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terça-feira, 25 de abril de 2023

 DURS GRÜNBEIN


CINZAS PARA O PEQUENO-ALMOÇO

Treze Fantasias

E depois chega a parte divertida de morrer. Fortalecido
Para o dia de negócios, de quebra de contratos,
Afastas-te decididamente do espelho.
                                                             A cara com que vives,
Bem barbeada, que escarnece a lamúria do teu interior,
Está ao serviço da Administração que conduz as negociações.
Algures por trás da tua clavícula e da cintilação dos teus óculos
- A sua palidez fantasmática não te terá, por vezes, comovido?
Conhecem-se mutuamente. Sem uma bebida, é claro,
Tendes o cuidado de não estar próximos (e mesmo com,
Tentar evitá-los). Porque cara a cara com os rabiscos nas paredes,
Observando o escorrimento do amarelo na porcelana,
É outra vez o Outro, aquele cuja mente,
No momento de esvaziar, está invejavelmente preenchida com os        Clássicos.
"Todas as coisa fluem?" "Pára de escavar nos intestinos."
"Vive com prudência." "Conhce-te a ti mesmo."
E, menos Clássico, lembra-te de, a seguir, puxar o autoclismo.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

 DURS GRÜNBEIN


CLUBE DE ROMA

Para Arno Windman

Cartago arrasada atrás deles, e mesmo à frente
Os brancos Alpes ofuscantes, túmulos de elefantes -
Não era o romano um sobrevivente de quem o tempo
Fugia para oriente?

Nos subterrâneos havia catacumbas onde fanáticos residiam
Em túneis gotejantes, alimentando os fogos do inferno para ferver
As suas papas diárias; medo dos bárbaros ainda
Operava como um feitiço.

Jarros e escadarias resplandeciam ainda mais
Em cada fenda no mármore. A entrada rangia
Como colchões nos bordéis. Erguiam-se inimigos
Como cogumelos nas florestas.

Sombras lunares alongam-se para cobrir a extensão exuberante
Dos jardins. Varrascos eram engordados
Nos sarcófagos. O fornecimento de água misturada com sangue
Das latrinas públicas.

Só uns poucos admiráveis anciãos prosseguiam
Comprando alegremente as herdades antigas dos vizinhos. A               especialidade deles
Era a alternância inconsútil entre riso e lágrimas; o refrão
Depois de nós etecetra."

domingo, 4 de dezembro de 2022

 DURS GRÜNBEIN


LAMENTO DE UM LEGIONÁRIO DA CAMPANHA DE GERMANICUS EM DIRECÇÃO AO RIO ELBA

Não há nada pior que esta retirada mortífera
a seguir a uma batalha, excepto a perspectiva da mesma retirada
semanas antes...
Negra somo a morte a expressão na cara do general,
as tropas trôpegas, exaustas.
Atrás dos escudos estão os restos dos ilesos,
com chagas nos pés, encharcados 
de suor. A chuva incessante 
amoleceu os trilhos, os bosques são uma longa emboscada,
e os bárbaros em matilhas,os lobos,
abocanham partes da nossa retaguarda.
Quem não se afogou no Mar do Norte, longe de casa,
afunda-se nos pântanos, igualmente longe da cidade eterna.
De noite, atoleiros detêm a legião inteira,
de dia são caminhos alagados, podres, escadas deterioradas,
em cujos degraus se tropeça para a morte,
com dedos esmagados. Esta terra apenas pontua o nevoeiro
como um arquipélago no mar... Germania Magna,
onde as florestas ainda são íntegras e densas,
sem árvores aprumadas no mar, cortadas para um banco de remos -
ou uma carcaça ardente. A futilidade de combater
em províncias tão vastas como continentes, e territórios
que só podem ser defendidos por mais guerras.
Nas profundezas da floresta não há triunfo nem ordem latina.
E quando, velho de muitos anos, finalmente chegas a casa,
será para ver o germano instalado sob o teu lintel,
e acenando para a descendência alourada da tua mulher.

domingo, 23 de outubro de 2022

 DURS GRÜNBEIN

NAS PROVÍNCIAS III
                                          (BOÉMIA)

O silêncio ao redor de uma toupeira morta,
No limite de um campo de trigo, é enganador.
Por baixo há um encontro de escaravelhos, armados
E de uniforme negro. Por cima gira um falcão
Com asas eriçadas, até que muda de rumo.
Como sapadores obstinados, formigas cavam
Uma trincheira ao longo da espinha. No interior
Os arames brilham, larvas nervosas
Na fita do telégrafo. Desde a guarnição do estômago
Comerciantes em casacos coloridos (ou serão repórteres)
Transportam notícias para toda a parte: cadáver, cadáver!
Apenas um gafanhoto, a um pulo e uma fuga de distância
Pressenye as nuvens e banha-se ao sol no silêncio
De um filósofo estóico.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

 DURS GRÜNBEIN

NAS PROVÍNCIAS II

                                           (EM GOTLAND)


À distância era tudo o que havia para ver,
Uma paisagem ondulante reunida no olho de um bútio,
As colinas desnudas, uma vereda e ao lado
Uma pata de coelho no mato, agitada pelo vento,
Um tornozelo bem roído , que não pesava mais
Na mão que um pássaro recém-nascido,
Ainda a mover-se, ainda quente, que saltava 
Da frigideira, ensanguentado como a presa
Da cinzenta ave de rapina, na pua da sorveira brava -
Um pequeno pedaço de osso, acenando com a ondulação do pêlo.

Era tudo o que sobrava do coelho
Depois que a sombra de uma asa lhe atravessou o caminho,
E o zigue-zague da sua corrida foi cortado por uma garra, a               respiração 
Ofegante por um bico certeiro. Como deve
Ter sido excruciante a sua morte, desoladamente disseecada
Na terra invernal, as últimas convulsões.
O único sobrevivente da matança empoleirado nos ramos;
Como testemunha subornada não se lembrava de nada.
A erva, que de novo se ergue, assegura
Que isto era tudo o que havia para ver, a pata deste coelho.

domingo, 24 de julho de 2022

 DURS GRÜNBEIN

E tu? Esqueceste as tuas origens?
Começas a entender quanto dano foi causado
Por tantos anos de humilhação e farsa?
Que país, em que uma palavra sobre um tópico
Provoca mais que o indizível
Ficar por dizer!
                                       Que voz
É engolida durante a tentativa de mastigarem as tuas bugigangas?
Para atingir de imediato o que está a acontecer, e o que não 
Pode ser sofisticação.
                                    Nesta instância, foi letargia
Que te levou a prestar atenção a essa morte cerebral por exaustão.
O que é a vida, afinal? Tudo substituível
Onde a hipnose reina, o meu dever custe o que custar.
Não te iludas, no paraíso dos cães
Mijar num tronco de árvore é a substância dos sonhos.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

 DURS GRÜNBEIN

5.

Desde a zoeira atulhada dos primeiros anos,
Conduzido para o gelo negro da objectividade tímida,
Ficas rigído no zero com um excesso de significantes.
O estrondo de promessas vazias,
Aspirando palavras, gestos, expressões.
Os sonhos aparatosos embranquecem na lavandaria
Com barrela química, estampados com um disparate ou outro.
A Resistência do fim do século refugia-se
Ostensivamente no cérebro.
A única coisa que te aguenta, pacóvio, é a risada
Devida a um animal preso nos seus afazeres.
É a única coisa que poderias tomar a sério.
Se me perguntam em que pensei dia e noite
Tenho por vezes a presença de espírito para responder: "Nada."

sexta-feira, 15 de abril de 2022

DURS GRÜNBEIN


DE LIÇÃO DA BASE DO CRÂNEO

3.

... uma data de anos de serviço com vista da cerca de arame farpado,
Caminhando para trás e para a frente, para cima e para baixo, só um        cão conseguia suportar,
Cativo da sua trela, treinado para se comportar desde a infância.
Mesmo a dormir a minúscula fenda no arame
Encolhe para o tamanho de um buraco de bala atrás da sua orelha.
Um estalido dos beiços prova que até os cães têm sonhos.
O que causa o derrame dos seus fluidos é a ideia
De que linhas paralelas se encontram algures.
Onde Pavlov se assume pelo pelo resíduo do espírito
(O instinto mobilizado, uma bússola em zigue-zague)
A dialéctica é apenas... lealdade estúpida;
Um ouvido para a emoção na voz do seu dono,
O momento de claridade no relâmpago antes da morte,
E o fim do julgamento.
                                      "Como um cão."

sábado, 12 de março de 2022

 
DURS GRÜNBEIN

LIÇÃO DA BASE DO CRÂNEO

2.
"Afasta-te da luz", dizes , falando com o demónio
No espelho que ficou cego a olhar,
Oferecendo-te o olho alegre durante todos estes anos.
A sua mirada férrea punciona a tua cara
Como um espião dos espíritos do raio X.
Quando voltas as costas, o teu medo de
Ficar rígido roda contigo.
Até que algo é certo...
                                     detrás dos esgares.
Mesmo na tua imagem fantasma, a tomografia do cérebro
Colhe-te. Mesmo se parcialmente.
Um estranho entre estranhos, distingues-te
Como eles se distinguem em ti.
                                                    Com o emparedado osso frontal
Qualquer refúgio fica atrás de ti. Será demasiado tarde
Na altura em que a autópsia derrama a sua porção de luz?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

 DURS GRÜNBEIN

PERPETUUM MOBILE

Fim da idade do gelo... (um filme?) : Tchuang-Tse
       encontra Ezra Pound no outro mundo
            e benze-o com o sinal da cruz.

Os deuses da fortuna irónicos sorriem, os seres humanos
       pestanejam preguiçosamente ao sol.
            Já ninguém sonha o sonho

de uma idade em que as máquinas       
       com cabeça ocupam o lugar
            entre flora e fauna.
            ..............................

Num piscar de olhos foge-se
       do ruído da cidade como a flecha do tempo
            através do espelho da ficção científica

em direcção ao silêncio galáctico dos 
                                                poetas do Tao.

domingo, 10 de outubro de 2021

 DURS GRÜNBEIN


POEMA MONOLÓGICO #2


De tempos em tempos
tenho estes dias quando

me apetece de novo
embarcar num poema

de um tipo que ainda não é
de todo popular. Quero dizer

um sem quaisquer refi-
namentos metafísicos ou

o tipo de coisa que recentemente passa
por isso... esse género de

genuflexão cínica
perante o pomposo progresso da história

ou de pé, de mãos na cintura, ofegante
na dura maratona Este-Oeste
como se fosse um dos

danados de Alighieri
com uma sutura. Poemas

alguém me disse há dias

que apenas o interessavam se
estivessem cheios de surpresas

escritas nessas
alturas ínvias quando

algo ainda informe
um devaneio uma única

linha começa algures e

te desfaz.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

 DURS GRÜNBEIN


SEM TÍTULO

Um poema novo começou
nesta manhã enevoada
do aniversário do assassinato
de García Lorca. Crianças
que comem gelados e velhos
com caras estranhamente
inchadas passaram por nós no
no caminho para a Conservatória,

onde o nosso navio de cruzeiro
foi lançado sem nenhuma
das habituais saudações e cumprimentos
sem a bênção excepto por toda essa
calma tripulada pelos espíritos
malignos das duas famílias.

Aprendemos a transpor
o silêncio quase sem esforço
durante o fim da tarde como um tenso
tendão: não conseguiram perceber
como nos sentíamos
enquanto os alvos eram apagados.
Duas pequenas nuvens 
afastavam-se para ocidente
a cidade tingia os céus
de cinzento e
eu disse que tinha gostado
de vaguear sobre os montes 
de lixo contigo. Mas tu
calçavas esses sapatos
estapafúrdios: amarelo canário e
estávamos cheios de pressa quando
um chuvisco particularmente frio
começou a cair.

domingo, 27 de junho de 2021

 DURS GRÜNBEIN


BANHEIRAS

Que objectos adoráveis são as banheiras, esmaltadas
                  e lustrosas e completamente
                      inaproximáveis com as suas

curvas heróicas de ferro forjado
                 velhas senhoras ainda vivaças
                     depois da menopausa.

Móveis típicos (quando é
                que alguma delas se ergueu
                    e partiu) e contudo

continuamente enchidas, toda a sujidade
                dissolvida e enxaguada
                   para a rede de esgoto

é empurrada para esse estreito
               buraco de saída na base. Verdadeiras má-
                   quinas de suicídio, nas suas      

pernas atarracadas, quentes camas de água
              com o espaço suficiente para apenas
                  um único par copulador

em tantos apartamentos, algo como
              um oásis de bolhas
                                              nostálgicas.
         

quarta-feira, 26 de maio de 2021

 DURS GRÜNBEIN (Dresden, Alemanha, 1962)


Estas versões de poemas de Durs Grünbein são feitas a partir do inglês - o alemão não consta da lista de línguas que me são acessíveis -, pelo que omito o texto original.
Os livros de onde são retiradas: Ashes for Breakfast, edição bilingue, tradução de Michael Hofmann; Mortal Diamond, tradução de Michael Eskin e Porcelain, tradução de Karen Leeder - estes dois omitem o texto original.


TRILCE, CÉSAR

 Havia dias que era tudo o que conseguíamos
             dizer, "Pode nunca acontecer" ou
                           "Algo há-de aparecer...", entediados em

bibliotecas sobre-aquecidas onde, em momentos
            antes de ficarem completamente vidrados
                         os nossos olhares iam à deriva
                                     como anéis de fumo
                         sob os altos painéis do tecto
                                     de salas de leitura alexandrinas.
                                     A maioria

          queria partir (para Nova Iorque
                       ou outro local): eramos estudantes

com vozes de cana rachada
         rodando entusiasticamente
                      projectos falhados nas nossas cabeças, e alguns
                 
                                   na nossa anarquia melancólica
                                            foram escravizados por novos totens, ídolos
                     de revoluções acabadas e o
corpo repetidamente acupuncturado da magia.
       Se lá estivesse o dia inteiro
                    (em particular, no inverno)
                                  era bastante barato, só,
                                           entre os curtos intervalos
    
com as nossas preocupações de posta restante, devedores
      de renda, sorvendo o silêncio
                 dos livros, como gás de nervos
de todas essas bestas suaves (. . .) e, por vezes, 
      mesmo no clima invariável
                 de estufa havia uma
                         surpresa algo vívida
                                        (Trilce, César!)

recordo uma específica
     tarde de verão
              o crepúsculo rumorejante
     estava na sanita a evacuar
              quando ouvi respiração
desde outro cubículo e um batimento acelerado
     e fiquei alarmado como um enxame 
                        inteiro de varejeiras com o
     
acto amoroso de dois homens esforçando-se silenciosa 
                                    e mutuamente
             suando e e alheados como estranhas
             criaturas do género centauro numa

                                   fotografia sobre-exposta.
             Difícil de esquecer
                                   o alívio com que
    de cabelo recentemente penteado,
caras vermelhas e complexões cremosas
eles passaram por mim separadamente e apenas
    uma piscadela (uma piscadela
            que me atravessou) me assegurou:
    tinham travado conhecimento.
             
                   
                    



  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...