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terça-feira, 4 de abril de 2023

 ALEKSANDAR RISTOVIC


VIAGEM FUTURO-PASSADO

A mtnha avó e eu viajamos para um mosteiro,
numa carruagem rústica puxada por um cavalo branco.
A avó ainda é uma rapariga e eu tenho 59 anos.

No colo, a avó tem um cesto de lírios silvestres
e eu tenho uma moeda no bolso com a qual todos
  os carrascos de Cristo foram subornados.
(Morrerei em breve, mas esse não é o assunto do poema.)

A viagem conduz-nos de taberna em taberna e em breve
estamos tão toldados que mal conseguimos ver-nos um ao outro.
O cocheiro espia-nos e benze-se às escondidas.

No caminho para o nosso destino damos boleia
a um mendigo que é débil mental.
Toca uma harmónica e nada pede em troca.

A minha avó e eu viajamos para um mosteiro
entre árvores verdes e o ar cheirando aos lírios dela
e à chuva que bate nas nossas caras.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

 ALEKSANDAR RISTOVIC


O ESSENCIAL

Não me foi permitido viver a minha vida,
logo fingi estar morto
e interessado apenas em coisas
em que um morto estaria interessado:
répteis petrificados,
quinquilharia de museu,
evidência falsa apresentada como verdade.
Senti grande necessidade de estar verdadeiramente morto
e, por isso usava sempre
uma máscara de madeira
na qual, por vezes, alguém desenhava,
com lápis de cor,
uma expressão de contentamento,
impaciência, desejo, beatitude,
ou a expressão de alguém que está a pensar
num assunto completamente diferente.

sábado, 19 de novembro de 2022

ALEKSANDAR RISTOVIC


O ENCONTRO DOS METAFÍSICOS

Alguns falam do supremo,
do lance final  de dados,
do que é nada para alguns e nada para outros,
de imagens, mesmo antes de deslizarmos para os sonhos,
de rosa comparado ao verde e de rosa junto ao verde,
de tardes reunindo conchas numa praia pedregosa,
da não existência de um e da não existência de outro,
da metafísica dos objectos e da metafísica do tempo na qual
   este e aquele objecto acontecem,
de memórias, por certo,
de sacrilégio,
da confissão de uma mulher que se inclina para a tua cara, 
da morte que deixa provas parciais aqui e ali, não permitindo
   que as vejamos na totalidade,
do Nada que só ele pode ser provado e não pode ser refutado,
do transcendente (ser incapaz de distinguir a própria voz do
   som do trovão e do ruído dos objectos),
de mim a falar de qualquer coisa antiga, começando pela mais
   baixa e seguindo para a mais alta:
da miséria de um homem num telheiro de aldeia observand o ondear    das searas de aveia e de centeio,
da miséria de outro qualquer homem na sua cama ou na cama 
  do vizinho,
de uma galinha,
um tripé,
dureza e suavidade,
e da falsidade dos discípulos e da inflexibilidade dos
   mestres.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

ALEKSANDAR RISTOVIC


ALGUNS ENTRAM NA TABERNA, OS OUTROS SAEM 


Alguns entram na taberna, os outros saem.
Há um prato de violetas e uma lâmpada acesa
na mesa e as duas pernas de alguém
apenas com peúgas debaixo dela.

Uma mulher inclina a cara para a minha.
O cordeiro também está na taberna, mas não o nomeamos assim.
Agora até podemos cheirar as flores 
na mesa vizinha, não apenas na nossa.

O que segurava o livro deixou-o cair.
Há uma chama azul no local onde o livro caiu.
O jovem criado carrega pequenas travessas
com rãs que estão prontas a saltar.

A minha mãe desce de uma escada alta.
Os seus dedos estão gelados e os pomos e a boca
estão quase brancos. Pode ouvir-se duas pessoas falarem
sem se ver nenhuma delas.

Sou um rapazinho a estudar inglês numa sala iluminada
por uma luz avermelhada. Uma mulher pequena, cujas mamas são
como dois ovos, está a ajudar-me. Alguém cujo nome
é Dylan Thomas juntou-se ao nosso jogo de estudante e professora.

Falamos um com o outro em surdina.
Em breve morreremos a mesma morte, mas em lugares distintos:
eu, numa pequena biblioteca com livros em desordem nas estantes,
tu, numa sala onde pessoas de sexos diferentes escondem a cara
   umas das outras. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

ALEKSANDAR RISTOVIC 

ÁRVORE

Como é antiga uma árvore! Como é velha
a sua inclinação para sussurrar ao fim da tarde
enquanto caminho para casa desde a biblioteca, com livros debaixo      do braço.
Os seus ramos balançam conforme o vento lhes exige
e a sua beleza reside no que um homem ou uma criança
trazem no seu coração enquanto debaixo dela correm.
Talvez apenas Platão esperasse encontrar sabedoria 
no seu movimento constante. Primeiro um e depois outro
ramo falha em descrever um círculo,
despertando em nós apenas certas assossiações
às quis chegamos trocando a nossa experiência
do real pela nossa experiência do imaginário.
E como eu sou antiquado, pois gosto de mandriar
debaixo de uma árvore e buscar na sua aparência
algum símbolo de mortalidade e de vida eterna.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

 ALEKSANDAR RISTOVIC

COMPARAÇÃO

Dizem que Ulisses não gostava do mar,
e, por isso, foi o cativo
de brisas marítimas, de tempestades e ondas
que são como cobertas de cama rendadas.
O mesmo acontece comigo. Não gostando de poesdia
e ainda assim rendido a ela, tornei-me o seu cativo
e não posso oferecer ao leitor mais que mesmo.
Como alguém que continuamente muda 
de remos para vela e vice-versa, apostando tudo
numa história em que não será reconhecido
entre as imagens cuidadosamente escolhidas:

sem esse porco,
sem esse morango no jardim,
sem esse fumo de cachimbo.
Sem essa espuma na boca.
Sem essa roda.
Sem essa mão sobre a qual passa a roda,
enquanto rola esmagando gravilha
paralela a outra roda.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

 ALEKSANDAR RISTOVIC


ESTUDANTES BIZARROS

O zumbido no quarto ao lado
deve provir de insectos minúsculos
que passaram, recentemente, a residir ali.
Por enquanto, estão invisíveis.

À noite, quando os ouço,
tenho a impressão que estão a decorar
em coro um assunto específico,
muito provavelmente algo relacionado com Botânica.

De vez em quando, param de repente,
como para ouvir o professor falar:
a sua severidade, que eles acham tão assustadora,
revestida de silêncio.

Quando recomeçam é numa nota mais alta,
como se agora competissem entre eles.
Começo a reconhecer alguns grupos
e, entre eles, alguns indivíduos dotados.

E, sem dúvida, alguns idiotas chapados, também.


quinta-feira, 7 de abril de 2022

ALEKSANDER RISTOVIC

1918

Numa sala com candeeiros de mesa  e um candelabro antigo
senta-se o poeta, Sergey Yesenin,
provocando risinhos na dona da casa,
recitando-lhe versos cómicos.
Ela usa um casaco de pele de foca,
enquanto ele está descalço, com meias vermelhas de lã.
Grandes, suaves flocos de neve caem no exterior.
Yesenin tem a cara de uma criança.
Tem maçãs do rosto coradas pelo vinho,
que frequentemente bebe com avidez
do jarro verde que está debaixo da mesa.
Nas ruas, os revolucionários
estão empenhados na sua actividade sinistra.
Estão a fuzilar a burguesia
e, de caminho, claro,
os revolucionários falsos.

domingo, 6 de março de 2022

ALEKSANDAR RISTOVIC


ARANHA CASEIRA


 A aranha espera pelo Domingo,
vai de uma ponta da teia 
   para a outra,
pequena, mas conspícua, como uma mancha
   numa cara iluminada pelo sol.

Em repouso, fixa a sua mirada na parede
sobre a qual avançam as sombras de criaturas
que ficaram imortais na sua indolência.

A sua teia é como a minha bolsa de tabaco.
A filosofia que retira dela
não se furta ao sofrimento, nem ao prazer.

Qualquer intruso é um alvo fácil.
Arguta, veloz como uma chama, fá-lo
   pagar as suas dívidas,
até devolvendo ocasionalmente o troco.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

 ALEKSANDAR RISTOVIC


PRETO NO BRANCO OU FUNDO VERDE

O meu corvo prefer andar a voar,
seja sobre um relvado ou um campo nevado.
Talvez tenha chegado à conclusão
que é mais digno caminhar quw voar?

Por vezes, rncontramo-nos sós, num campo.
Ele não se devia e eu também não.
Ficamos a olhar um para o outro:
uma criatura teimosa em frente de outra.

Depois, um de nós desiste,
digamos que ele - mas não levanta voo,
limita-se a rodar e dirigir-se
para a esquerda ou para a direita.

Fico a pensar, este meu corvo não é uma ave,
apenas tem parecenças,
com o seu bico, asas e garras,
mas os seus propósitos e comportamento são humanos.

Agora, enquanto observo, através da janela, no crepúsculo,
a neve rodopia à volta da árvores desnudas,
ouço-o grasnar para si mesmo,
recusando nitidamente guardar o que tem em mente.

Uma mulher atira-lhe para os pés
bugigangas, jóias baratas e pérolas.
Por último, mostra-lhe o peito roliço
e o corvo solta um suspiro.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

ALEKSANDAR RISTOVIC


FELICIDADE

O rato é dourado
e também a tartaruga e a aranha,
e até a centopeia,
e o calhau com que tentar 
afugentá-la sem deixar o teu banco,
do qual podem ser vistas muitas outras
coisas e criaturas douradas.

domingo, 1 de agosto de 2021

 ALEKSANDAR RISTOVIC


O ALMOÇO DO DIABO

Um espinho basta-lhe.
Uma maçã de ferro.
O mamilo de uma rapariga que deambula pela casa
vestida apenas com uma combinação de algodão.
Uma orelha de porco chega.
O percevejo rastejando entre dois pratos vazios.
A criança soprando um dente-de-leão.
Os membros mirrados de uma mulher velha
no seu leito de morte.
Os membros de uma mulher jovem
à espera do seu amante,
com uma mão no peito
e outra nos lábios.

O que come ao almoço
vomita para o jantar
numa roseira,
ou debaixo de uma árvore de Natal.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

 ALEKSANDAR RISTOVIC


AO AR LIVRE

Ao atravessar um campo,
alguém que, de momento,
está preocupado com pensamentos de suicídio,
é forçado pelo chamamento da natureza
a adiar o acto
e, assim, de cócoras,
descobre-se a apreciar
alguns pés de relva,
como se os visse, pela primeira vez, 
de tão perto,
enquanto fica corado
e se esforça para tirar do bolso
uma folha de papel,
com a sua nota de despedida
já escrita.

sábado, 15 de maio de 2021

 ALENKSADAR RISTOVIC


VELHO TEMA

A quem estás destinado, vinho nessa garrafa rolhada,
na toalha branca,
junto a essas flores oscilantes,
enquanto uma rapariga varre a silenciosa sala vazia?

Soltarás a língua do calado,
transformarás o idiota num sábio
e ao tímido darás coragem
para agir segundo um desejo escondido.

Do sábio farás um idiota,
que desbarata os bens na companhia de criados mimados e bajuladores
e que promete à roliça caixeira
um chalé no bosque, com agulhas de pinheiro no soalho.

Será que darás a volta à cabeça de uma mulher bela,
de forma a ela abandonar a mesa por um dos quartos do andar superior,
perseguida por algum tipo inútil,
que inventa versos com um único propósito em mente?

Por pouco tempo, se calhar, transformarás o velho
nesse jovem que na taberna canta e sapateia
constantemente, fazendo visitas frequentes à casa de banho
para namorar a que conta moedas numa caixa de charutos.

sábado, 17 de abril de 2021

 ALEKSANDAR RISTOVIC


FOLHAS SECAS

Danton espera pela morte,
mas o dia tarda a chegar.
Tem a roupa cheia de piolhos
e as botas ensopadas pela chuva.
Na sua cara já há sinais
do se extraordinário destino.
Dessa grande distância ele observa-me
a caminhar debaixo das árvores
e a juntar folhas secas
com uma vara comprida, que termina num espigão.

quinta-feira, 11 de março de 2021

 ALEKSANDAR RISTOVIC


CORAÇÃO DE BISCOITO DE GENGIBRE


Faz-me um casacão de tecido pesado, alfaiate,
do tipo que não fica puído, 
e de cor escura,
para ninguém notar as cinzas de cigarro.

Faz as calças do mesmo material,
para durarem quanto eu quiser,
usando-as para visitar inúmeras cidades, aldeias
e outros lugares isolados.

Faz-me uma vestimenta escura, ó alfaiate,
com a qual possa ir a um banquete
com uma rosa de homem rico na botoeira,
rodeado por pessoas felizes.

Faz-me um casaco escuro, alfaiate, com bolsos largos, profundos,
onde fechar os punhos, enquanto vejo alguém
ser arrastado da minha mesa para as moitas,
que após alguns momentos começam a tremer.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

 ALEKSANDAR RISTOVIC


PAISAGEM COM NEVE

O que confere tal destreza à tua mão, matador de porcos?
Aquele que, há um segundo atrás, tinha um olhar desesperado,
agora olha para ti humildemente e até com confiança.

Com a cabeça inclinada para trás, orelhas arrebitadas, a tua beldade
inspecionou o sol da manhã que tem a forma de uma lâmina,
enquanto a apertas entre os joelhos,
não deixando o cigarro cair-te da boca.

O que causa o teu riso súbito, carniceiro,
enquanto permaneces junto àquilo que há pouco vivia,
esfolando a pele como se fosse um vestido caro
e mergulhando as tuas mãos gordurosas no fundo do ventre?

Na verdade, qual é a razão para o teu silêncio
à mesa, com uma toalha branca e um copo de vinho embaciado,
enquanto violinos campestres ressoam pela casa
e as pessoas murmuram entre elas acerca disto e daquilo?

Sentas-te no trenó, enfiado em cobertores bordados,
vestido como um matador de porcos é suposto vestir-se,
e acaricias o fino pescoço da filha de um lavrador,
as suas orelhas e braços roliços,
enquanto à tua volta a neve continua a cair.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

ALEKSANDAR RISTOVIC


A LEI

Ponha de lado os papéis, Vossa Excelência,
e repare em alguém que entrou 
   na sua sala,
no dia anterior à audiência.

Ela diz que tem de carregar o filho do irmão,
entretanto disfarçando habilmente 
   a sua barriga inchada
com uma capa alegremente colorida.

Um cão está sentado à sua porta,
um cão que pertence ao desafortunado
   com buracos nos sapatos.
O cão gane e chocalha a trela.

Faça-lhe o favor que ela pede,
insira um parágrafo com um número inencontrável
no livro de pesadas brochuras.

Ela irá sair como entrou, curvada,
escondendo as mãos miúdas
nas pregas da capa de lã.

sábado, 26 de dezembro de 2020

 ALEKSANDAR RISTOVIC


TRABALHAM PARA MIM O COVEIRO E AQUELE DURANTE CUJA AUSÊNCIA ESCREVI ESTE POEMA

Está um belo dia, Sr Coveiro.
Descanse um pouco, junto à sua cova aberta
e observe-os a subir a colina.

Têm as mesmas caras
daquele para quem preparou
   a espaçosa câmara.
As mesmas benignas mãos, tornozelos,
   e quase as mesmas roupas.

Carregam flores e um caixão comprido
com a tampa ligeiramente levantada,
debaixo da qual uma mão afilada é visível.

Continue o seu trabalho. Não pense,
nem se gabe da sua vasta experiência,
que, de qualquer forma, fica sempre confundida
   com assuntos não relacionados.


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

 ALEKSANDAR RISTOVIC  (Casar, Jugoslávia - Sérvia - 1933-1994)


As versões que se seguem, foram realizadas a partir de traduções em inglês, da responsabilidade do poeta americano Charles Simic; por tal motivo o texto original dos poemas é omitido.


    SEM TÍTULO

O tempo dos bobos está a chegar,
tempo de tenda de feira
e desse com uma cara de palhaço,
      a maldizer Deus.

Tempo de penas de pavão,
a pena que desliza da direita para a esquerda
sobre o papel de pernas para o ar.

Tempo em que não levantarás o dedo mindinho
sem mergulhar em algo
considerado indecente.

O tempo dos bobos está a chegar,
tempo do professor ignorante
e do livro impossível de abrir
por qualquer lombada. 

  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...