infeliz o que não jantou –
vento e nuvens é este mundo,
o que tem de vir, venha: tragam vinho!


KHOSRAVANI (SÉC X)
Há quatro tipos de pessoa
com quem não gasto dinheiro,
já que nada de útil, vez
alguma obtive das suas artes –
os médicos com suas drogas,
os piedosos com as orações,
os bruxos com os feitiços
e astrólogos com as cartas.

  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...