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quarta-feira, 19 de abril de 2023

 LI SHANG-YIN


RIO TORTUOSO

Tão longe o tempo pacífico em que passava o palanquim verde.
É estulto ouvir a canção de amor que um fantasma triste canta.
O carro dourado já não traz de volta a beleza que arruinava cidades
Aonde o muro de jade quebra ainda a ondulação do parque
... Moribundo recordou Hua-t'ing, ouviu o grito das cegonhas...
... Velho, temendo por uma casa real, chorou junto aos camelos de   bronze... 
O céu desolado e a terra em discórdia, mesmo a ferida do seu coração Destruído era mais leve que a dor da Primavera.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

LI SHANG-YIN


 ESCRITO NA PAREDE DE UM MOSTEIRO

Rejeitaram a vida procurando a Via. As suas pegadas diante de nós.
Decisão inabalável: oferecer os pensamentos, destroçar os corpos.
Julgando-o enorme um grão de milho engana-nos sobre o Universo.
Julgando-o pequeno o Mundo esconde-se na ponta de uma agulha.
Antes de ter o ventre cheio a ostra pensa na nova acácia.
O âmbar, quando se deposita, recorda ter sido um pinheiro.
Se acreditarmos nas palavras escritas nas folhas indianas
Ouviremos todo o passado e o futuro num toque do sino do templo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

 LI SHANG-YIN


A TZU-CHI: ENTRE AS "FLORES"

A luz no lago, de súbito, esconde-se atrás do muro,
Invadem o quarto os cheiros misturados de flores.
Na borda do biombo, o pó que a borboleta espalhou,
Na janela lacada a mancha amarela da abelha.
Deixa esses papéis oficiais para os escriturários,
Há um criado para cada funcionário honesto.
Vamos de cavalgada ouvir os poemas um do outro.
Que há de tão urgente nestes assuntos em que perdes o coração?

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

 LI SHANG-YIN


CHUVA NOCTURNA: À MINHA MULHER NO NORTE

Perguntas-me quando regressarei: não sei a resposta.
De noite, a chuva de Outono, no monte Pa, enche o lago.
Quando, lado a lado, acenderemos uma vela, na varanda poente
E recordaremos o tempo da chuva nocturna no monte Pa?




terça-feira, 20 de setembro de 2022

 LI SHANG-YIN

DIA APÓS DIA

Dia após dia, a glória da primavera rivaliza com a glória do sol.
As estradas que serpenteiam até à cidade na colina cheiram a flores de   amendoeira.
Quanto tempo até que os fios do coração, livre de cuidados,
Flutuem, como a alfazema, por longa distância-

quinta-feira, 21 de julho de 2022

LI SHANG-YIN

PRIMEIRO MÊS: EM CASA DE CH'UNG-JAN

Escondido atrás de ferrolhos e barras duplas, cobertas de musgo,
No fundo dos corredores, nos quartos mais recônditos, deambulo.
Um presságio de que irá levantar-se vento: a auréola à volta da lua.
Ainda a estação das geadas, os botões por desabrochar.
Um morcego atravessa a persiana. Inquietação sem fim.
Um rato perturba a teia de aranha na janela, alarmado por suspeitas        breves.
Á luz da lâmpada, falo a uma fragrância que persiste no ar
E, como antes, desprevenido, canto "Levanta-te Na Noite E Vem".

sábado, 28 de maio de 2022

 LI SHANG-YIN

EXÍLIO

Um dia de primavera no fim do mundo.
No fim do mundo, de novo o dia passa.
O melro chora, como se fossem as suas lágrimas
Que molham os ramos cimeiros das árvores.




quarta-feira, 13 de abril de 2022

 LI SHANG-YIN


Pesadas cortinas duplas no quarto de Mo-Ch'ou.
Deitada, o frio do anoitecer, pouco a pouco, cresce.
A vida que partilhou com a deusa foi apenas um sonho.
Nenhum jovem visita a casa da donzela.
O vento e as ondas não se apiedam das folhas frágeis do castanheiro      do lago.
Quem adoçará, ao luar e no orvalho, as folhas da acácia, já sem              cheiro? 
Repetimo-nos que o amor é sempre insensato -
E ainda que o desgosto é uma loucura lúcida,

quinta-feira, 10 de março de 2022

 LI SHANG-YIN

Recusa a paixão. A Primavera instala-se.
A noite, repara, como passa lentamente.
A casa ressoa; quer levantar-se, não ousa.
Um brilho atrás da cortina; passá-la, não pode.
Seria demasiado doloroso, a andorinha no gancho do cabelo.
Envergonha-me: a fénix no espelho.
No caminho de regresso, alvorada sobre Heng-T'ang.
A estrela da manhã desponta, despede-se das jóias da sela.

sábado, 22 de janeiro de 2022

 LI SHANG-YIN

O vento de leste sopra, trazendo uma chuva morna:
Além do tanque dos nenúfares, o barulho ténue do trovão.
Um sapo de ouro abocanha a fechadura. Abre-a, queima incenso.
Retira água do poço, puxa a corda que tem um tigre de jade.
A filha de Jia espreitou palo biombo: um jovem encantador.
A Deusa do Rio deixou a almofada ao Príncipe de Wei.
Que nunca o teu coração acorde com as flores da Primavera.
Um punhado de amor é um punhado de cinzas.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

 LI SHANG-YIN


São tão difíceis os encontros, mais difícil a separação.
O vento leste perdeu a força, murcharam todas as flores.
Na Primavera, os bichos-da-seda tecem, até morrer, os fios do coração;
As lágrimas da vela não secam até o pavio ser cinza.
De manhã, vendo-se ao espelho: ficará grisalho o cabelo?
Repetindo um poema durante a noite, sentirei o arrepio do luar?
Não é longe daqui até ao Rio Escuro -
Pássaro Azul, depressa, vigia-me a estrada.

sábado, 7 de agosto de 2021

 LI SHANG-YIN


Onde a lira triste que segue a flauta repentina?
Por veredas infindáveis, onde florescem cerejeiras, num cais
                                                            de salgueiros curvados.
A Senhora da Casa Leste envelhece e ninguém a ama.
O sol branco ao meio-dia. o último mês da Primavera
                                                               quase a findar.
A Princesa Li-yang tem catorze anos.
Quando o dia refrescar, depois da Festa da Chuva, um
                                                     encontro junto à sebe
...Regressa a casa, volta-te na cama até à quinta hora.
Duas andorinhas, nos beirais, ouvem o longo suspiro.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

 LI SHANG-YIN


Cauda de fénix em seda perfumada, desenho azul,
No dossel, linha após linha, ela bordou pela noite dentro.
O leque, em forma de lua, não escondia o seu embaraço.
A carruagem partiu trovejando, sem tempo para a última palavra.
No quarto silencioso escureceu o ouro do pavio:
Desde então nenhuma mensagem, já a romã está vermelha.
O cavalo aguarda, amarrado, no cais, junto aos salgueiros;
Onde esperar que um vento benigno sopre de sudoeste?

segunda-feira, 24 de maio de 2021

 LI SHANG-YIN


Estrelas da noite passada, ventos da noite passada.
A oeste da sala pintada, a leste do Pavilhão da Acácia.
Se os corpos não têm as asas da fénix esplêndida,
Os nossos corações comunicam no vértice do corno mágico.
Em mesas separadas, jogámos aos dados; já quente o vinho primaveril.
Quem decifra as adivinhas? - a luz da vela avermelhou-se.
Ai, ouço o tambor, tenho de ir para onde o dever me chama,
Cvalgar para o Terraço da Orquídea, erva arrastada pelo vento.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

 Li SHANG-YIN  (812?-858)


Este foi o primeiro conjunto de versões de poesia, que realizei e publiquei, a partir de traduções (infidelidade dupla, de que tento absolver-me na introdução ao livro). Logo repetiria o pecado com Poemas da Antologia Grega e o prolongaria em versões editadas neste blog.
Claramente este não é o meu poeta chinês favorito - esses, Li Bai, Tu Fu, Bai Ju-Yi..., são da geração anterior (o período de ouro da poesia chinesa, correspondendo à primeira fase da dinastia Tang); estão competentemente traduzidos por António Graça de Abreu (tanto quanto posso julgar, nomeadamente comparando com versões noutras línguas). De qualquer forma , Li Shang-yin é diferente desses ilustres antecessores e um poeta muito digno de se ler.


                        I

O regresso foi promessa vã, partiste, sem deixar rasto;
O luar desliza sobre o telhado, já soa a quinta hora.
Sonho de despedidas longínquas, apelos ignorados,
Apresso-me a terminar a carta, mas a tinta não espessa.
A luz da vela semi-cerca águias marinhas, bordadas a ouro,
O cheiro a almíscar que os nenúfares bordados exalam.
O jovem Liu queixa-se que a Montanha dos Imortais é longe.
Depois da Montanha, cimo após cimo, dez mil montanhas se levantam.




  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...