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domingo, 8 de janeiro de 2023

VÍCTOR BOTAS 


ANALES

El 2 de septiembre del año 31 antes de Cristo
Octavio (aún no era Augusto
                                               -lo sería
en enero del 27)
                      borra del mar de Actium,
bajo un sol impasible,
el gran sueño imperial de Cleopatra.

En Mühlberg, Carlos V, el 25
de abril de 1547,
desde el lecho doliente de un ataque de gota,
humilla al luterano
Juan Federico de Sajonia,  
                                           y Wittenberg
-patria de la Reforma-
vuelve a poder católico.
                                       El 21
de octubre de 1805, Nelson,
herido ya de muerte,
derrota en Trafalgar y simultánea-
mente a las dos armadas
enemigas.

El 5 de junio de 1942, el almirante
japonés Yamamoto, ante el desastre 
inevitable, ordena           
cambiar rumbo a sus naves
de Midway, entre golpes 
de mar y espuma y viento.
El miércoles 6 de abril de 1994,
en un lugar tan trivial como lo es una cafetería,
una mujer y un hombre se enredaron
en tácito combate de miradas.
                                                 Quién me diera
no haber sido aquel hombre.


               xxxxxxxxxxxxxxx


ANAIS

A 2 de setembro do ano 31 antes de Cristo
Octávio (ainda não era Augusto
                                                   - sê-lo-ia
em Janeiro de 27)
                              apaga do mar de Actium,
sob um sol impassível,
o grande sonho imperial de Cleópatra.

Em Mühlberg, Carlos V, a 25
de abril de 1547,
desde o leito enfermo de um ataque de gota,
humilha o luterano
Juan Federico de Saxónia,
                                           e Wittenberg
- pátria da Reforma -
retorna ao poder católico .
                                           A 21
de outubro de 1805, Nelson
ferido já de morte,
derrota em Trafalgar e simultanea
-mente as duas armadas 
inimigas.

A 5 de junho de 1942, o almirante 
japonês Yamamoto, ante o desastre
inevitável, ordena
que mudem de rumo os seus navios
de Midway, entre golpes
de mar e espuma e vento.
Quarta-feira, 6 de abril de 1994,
num local tão trivial como um café,
um homem e uma mulher enredaram-se
em tácito combate de olhares.
                                                 Quem me dera
não ter sido aquele homem.

domingo, 6 de novembro de 2022

 VÍCTOR BOTAS

LA CITA

Cierta tarde de la primavera de mil novecientos
          setenta y seis,
en un lugar cualquiera de la ciudad de Portland
          (Oregón)
una mujer y un hombre concertaron 
una cita.
               Al fin podrían, en silencio,
contemplar casi incrédulos,
los recíprocos ojos anhelantes.
                                                  Luego él,
maravillado, le propuso: Huyamos, todo
lo dejaré por ti. Mas, llena
de júbilo o de espanto (lo ignoramos),
la mujer se negó.
                            De aquella anédocta
surgiría una lluvia delicada,
                                              íntima
de palabras, 
de música, de fuegos 
rituales,
              lluvia
de cuyas consecuencias ya empezamos
a hacernos, más o menos, uma idea.


               xxxxxxxxxxxxxxxxxx


O ENCONTRO

Certa tarde de primavera de mil novecentos
         e setenta e seis
num lugar qualquer da cidade de Portland
         (Oregon)
uma mulher e um homem combinaram 
um encontro.
                      Por fim poderiam, em silêncio,
contemplar, quase incrédulos,
os recíprocos olhos anelantes.
                                                 Logo ele, 
maravilhado lhe propôs: Fujamos, deixarei
tudo por ti. Mas, cheia
de júbilo ou de espanto (ignoramo-lo),
a mulher recusou.
                              Daquela história
surgiria uma chuva delicada,
                                               intíma,
de palavras,
de música, de fogos
rituais.
            Chuva
de cujas consequências já começamos 
a ter, mais ou menos, uma ideia.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

VÍCTOR BOTAS


EL PERPLEJO

Las olas que vinieron a morir a mis pies cada verano, desde mil              novecientos cuarenta y seis.
El cigarillo roto del cenicero azul.
Mi mano con la pluma que no entiendo.
La rosa inalcanzable de Jorge Luis Borges.
La amistad de unos pocos.
El clavel amarillo que ignoré esta mañana en una tienda de flores.
La piedra con la que tropecé el pasado mes de julio en Puente Viejo.
El salto delicado de los gatos.
Los payasos del Price que yo miraba atónito, a los cinco o seis años.
La cara muerta de mi abuelo que se me está borrando.
Paulina en el Gran Canal de Venecia, un dia de mil novecientos   setenta y uno.
El grano que ahora tengo en la mejilla.
José Luis García Martín camino de Oliver con un puñado de libros y   revistas bajo el brazo.
Mis hijas que jugaban junto a la gran roca que hay en la playa de   Biarritz.
Mis hijos que todavía juegan en el mismo lugar.
La mala leche con que pago a Hacienda.
El capot de mi coche tragándose impertérrito la larga cinta gris de la    carretera.
Los ojos que no ven más que otros ojos que pasan junto al mar cada   mañana
y que, como las olas, se estremecen, azules y cambiantes.
El sabor de un café, rayando el alba,
en el barrio Latino de París.
La angustia de saber que tan sólo me salvan unas cuantas líneas   vacilantes.
Los cincuenta años que cumpliré, dentro de once meses y medio.
Esta leve lumbalgia al levantarme de la silla...


                         xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx


O PERPLEXO

As ondas que vieram morrer todos os verões, desde mil novecentos      e quarenta e seis.
O cigarro partido do cinzeiro azul.
A minha mão com a pluma que não entendo.
A rosa inalcançável de Jorge Luis Borges.
A amizade de uns poucos.
O cravo amarelo que ignorei esta manhã numa florista.
A pedra em que tropecei no passado mês de julho, em Puente Viesgo.
O salto delicado dos gatos.
Os palhaços do Price que eu mirava atónito, aos cinco ou seis anos.
A cara morta do meu avô que me está desaparecendo.
Paulina no Grande Canal de Veneza, um dia de mil novecentos e   sessenta e um.
A  borbulha que agora tenho na bochecha.
José Luis García Martín a caminho para Oliver com um punhado de   livros e revistas debaixo do braço.
As minhas filhas que brincavam junto à grande rocha que há na praia de Biarritz.
Os meus filhos que ainda brincam no mesmo local.
A irritação com que pago os impostos.
O capot do meu carro devorando impertérrio a larga fita cinzenta da   estrada.
Os olhos que não vêem mais que outros olhos que passam junto ao   mar cada manhã.
e que, como as ondas, estremecem , azuis e mutáveis.
O sabor de um café raiando a madrugada
no bairro Latino de Paris.
A angústia de saber que apenas me salvam umas quantas linhas   vacilantes.
Os cinquenta anos que cumprirei, dentro de onze meses e meio.
Esta leve lombalgia ao levantar-me da cadeira...

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

 VÍCTOR BOTAS

HISTORIA ANTIGUA

Temístocles contempla victorioso,
bajo el alto penacho de crin trémula al viento,
el mar de Salamina - cabrilleo
de espumas, azules ondas, naves
a la deriva y
esa leve calma opalescente,
preludio del crepúsculo. Pisa, 
de cuando en cuando, caras machacadas,
brazos, testículos, que el golpe
(no certero: casual) de alguna espada
derramó ensangretados
en cubierta.
                    Luce César, camino
de las aras de Júpiter, allá en el Capitolio,
cubierto de cadenas para pasmo
de Roma, al gran Vercingetorix, 
antes de darle muerte,
mientras nubes de incienso y lentos flámines
suspiran en honor
de los dioses amigos de las siete colinas.
                                                                  Urbano
el Papa anuncia desde su
áurea silla curul/curil, que irán
al cielo quienes
tomen las armas (y la cruz)
contra el infiel que ocupa Tierra
Santa - Aquí,
aquí, sí que hubo, sin
figura retórica ninguna, bulas
para difuntos
futuros.
                              Indios
conversos a cristazo limpio.
                                             Negros
que Europa puso al tajo para hacer
las Américas.
                      Estirados ingleses
que pasan sonriendo fusta en mano
junto al sagrado Ganges,
saludan delicados a una lady preciosa, cogen
la metralleta
y se van tan campantes a borrar para siempre
del mapa aquel tenor que
se llamaba Adolfo,
a golpes de hamburguesas, donuts y
cocacola.
                Cuántas
barbaridades. Cuántas.
Y muy de agradecer, seguramente.   


                    xxxxxxxxxxx


HISTÓRIA ANTIGA

Temístocles contempla vitorioso,
sob o alto penacho de crina trémulo ao vento,
o mar de Salamina - cabreado
de espumas, ondas azuis, naves
à deriva e essa neblina opalescente,
prelúdio do crepúsculo. Pisa,
de quando em vez, caras destroçadas, braços
soltos, testículos que o golpe
(não certeiro: casual) de alguma espada
derramou ensanguentados
na coberta.
                   Exibe César, a caminho
das aras de Júpiter, ali no Capitólio,
coberto de cadeias para pasmo
de Roma, o grande Vercingétorix,
antes de o matar, 
enquanto nuvens de incenso e lentos flâmines
suspiram em honra
dos deuses amigos das sete colinas.
                                                          Urbano
o Papa anuncia desde a sua
áurea cadeira curul/curil, que irá
para o céu quem pegue
nas armas (e na cruz)
contra o infiel que ocupa a Terra
Santa. - Aqui,
aqui é que houve,sem
figura retórica nenhuma, balas
para defuntos 
futuros.
             Índios
convertidos a porrada limpa.
                                               Negros
que Europa pôs no cepo para fazer
as Américas.
                     Estirados ingleses
que passam sorrindo, chibata na mão,
junto ao sagrado Ganges,
saudam delicados uma lady primorosa, agarram
na metralhadora
e partem ufanos a limpar para sempre
do mapa aquele terror que
se chamava Adolfo,
a golpes de hamburguers, donuts
e coca-cola.
                    Quantas 
barbaridades. Quantas.
E para agradecimento, seguramente.


sábado, 25 de junho de 2022

 VÍCTOR BOTAS

LAS ROSAS DE BABILONIA

                            No me perguntes cómo pasa el tiempo
                                                                               Li Kiu Ling

No me perguntes cómo pasa el tiempo.
El caso es que ya estoy un poco sordo
y el pelo me blanquea. Sin embargo,
aún siento un no sé qué, algo muy tenue
(como un temblor de luna en un estanque),
aquí, justo en la boca del estómago,
cada vez que te miro. Qué curioso,
qué curioso, ¿verdade? Qué raro: el tiempo,
que en Babilonia destroyó las rosas,
que terminó con Júpiter y a polvo
redujo los imperios y las caras
(que todo se lo lleva por delante
como un rinoceronte enloquecido),
me parece que hoy se va a dejar
los dientes (por lo menos), en su inútil
empeño de ir borrándote esos ojos
que intactos - yo lo quiero - aquí se quedan.


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AS ROSAS DE BABILÓNIA

                                      Não me perguntes como passa o tempo
                                                                                                  Li KIU LING

Não me perguntes como passa o tempo.
A questão é que já estou um pouco surdo
e o cabelo branqueia. Contudo,
ainda sinto um não sei quê, algo muito ténue
(como um trmor de lua num tanque),
aqui, mesmo na boca do estômago,
cada vez que te olho. Que curioso,
que curioso, não é verdade? Que estranho: o tempo
que em Babilónia destruiu as rosas,
que terminou com Júpiter e a pó
reduziu os impérios e as caras
(que tudo leva pela frente
como um rinoceronte enlouquecido),
parece-me que hoje vai deixar
os dentes (pelo menos) no seu inútil 
empenho de ir apagando-te esses olhos
que intactos - assim quero - aqui ficam.



domingo, 8 de maio de 2022

VÍCTOR BOTAS 


VÍA CRUCIS

No te engañes: no hay más que dos caminos.
Mas puedes escoger, así que deja 
tu estameña y el cuenco de las gachas
y cúbrete en silencio de orgullosa
púrpura, suave lino, azul diadema,
o de húmedas guirnaldas palpitantes,
y avanza como un rey o como un toro
que inmolaran los flámines a Júpiter.
No te engañes: no hay más que dos caminos.
Y por los dos trás el matadero.


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VÍA CRUCIS

Não te enganes: há apenas dois caminhos.
Mas podes escolher, portanto deixa
a tua estamenha e a malga das migas
e cobre-te em silêncio de orgulhosa
púrpura, suave linho, diadema azul
ou de húmidas grinaldas palpitantes
e avnça como um rei ou como um touro
que os flâmines imolaram a Júpiter.
Não te enganes: há apenas dois caminhos.
E pelos dois irás ao matadouro.

sexta-feira, 25 de março de 2022

 VÍCTOR BOTAS

ROMA

¿Recuerdas una tarde en que te puse flores
granantes en el pelo, ¿allá en el Aventino?
Parecías talmente una diosa pagana.
O mejor, una ninfa: la Dafne legendaria
que jamás tuvo Apolo, por obra de los dioses.
Esa tarde aún espera su momento preciso,
temblando en cierta página de un libro ¿Y aquella
noche antigua, su tibieza de estío, rodeados
de faunos y bacantes, de amorcillos inquietos,
en un café de Vía Veneto? ¿La recuerdas? Reías,
reíamos los dos, reíamos como antes
no habíamos reído en nuestras vidas - ¡Oh, Dios,
qué sensación maldita de vivir, insoportable, extraña,
de la que nada me aliviaba! Fue,
fue como si todo, todo, se hubiera indo borrando (el tráfico,
la puerta Pinciana iluminada y ocre, el orgulloso
Excelsior) y tan sólo tú y yo quedáramos en Roma;
solos tú y yo y esa luna tranquila y silenciosa
de yodos los amantes, una luna muy pálida y muy grande,
una luna
que también se reía, redonda en su alto cielo cárdeno
y cargado de astros, de estrellas y de dioses,
mil veces más antiguo que el gran cielo de Júpiter.
Solos tú y yo en el mundo, cogidos de la mano
por el Campo dei Fiori. Solos tú y yo  en el mundo
por Vía del Babuino, por el Corso, al pie
del viejo arco de Tito, bajo las rotas bóvedas
del Foro de Trajano. Y aquel lento vagar como embrujados
por la villa Borghese o arriba, en el Janículo,
con la ciudad convulsa a nuestros pies,
con la ciudad herida a nuestros pies,
con la ciudad sufriendo a nuestros pies,
                                                                 adormecida
qual que si acabara de salir
de un ataque epiléptico.
¿Recuerdas todo eso?
También hubo un paseo junto al río: mirábamos
sus aguas que arrastraron graves togas,
cadáveres e imperios,
y batallas y puentes. De uno dellos te dije: ese
es el puente Emilio, Dafne. ¿Lo recuerdas?
El púrpura del cielo flotará cada día en las colinas
al caer el crepúsculo.
                                   Pero lo más curioso
(lo más curioso, Dafne)
                                       es que nunca estuvimos
tú y yo juntos en Roma.


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ROMA

Recordas uma tarde em que te pus cachos
de flores no cabelo, lá no Aventino?
Parecias tanto uma deusa pagã.
Ou melhor, uma ninfa: a Dafne legendária
que Apolo nunca possuíu, por graças dos deuses.
Essa tarde ainda espera o seu momento preciso,
tremendo em certa página de um livro. E aquela
noite antiga, a sua tepidez de estio, rodeados
de faunos e bacantes, de namoriscos inquietos,
num café da Vía Veneto? Recorda-lo? Rias, 
ríamos os dois, ríamos como antes
não tinhamos rido nas nossas vidas. Oh, Deus,
que sensação maldita de viver, insuportável, estranha,
de que ninguém me aliviava! Foi,
foi como se tudo, tudo, se tivesse ido esfumando (o tráfego,
aporta Pinciana, iluminada e ocre, o orgulhoso
Excelsior) e só tu e eu sobrássemos em Roma;
só tu e eu e essa lua tranquila e silenciosa
de todos os amantes, uma lua muito pálida e muito grande,
uma lua
que também se ria, redonda no seu alto céu violeta
e carregado de astros, de estrelas e de deuses,
mil vezes mais antigo que o céu de Júpiter.
Só tu e eu no mundo, de mão dada
pelo Campi dei Fiori. Só tu e eu no mundo
pela Vía del Babuino, pelo Corso, junto
ao velho arco de Tito, debaixo das abóbodas rotas
do fórum de Trajano. E aquele lento deambular como embruxados
pela Villa Borghese ou acima, no Janículo,
com a cidade convulsa aos nossos pés,
com a cidade ferida aos nossos pés,
com a cidade sofrendo aos nossos pés,
                                                               adormecida
como se acabasse de sair
de um ataque epiléptico.
Recordas tudo isso?
Também houve um passeio junto ao rio: mirávamos
as suas águas, que arrastaram graves togas,
cadaveres e impérios
e batalhas e pontes. De uma delas disse-te: essa
é a ponte Emilio, Dafne. Recordas?
A púrpura do céu flutuará todos os dias nas colinas
ao cair o crepúsculo.
                                  Mas o mais curioso
(o mais curioso, Dafne)
                                       é que nunca estivemos
tu e eu juntos em Roma.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

 VÍCTOR BOTAS

CASTOR Y POLUX

                                         Para Víctor y Diego

¿Habráse visto jeta semejante,
peor educación: venir así, sin previo
aviso, sin ni siquiera el clásico ¡podríamos
pasar? Nada
de nada: cogen,
se te plantan en casa, en plena
noche (a pares
para mayor escarnio), y ya está; se acabó
la paz.
            Berrean, mil veces
se te cagan, rompen
las porcelanas, te
adjucican un mote (valiente
urbanidad la de estes mamarrachos
repelente, monstruos): papi, papín, papilla,
papitita, papaco.
                            Y tú
enfebrecido, muerto
de sueño, com dolores
de espalda, demacrado,  
                                       terminas
-¡oh eterno masoquista!
                                       tan jodido
y feliz
como furcia de hotel en noche de congreso.


               xxxxxxxxxxxxxxxxxx


CASTOR E POLUX

                                     Para Víctor y Diego

Ter-se-á visto desfaçatez semelhante,
maior falta de educação: vir assim, sem prévio
aviso, sem sequer o clássico poderíamos
entrar? Nada
de nada; apanham,
prantam-se em casa, em plena
noite (aos pares,
para maior escárnio) e já está: acabou-se
a paz.
           Berram, cagam
mil vezes, partem
as porcelanas, adjudicam-
-te um mote
(valente urbanidade a destes mamarrachos,
repelente, monstros): papi, papim, papinha,
papita, papaco.
                          E tu,
febril, morto
de sono, com dor
de costas, encovado
                                  acabas
- ó eterno masoquista! -
                                        tão fodido
e feliz
como puta de hotel em noite de congresso.

sábado, 1 de janeiro de 2022

 VÍCTOR BOTAS


ASTURCÓN
(Epílogo marcial)


Este caballo de pequena alzada
que ciñe, como puede el torpe casco
a un trote acompasado, vino a ti
desde Astúrias. Comprendo
que los hay en Bética más dóciles,
con más escuela, vamos, y capaces
de recorrer la vía
Hercúlea, meneando
las cachas, casi casi
igual que Telezusa (sí, la chica
aquella, gaditana por más señas,
que de sobra podría
levantársela a un muerto
con sus danzas. Pero éste,
éste que vino
a ti desde las brumas
sigilosas del Norte, atravesando
a trancas y barrancas las alturas
de los montes astures, tan huraño,
tan modestito él, tan poca
cosa y, por si no bastara,
cojitranco, contento
se daría en los dientes con un canto,
si acertara a traerte,
para adornar tu sien, no el oro,
no las rituales ínfulas, tampoco
insensatas guirnaldas (a la postre
no se trata, supongo, de inmolar
una cerda preñada 
a la pródiga Ceres), sino algo
(imagina un instante que ahora mismo
emprendes, yo que sé, un largo viaje
a las míticas fuentes
del somnoliento Nilo
con tu amor imposible,
romántico y secreto), sino algo, decía,
muy parecido en todo
a una emoción inquieta y - ¡por qué no! ¡por qué no,
a ver, por qué? - unas gotas
de sonriente coña beatífica.


              xxxxxxxxxxx


ASTURCÓN
(Epílogo marcial)

Este cavalo de pequeno porte
que molda, como pode, o torpe casco
a um trote pausado, chegou-te 
das Astúrias, - Compreendo
que os há na Bética mais dóceis,
com mais escola, e capazes 
de percorrer a via 
Hercúlea, meneando
as ancas, quase quase
como Telezusa (sim, aquela
iga, pelos traços gaditana,
que, de sobra, poderia
fazer empinar a de um morto
com as suas danças). Mas este, 
este que te
chegou desde as brumas
sigilosas do Norte, atravessando 
todos os obstáculos das alturas
dos montes asturianos, tão furtivo,
modestíssimo, tão pouca
coisa e, como se não bastasse,
coxo a olhos vistos, contente
ficaria, entre os dentes, com um canto,
se acertasse em trazer-te,
para adornar as tuas têmporas, não o ouro,
nem as rituais ínfulas, tão pouco
insensatas grinaldas (pr fim
não se trata, suponho, de imolar
uma porca prenhe
à pródiga Ceres) mas algo
(imagina um instante que agora mesmo
empreendes, sei lá, uma longa viagem
às míticas fontes
do sonolento Nilo
com o teu amor impossível,
romântico e secreto) mas algo, dizia,
muito parecido em tudo
a uma emoção inquieta e - por que não? por que não,
vejamos, por quê- umas gotas
de sorridente trapaça beatífica.


Nota do Autor: Não se inquiete o leitor: isto de "epílogo marcial" não implica nenhuma belicosidade; recorda simplesmente, que os primeiros versos, que estão em itálico, tirei-os de um brevíssimo texto de Marco Valerio Marcial, intitulado, claro, "Asturcón".

terça-feira, 21 de setembro de 2021

 VÍCTOR BOTAS


PIADOSÍSMO CULTO

Oh amogos, ya en los tiempos
de aquel atroz caudillo profesaba
de liberal. Ya entonces
- y para qué negarlo: no sería
sino falsa modestia - me jugaba
continuamente el puesto (y por lo tanto
el cocido) metiendo en las molleras
de mis muchos discípulos el pío
cullto a la Democracia. No podríais
imaginar siquiera aquellas noches
insomnes, intentando
compaginar mi innato - ¡Oh cuantísimo
cuantísimo sufrí en aquel entonces! -,
innato, sí, os decía
talante democrático y el recto
severísimo oficio
de censor.


   xxxxxxxxxxxxx


PIEDOSÍSSIMO CULTO

Ó amigos, já nos tempos
de aquele atroz caudilho professava
de liberal. Já então
- e para quê negá-lo: não seria
senão falsa modéstia - arriscava
constantemente o posto de trabalho (e portanto
o cozido) metendo nas mioleiras
dos meus muitos discípulos o pio
culto da Democracia. Não podereis
imaginar sequer aquelas noites 
insones, tentando
conciliar o meu inato - ó tantíssimo,
tantíssimo sofri naquela altura! -,
inato, sim, dizia-vos,
talante democrático e o recto
severíssimo ofício
de censor.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

 VÍCTOR BOTAS


CHEQUEO

Vida normal, ya digo. (Entre paréntesis
no le convienen nada más de siete
pitillos; ni abusar del café: dos 
o tres tacitas bastaran, Y, sobre
todo, ni una gota de alcohol.) Es bueno
un poco de ejercicio, pero nada
de esfuerzos. - Doctor, son treinta y cinco
y no setenta años los que tengo , 
le dije, como hablando a las paredes.
Usted está muy sano; así que vida
normal, ya se lo digo. En cuanto
al sexo, también todo normal; en casa
y evite otras mujeres peligrosas
y muy muy excitantes - lo he probado
yo científicamente - son las citas
en secretos lugares y muy dulces;
a usted le irá mejor la sacarina.


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EXAME

Vida normal, é o que digo. (Entre parênteses,
não lhe convém mais que sete
cigarros, nem abusar do café: duas
ou três chavenazinhas bastarão. E, sobretudo
nem uma gota de álcool.) è bom
um pouco de exercício, mas nada 
de esforços. - Doutor, são trinta e cinco
e não setenta anos que tenho,
disse-lhe, como se falasse para as paredes.
O senhor está muito são, portanto, vida
normal, como lhe disse. Quanto 
ao sexo, também tudo normal: em casa
e evite outras mulheres: perigosas
e muito, muito excitantes - provei-o
eu, cientificamente - são os encontros
em lugares secretos e muito doces;
e para si será preferível a sacarina. 

domingo, 6 de junho de 2021

 VÍCTOR BOTAS


EL HOMBRE DEL SACO

Cuando era niño
me enseñaban la luna y mira me
decían allá arriba hay un hombre
con un saco, ¿lo ves?
                                   Y era
mentira. Claro
que ya entonces me daba
perfecta cuenta
del assunto: la gente
mayor miente muchísimo
a los niños, los toma 
pot idiotas o -quién
sabe - a lo mejor es eso
precisamente lo que intentavolvrlos
(y con bastante éxito) cretinos
vitalicios; o sea,
de esos que nunca pierden
comba, ni palmoteo
indigno, si se trata 
de mejorar la nómina.
                                    Hoy, desde
esta nocturna e inquieta
ventanilla de un tren, Luna, te miro
y veo a Diana y veo
la esquiva media luna
de Ibn Hazm de Córdoba y aquella
(más poética aún) de la astrofísica y la 
bicorne luna antigua
del viejo Horacio y otra
que no contemplará ninguna noche
quien yo bien me sabia,
de mi mano. No quisiera seguir;
a ver si alguno piensa
que me las estoy dando
de erudito a estas horas, cuando tan 
sólo trato (qué facil
os los pongo) , oh lenguas
viperinas, de imitar
una vez más a Borges - gaudeamus
igitur - 
             También veo
por cierto (y ya termino)
al hombre aquel
del saco.


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O HOMEM DO SACO

Quando era criança
mostravam-me a lua e repara
diziam-me lá em cima há um homem
com um saco, vê-lo?
                                  E era
mentira. Claro
que já então me dava 
perfeita conta 
do assunto: a gente
adulta mente muitíssimo
às crianças, toma-as 
por idiotas ou - quem
sabe - é isso
precisamente o que intenta. torná-los
(e com bastante êxito) cretinos
vitalícios; ou seja,
de esses que nunca perdem
oportunidade, nem aplauso
indigno, se se trata 
de melhorar o soldo.
                                  Hoje, desde
esta nocturna e inquieta
janela de um comboio, lua, olho-te
e vejo Diana e vejo
a esquiva meia-lua
de Ibn Hazm de Córdova e aquela
(mais poética ainda) da astrofísica e a
bicorne lua antiga 
do velho Horácio e outra
que não contemplará em nenhuma noite
quem eu bem sabia,
pela minha mão. Não quereria continuar;
talvez alguém pense
que estou a fazer-me 
de erudito, a estas horas, quando
apenas trato (como 
vos facilito), ó línguas 
viperinas, de imitar
uma vez mais a Borges - gaudeamus 
igitur - .
              Também vejo,
por certo (e já termino),
aquele homem
do saco.

terça-feira, 6 de abril de 2021

 VÍCTOR BOTAS


GATO

Pavorosa inocencia la de este
que junto a mi dormita. Nada sabe
de su breve pasado y su futuro
incierto en todo, salvo en una cosa: 
también él morirá. Saca las uñas,
se pasea por casa, sigue atento
cuanto pueda moverse; y ahí termina 
su actividad de augur. (Tiene la panza 
repleta y no le pide correr riesgos
para poder vivir). De tarde en tarde,
cuando se pone algo melancólico,
traza curiosos signos que no siempre
consigue decifrar, Entonces, pobre,
para animarle un poco, ronroneo.


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GATO

Pavorosa inocência a deste
que junto de mim dormita. Nada sabe
do seu breve passado e do seu futuro
de todo incerto, salvo numa coisa:
também ele morrerá. Saca as unhas,
passeia-se pela casa, segue atento
quanto possa mover-se; e aí termina 
a sua actividade de áugure. (Tem a pança
repleta e não exige riscos
para poder viver). De tarde em tarde,
quando se põe algo melancólico,
traça curiosos signos que nem sempre 
consegue decifrar. Então, pobre,
para animá-lo um pouco, ronrono.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

VÍCTOR BOTAS


VERANO

El viento es largo
y tibio.
            Cualquier día
de estos
tus hijas se te irán
                              y tú,
tú seguirás aquí
como otras veces. 
                             Quieto,
ahí a la misma vuelta
de la esquina,
te espera ya el otoño con sus grises
ojos llenos de lluvia
y las manos cargadas de racimos
y de roja hojarasca
y de tardes brumosas entre cuarto
paredes,
igual que un diosecillo de los bosques
antigos de la Etruria
cuyos pies se agitaran impulsados
por una rara musica.
                                 Y tú,
tú seguirás aquí,
consumiendo ese tiempo que a ti mismo,
a su vez, te consume;
                                   colocando
palabras que no van
a ser leídas nunca
nunca,
porque no dicen nada
que no hayan repetido muchas voces
muertas
que los demás se saben de memoria.


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VERÃO

O vento é vasto
e tépido.
              Um dia
destes
as tuas filhas partirão
                                   e tu,
tu continuarás aqui
como de outas vezes.
                                  Quieto,
aí na mesma curva 
da esquina,
espera-te já o outono com os seus olhos
cinzentos cheios de chuva
e as mãos carregadas de cachos
e de folharada vermelha
e de tardes brumosas entre quatro
paredes,
i gual a um deuzinho dos bosques
antigos da Etrúria
cujos pés se agitaram impulsionados
por uma música rara.
                                   E tu,
tu continuarás aqui,
consumindo esse tempo que a ti mesmo,
por sua vez, te consome;
                                        dispondo
palavras que não vão
ser lidas nunca
nunca,
           porque não dizem nada
que não tenham repetido muitas vozes
mortas
que os outros sabem de memória.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

VÍCTOR BOTAS


PLAYA

El día se va pasando por tu cuerpo
su lengua luminosa.
                                 Si tratara
de ponerme a tu lado,   
                                    empezarían
las olas a ladrar
como perros famélicos.


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PRAIA

O dia vai passando pelo teu corpo
a sua língua húmida.
                                 Se conseguisse
pôr-me ao teu lado,
                                começariam
as ondas a ladrar
como cães famélicos.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

 VÍCTOR BOTAS


EL PADRE DE LAS NOCHES

El padre de las noches. El
que moja tu cara en el desierto y te refresca y pone
el emor en tus ojos. El
que sueñan los místicos. El único. El mesías
que clavan a una cruz
en medio de la turba
y de los tiempos. El
que blande el relámpago y se sienta
en un trono de nubes y, de cuando
en cuando, desciende hasta las islas de doradas
arenas y seduce
a mujeres vulgares de esas que andan
por ahí (antes tuvo
que derrocar a todas 
las olímpicas diosas
matriarcales). El 
temible. El insomne. El nunca
visto. Ese
invento feliz de los antiguos
poetas, que utilizan
los ricos
y hacen más pequeñito los teólogos.


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O PAI DAS NOITES


O pai das noites. O
que molha a tua cara no deserto e te refresca e põe
o amor nos teus olhos. O
que sonham os místicos. O único. O messias
que pregam numa cruz
no meio da turba
e dos tempos. O 
que brande o relâmpago e se senta
num trono de nuvens e, de quando
em quando, desce até às ilhas de areias
douradas e seduz
mulheres vulgares dessas que andam
por aí (antes teve
de derrubar a todas
as olímpicas deusas
matriarcais). O
temível. O insone. O nunca
visto. Essa
invenção feliz dos antigos
poetas, que utilizam
os ricos
e fazem mais pequenino os teólogos.



  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...