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terça-feira, 28 de março de 2023

 MIROSLAV HOLUB


O PASTOR DE NUVENS DE HANS ARP

Nascido por cesariana
(enquanto outros foram atirados ao
mundo com a água do banho), excluído de 
antologias que parecem
fornos para bolos de Natal,


com fundos oculares poupados
a lugrube diabetes poética,

imagina um unicórnio nos prados
enxugados por gelo inesperado
para anestesia local,

e observa como igrejas
extravasam para fora das cidades,
uma a seguir à outra,
e vagueiam por campos da Jutlândia,
arrebanhadas como ovelhas,
de cabeças juntas,

como os autocarros saem das cidades
em rebanhos vermelhos
e se enterram como
escaravelhos funerários, zumbidores
em montes de toupeira de inverno,

observa como traficantes fogem das cidades,
como lemingues dirigindo-se a um mar distante,
e repara que tudo o que sobra das cidades
é um muro com desenhos de criança, a lápis,

e uma grande, elevada
parábola de alumínio,
brilhando ao sol,
como espada de faraó,embora
com um sino na ponta,
e subindo para um céu alcochoado
com a seda de sondas cósmicas

e
(enquanto outros fazem adubo
de poesia para cultivar malmequeres
e couve chinesa) ele, inadvertidamente
planta uma linha fina
e terna para Hans Arp,

ele sorri
porque conhece a próxima
desintegração de cidades
e o nascimento de uma nova geometria.

domingo, 22 de janeiro de 2023

 MIROSLAV HOLUB


A SÍNDROME DO HOMEM RÍGIDO*

Um aeroplano gigantesco 
paira no ar, de cauda para baixo,
sobre a cidade,
demasiado pesado 
para conseguir descolar,

como uma libelinha fertilizada
com o seu ovipositor oculto
deixando os seus mortos no telhado.

Ignoremos o que está a acontecer. Endurecemos
em espasmos musculares,
ficando estátuas da cintura para cima,
incapazes de rodar a cabeça
cinco graus para a direita ou esquerda,

no tipo de pose dos estadistas,
secretamente estupefactos pela cidade
que está a colapsar no seu esforço
para acordar.

*Moersch-Woltman


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

 MIROSLAV HOLUB


1751

Nesse ano Diderot começou a publicar a Enciclopédia
e o primeiro manicómio foi fundado em Londres.
    Dessa forma a escolha começou para separar os sãos,
que se escondem atrás das palavras dos loucos, que arrancam
penas do corpo.
    Os poetas tiveram de aprender funambulismo.
    E para não haver dúvidas, funcionários começaram a publicar
instruções sobre como ser normal.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

 MIROSLAV HOLUB

COLISÃO

Pensar que podia estar morto,
disse para si mesmo, envergonhado, como se isso fosse 
uma maldição do coração, erguendo um feixe de ossos
à altura de um homem. Como se fosse, de súbito,
proibido até tocar palavras que tinham caído para o chão.
Além disso, tinha medo de encontrar
o seu corpo numa prensa de metal. Perturbador
até aos capilares.

O eléctrico estava encravado em cima dele,
como a proa de um limpador de neve e tudo o que sobrava do carro
era um pretzel grotesco com um pedaço arrancado
pela dentadura de um anjo demente.
Qualquer coisa escura pingava nos carris
e um espantoso vento esquálido folheava 
um livro ainda quente.

As pessoas formavam um círculo e com simpatia
surda-muda aguardavam a catarse da peça,
como vermes surgindo debaixo
das asas de um frango decapitado.
Ao longe soava o lamento de sirenes a aproximarem-se,
congelando no esganiçado ar condicionado desse dia
e desse minuto. Gotas de orvalho caíam
na nuca como detritos de 
dignidade atmosférica. Perturbador
até aos capilares.

Não, obrigado, eu espero, disse ele;
pois um filme mudo tinha começado a passar
sem subtítulos, sem cor e sem respostas.

      E que dizer dos monopolos magnéticos
escapando segundos depois do Big Bang,
protões violando a irreversibilidade do fluxo do tempo?

      Que dizer das gigantescas nuvens moleculares
por baizo dos ombros das galáxias, concebendo
os embriões das estrelas?

      Que dizer da solidão dos primeiros genes
acumulando amino-ácidos em rasos charcos primordiais,
à custa de agiotas entrópicos?

      Que dizer da estrela do mar ressequida
como garras de proto-águia enterradas no leito
de um mar a desaparecer?

      Que dizer das migrações mortais de aves
observando a inclinação do sol
e o rugido de hormonas sexuais?

      Que dizer do semi-louco orangotango
aprisionado, que vomita por
não ter mais que fazer?

      Que dizer dos ratos que durante mil anos
aprenderam a cantar e das rãs a balançar 
numa pata como a coxa 
de uma rainha de beleza da Mesopotâmia?

      Que dizer da poesia, um empreendimento
tão perturbador que torce as réguas
e aumenta o estrabismo dos inspectores escolares?

      E que dizer da rapariguinha
na enfermaria de leucemia que, na casa de banho,
tentou mostrar o tipo de bigode que o médico simpático tinha,
mas como os paus escanzelados das suas mãos deslizam 
pelo bordo da bacia e ela cai e logo
tenta uma e outra vez?

      E que dizer do intelectual tímido,
o professor que compreendeu o universo próximo,
mas se esqueceu das regras do trânsito?

Não, obrigado, disse ele a alguém de uniforme,
não necessito de nada. Os meus documentos estão no bolso,
mas não consigo alcançá-los. E procurou
sorrir a este embaraço na criação concluída.
É tudo culpa minha, disse,
obrigado.
                E então morreu.

sábado, 3 de setembro de 2022

 MIROSLAV HOLUB

METADE DE UM OURIÇO-CACHEIRO

A metade traseira fora atropelada,
deixando a cabeça e o tórax
e as pernas dianteiras do molde doouriço-cacheiro.

Um grito de uma maxila 
torcida. O grito de um mudo é
mais horrível que o silêncio depois de um dilúvio,
quando até cisnes negros flutuam 
de barriga para cima.
E mesmo se algum curandeiro de ouriços-cacheiros
se encontrasse num tronco oco ou por baixo das folhas
de madeira de faia não haveria esperança
para essa mísera metade na estrada E 12.

Em nome da lógica,
em nome da teoria da dor,
em nome do Deus pai dos ouriços-cacheiros, o filho
e o espírito santo ámen,
em nome de jogos e framboesas verdes,
em nome de cascatas de amor
sempre diferentes e sempre sangrentas,
em nome das raízes que cobrem
as cabeças de fetos abortados,
em nome da beleza satânica,
em nome da pele com semelhança humana,
em nome de todas as metades 
e duplas hélices, de purinas
e pirimidinas

tentámos atropelar 
a cabeça do ouriço-cacheiro com a roda da frente.

E foi como guiar um módulo lunar
a uma distância planetária
de um centro de controle acometido
de sono cataléptico.

E a missão falhou. Saí
e encontrei um pedaço de tijolo pesado.
Metade do ouriço-cacheiro continuava a gritar. e então
o grito tornou-se fala,
preparada pelas 
abóbodas dos nossos túmulos:
Então a noite virá e terá os teus olhos.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

 MIROSLAV HOLUB

DOMINGO

Os corredores da Maratona atingiram o ponto de viragem:
Domingo, o dia de canções tristes
junto à ponte de caminho de ferro
e das nuvens.
                       Os teus olhos, no zénite -
e dizer isto sem usar o corpo é
como correr sem tocar no solo.
                      Há trinta anos
passou aqui um transporte, vagões abertos
carregados de silhuetas,
com cabeças e ombros cortados
no papel negro do horror.
E estas pessoas amavam alguém,
mas o comboio regressava vazio
todos os domingos, apenas
alguns ganchos de cabelo
e cinzas
no soalho do vagão.

Quem sabe como tocar no solo,
quem sabe como não tocar no solo?
Não se pode não acreditar
na existência da linha de chegada da Maratona
dentro de duas horas e quarenta minutos,
entre o barulho ensurdecedor das nuvens
e vagões abertos vazios
sobre a ponte do caminho de ferro.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

 MIROSLAV HOLUB

A FILOSOFIA DO OUTONO

Os raios tardios de sol
com dedos suaves tocam as folhas amarelas
no exterior. Reflectidos na janela estão
um livro e uma silhueta e uma
silhueta, um halo de cabelo louro;
este ano estamos
permeados de história 
como teia de aranha pela luz.

Pergunto-me se a presente
escassez de génios
não poderá ser causada pelo desaparecimento
do estádio terciário da sífilis.

Uma espécie de aranha celestial
ergue-se sobre ti, sobre mim
e sobre a aspirina.

domingo, 3 de abril de 2022

 MIROSLAV HOLUB

SOBRE SÍSIFO

Incapaz de empurrar esse calhau,
esse calhau ou lá o que era, talvez granito, talvez papel,
decidi que a falha era minha.
A coisa importante sobre falhas é que podem ser corrigidas,
costumava dizer a minha mãe.

Decidi que a falha era minha.
Portanto acrescentei ao calhau
outro tanto de peso. O que quer que fosse,
talvez ódio, talvez amor.
E desde logo comer melhor. Por causa

da certeza de que provavelmente 
iria partir-me o pescoço.

Depois chegou a pausa para o chá.
E percebi
que a histeria nada resolve.

quinta-feira, 3 de março de 2022

 MIROSLAV HOLUB

BREVE REFLEXÃO SOBRE MAPAS

Albert Szent-Gyorgi, que sabia umas coisas sobre mapas,
  pelos quais o olhar se movimenta para um lado ou outro,
  costumava contar esta história da guerra,
  através da qual a história se movimenta para um lado ou outro.

Numa pequena unidade húngara nos Alpes um jovem tenente
  enviou um destacamento de batedores para a vastidão gelada.
  De imediato
  começou a nevar, nevou durante dois dias e o destacamento
  não regressou. O tenente estava angustiado: tinha enviado
  os seus homens para a morte.

Ao terceiro dia, todavia, os batedores estavam de regresso.
  Onde tinham estado? Como tinham conseguido encontrar o [caminho?
  Sim, explicaram os homens, por certo pensámos que estávamos
  perdidos e e aguardávamos o fim. Foi quando, de repente, um de [nós
  encontrou um mapa no bolso. Sentimo-nos tranquilos.
  Fizemos um acampamento, esperámos que a neve passasse, e então
       com o mapa,
  encontrámos a direcção correcta.
  E aqui estamos.

O tenente pediu para ver esse notável mapa, para poder
  estudá-lo. Não era um mapa dos Alpes,
  mas dos Pirinéus.

Adeus.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

MIROSLAV HOLUB



BREVE REFLEXÃO SOBRE MATAR A CARPA DE NATAL

Pega-se num malho de cozinha
e uma faca 
e golpeia-se
no sítio exacxto, para que não se contorça, pois
contorcer-se só significa complicações e reduz o lucro.

E quem observa já cerra os olhos, já admira a destreza,
já puxa pela carteira. Há papel disponível
para a embrulhar. E fumo sai das chaminés.
E o Natal espreita pelas janelas, desliza pelo solo
e mergulha em barris.

Tal é a lei da felicidade.

Apenas me pergunto se a carpa é a criatura certa.

Uma criatura bastante melhor seria seguramente uma
que - esticada - achatada - bem segura -
rodasse o seu olho azul
para o malho, a faca, a carteira, o papel,
os espectadores e as chaminés
e o Natal.

E rapidamente

dissesse alguma coisa. Por exemplo

Estes são os meus dias mais felizes, estes são os meus dias dourados.
Ou
O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim,
Ou
E contudo move-se.

Ou pelo menos
Aleluia!
 

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

MIROSLAV HOLUB


 BREVE REFLEXÃO SOBRE CARLOS MAGNO 
         (Ver narrativa sobre o mesmo de Julius Zeyer)

Do lado de fora do portão
está pendurado um sino. Carlos Magno, filho de Pepino, o Breve,
colocou-o lá. Aqueles que foram injustiçados
fazem-no soar e Carlos interrompe os seus afazeres reais,
recebe-os de imediato, ouve-os e dispensa justiça.
Isto era em 800 D.C.

Este ano o sino soou.
À chuva, que era
uma carga de água mais que um chuvisco
e continua há mais de mil e cem anos,
encharcado até aos ossos, ensopado como um rato afogado,
num traje de bobo,
estava Carlos Magno.

Em língua de Francos atropelada reclamou urgentemente
uma audição.

terça-feira, 27 de julho de 2021

 MIROSLAV HOLUB


BREVE REFLEXÃO SOBRE GATOS CRESCEREM EM ÁRVORES

Quando as toupeiras ainda tinham reuniões gerias anuais
   e quando tinham uma visão melhor aconteceu
   expressaram o desejo de descobrir o que
   havia lá em cima.
Então elegeram uma comissão para verificar o que havia lá em cima.
A comissão elegeu uma toupeira de vista apurada e pés
ligeiros. Tendo deixado a sua mãe terra nativa,
descobriu uma árvore com um pássaro nela.

Assim foi proposta uma teoria de que lá em cima
   pássaros cresciam em árvores. Todavia,
   algumas toupeiras pensaram que tal era
   demasiado simples. Por isso, enviaram outra
   toupeira para confirmar que pássaros cresciam em árvores.

Então já era o fim da tarde e na árvore
   alguns gatos miavam. Gatos a miar,
   a segunda toupeira anunciou, cresciam nas árvores.
Assim, uma teoria alternativa cresceu sobre gatos.

As duas teorias contraditórias perturbaram um velho
   membro neurótico da comissão. E ele
   trepou para verificar por si próprio.
Então já era noite e estava escuro como breu.

Ambas as escolas estão enganadas, declarou a venerável toupeira.
   Pássaros e gatos são ilusões ópticas produzidas
   pela refracção da luz. De facto, as coisas lá em cima

Eram idênticas às de baixo, só que o barro era menos denso e
   as raízes das árvores estavam a murmurar algo,
   mas muito pouco.

E assim ficou.

Desde então as toupeiras têm ficado de baixo do solo:
   não constituem comissões,
   nem pressupõem a existência de gatos.

Ou, se tanto, apenas um pouco.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

 MIROSLAV HOLUB


NÓS QUE RIMOS

Fomos expulsos
da sala de aula, da praça,
do salão de jogos,
da Bolsa, do marcado,
do ecrã de televisão e
da moldura dourada
e de qualquer
história,  
              nós
                     que rimos.

A cidade inchou de importância
dois andares
e os aparelhos de escuta telefónica
escutaram melhor
(no silêncio)
e o porteiro
montou melhor vigilância
e o amor procurou uma faca
e a faca procurou sangue
(no silêncio)
e os ratos ficaram ainda mais
ratos (que nunca riem)
enquanto nós eramos expulsos
                    nós
                            que rimos.
Alguns pterodáctilos
aos círculos no céu de chumbo
e cavalinha e licopódio
cresceram nos canteiros
e um mastodonte elegíaco
observava desde a Câmara
para ver se regressávamos
                  nós
                         que riamos.

Não regressávamos.
Caminhámos pela calçada gasta
da rua sem fim,
entre o armazém e as fábricas,
entre a loja de peças e os montes de detritos,
entre as paredes com graffiti
e as casas vazias,
passos, passos, passos,
pelo espaço alongado
entre moitas, entre formigueiros
e
campos de minas
e
alguém tropeçou...e depois nada. Apenas silêncio.
Foi por isso que rimos.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

MIROSLAV HOLUB


INJECÇÃO

Perguntaste
    qual era o significado da gota e
    que sentiam os coelhos
    quando todos os segundos
    testemunhavam contra eles.

Repara apenas,
    com botas de três polegadas
    chega o julgamento
    e como voz clamando das profundezas
    o sangue agora aparece,
    (De que outra forma podia o coração
    prestar juramento?)

E nesse silêncio vidrado
    concordando com um simples movimento,
    sentimos na ponta dos dedos
    o peso da vida
    e uma estranha alegria
                                em sermos livres
                                                            de perguntar

Sem respostas.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

MIROSLAV HOLUB


COMO É O CORAÇÃO

Oficialmente o coração
é oblongo, muscular
e repleto de desejo.

Mas alguém que tenha pintado o coração sabe
que é também

espiculado como uma estrela
e por vezes desmazelado
como um cão rafeiro à noite
e por vezes poderoso
como um tambor de arcanjo.

E por vezes em forma de cubo
como o sonho de um artífice
e por vezes alegremente redondo
como uma bola numa rede.

E por vezes como uma linha firme
e por vezes como uma explosão.

E nele está
apenas um rio,
um açude
e no máximo um peixinho
de forma alguma dourado.

Mais como um cinzento
caboz
com ciúmes.

Por certo não se nota
à primeira vista.

Alguém que tenha pintado o coração sabe
que primeiro teve
de descartar os óculos
o espelho
atirar fora o seu lápis de ponta fina
e o papel químico

e durante um bom bocado
caminhar
lá fora.

quinta-feira, 4 de março de 2021

 MIROSLAV HOLUB


DISCÓBULO

Mas
antes do lançamento final
alguém lhe sussurror
por trás

     - Só um momento,
    ainda temos de discutir isto
    puramente por uma questão de forma,
    - Não conheces a situação,
    camarada,

Em princípio saudamos
a tua iniciativa, 
mas deves compreender

    - Temos de insistir
    num acordo
    fundamental 
    para cada lançamento,

ele sentiu 
o suave vento sudanês
de junco, à volta do seu punho,
queria gritar alto,
mas
a sua boca
estava subitamente cheia
com o algodão doce do céu da tarde,
os seus músculos incharam
como granito tessálio,
mas não havia nada de nota,

    - Em frente,
    alguém disse,
    abram caminho, por favor,
    Demóstenes 
    lançará agora
e Demóstenes 
tirou um grão de areia debaixo da língua
e com precisão
sacudiu-o para o olho de outro
   -  Hurra, mais um
   recorde do mundo,
gritaram,

desesperado, enlouquecido, anónimo
Discóbolo
rodou dos joelhos
para baixo,
mas era
já rocha
e viu apenas um único
enorme grão de areia
de horizonte a horizonte.

Por isso ficou ali.

E cruzando a esquina
chegou
a primeira excursão escolar
conduzida
pelos melhores pedagogos
que assinalaram, em particular,
o jogo dos ombros,
o corajoso coração humano
e a orgulhosa marcha em frente
a caminho
da eternidade.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

 MIROSLAV HOLUB


POUCAS PESSOAS VERDADEIRAMENTE ESPERTAS

As suas palavras eram alfinetes,
os seus silêncios agulhas.

A noite com mãos frias
debruçava-se
sobre o animal descosido do mundo.

E indo para casa
pontapeavam
                       um naco de pão
de um canto
                     para outro.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

 MIROSLAV HOLUB


POLÓNIO

Detrás de toda a tapeçaria
ele cumpre o seu dever
com perseverança.
As paredes são os seus ouvidos,
buracos de fechadura os seus olhos.

Esgueira-se escada acima,
escorre do tecto,
flutua através da porta,
pronto a prestar testemunho,
provar o que está provado,
apunhalar com uma agulha
ou afixar uma ordem.

Os seus poemas rimam sempre,
o seu pincel mergulhado em mel,
a sua música flauta
de marzipão e cana.

Compra.se 
ao quilo, sem osso,
um quilo de carne de cera,
um quilo de filosofia de ratos,
um quilo de lacaio
de geleia.

E quando tiver acabado a venda
e as sobras embrulhadas
num obituário de borlas,
uma notícia fúnebre paranóica

e quando o bolor gerador de esporos
da memória
o cobrir por completo,
quando cair
para as estrelas, de rabo para cima,

o continente todo ficará mais leve,
o eixo terrestre endireitará
e na arena retumbante da noite
um passáro irá gorjear de gratidão.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

 MIROSLAV HOLUB


   A MOSCA

Pousou num tronco de salgueiro
observando
parte da batalha de Crécy,
os gritos,
os arquejos,
os gemidos,
a correria e a confusão.

Durante a décima quarta carga
da cavalaria francesa
acasalou
com uma mosca macho de olhos castanhos
de Vadincourt.

Esfregou as patas
e pousou num cavalo desventrado
meditando
na imortalidade das moscas.

Com alívio aterrou
na língua azul
do duque de Clervaux.

Quando o silêncio desceu
e apenas o murmúrio de podridão
rodeou levemente os corpos

e apenas
poucos braços e pernas
ainda se contorciam debaixo das árvores

começou a depositar os ovos
no único olho
de Johann Uhr,
o Armeiro Real.

E foi assim
que foi comida por um gaivão
que fugia
dos fogos de Estrées.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

 MIROSLAV HOLUB


     NAPOLEÃO

Meninos, quando
nasceu Napoleão Bonaparte,
pergunta o professor.

Há mil amos, dizem as crianças.
Há cem anos, dizem as crianças.
No ano passado, dizem as crianças.
Ninguém sabe.

Meninos, o que 
fez Napoleão Bonaparte,
pergunta o professor.

Ganhou uma guerra, dizem as crianças.
Perdeu uma guerra, dizem as crianças.
Ninguém sabe.

O nosso talhante tinha um cão
chamado Napoleão,
diz Frantisek.
O talhante costumava bater-lhe e o cão morreu
de fome
há um ano.

E todas as crianças têm agora pena
de Napoleão.

  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...