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terça-feira, 7 de março de 2023

 SZILÁRD BORBÉLY


ASSUNTOS FINAIS: TEMPO SEM FIM

Através da terra de Inverno os vapores sobem,
o fumo delgado da fornalha de gás da casa.
O cemitério Ortodoxo na colina
ofuscante, à luz do sol, como pedra,

incandescente, enquanto no fogo
o minério derretido fervilha no caldeirão.
À tarde começou a chover,
enquanto uns poucos anjos descansavam

à porta da tasca, vacilando na lama,
por bebida grátis, ou rameiras, para saciar o seu desejo-
Entretanto, lá longe, nos arredores distantes
o próprio Tempo tinha desaparecido de vez,

porque o dia do Juízo Final tinha chegado,
em que as hordas de Cristãos tropecavam uns nos outros.
E os pagãos estavam sentados, beberricando a sua Cola,
na taberna conhecida como "Tempo sem Fim."




sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

 SZILÁRD BORBÉLY


SEQUÊNCIAS DE NATAL

(3)

É já noite em Belém,
os guardadores de porcos silenciosos.
Numa taberna decadente
tocam músicos ciganos.

Quando os três reis chegam,
roseiras vermelhas como sangue.
Três lírios murchos
batem à porta do estábulo.

Enquanto pelo fundo desce
um pouco de lua cheia.
Brilha por mais dois anos
a faca na mesa da taberna.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

SZILÁRD BORBÉLY


AETERNITAS (3)

O Eterno
é como o machado 
com que o assassino acerta
na cabeça de alguém.

O Eterno é o acto  
de pilhagem pelo qual
em pânico o sótão
está agora vazio.

O Eterno é escarlate
como sangue vivo. Acima dele
ergue-se um vapor.
Depois também desaparece.

O Eterno é como
o coração daquele
que os ladrões assassinaram
sem hesitação.

O Eterno 
é como assassinío,
destrói  a Esfinge,
a face dos Mortos.

O Eterno não tem falhas,
como o segredo
indecifrável
do Crime Perfeito.

O Eterno é como
o olho
daquele que mataram:
pavor no seu olhar.

O Eterno chora
como os muitos Arcanjos
que serviram Jesus
na sua Multitude.

O Eterno é como
a Madrugada para a qual
o Anjo da Guarda
já não irá acordar.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

 SZILÁRD BORBÉLY

ASSUNTOS FINAIS : INFERNO

Sentou-se na borda da cama e esperou por Ele -
desde há vários anos. Ele disse: tento esquecer
em vão. Esse dia foi como todos 
os outros, como uma pele sufocante -

repeti isto diariamente. E não podia
sequer morrer, também não era solução. Olhou para a parede.
Já não havia nenhuma luz nos seus olhos.
Apenas uns poucos pensamentos irrelevantes atravessavam

o seu cérebro. Um sorriso hesitante. "Onde estou?" -
perguntou, mas não esperava resposta.
Como com todas as outras perguntas, mal
acreditava que podesse haver respostas. Percebeu

que para aquele que tinha caído
já não há razão para ascender. "Talvez
noutravida...", dizia, por vezes. "Em vão". Pois
vivo aqui entre assassinos, que é a forma de O trair.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

SZILÁRD BORBÉLY 

AETERNITAS
(I)

O Eterno é
frio, como o cinzel
usado para esculpir
a face do nosso Jesus.

O Eterno está submerso,
como o seixo,
quando se contempla o rio e se vê
a água novamente tranquila.

O Eterno evade-se,
como a mosca 
que se tenta agarrar em vão -
o inferno já.

O Eterno é profundo,
como essa atenção
na qual reside
a misericórdia do nosso Cristo.

O Eterno prossegue,
como o relógio,
embora talvez falhe
- por vezes . a madrugada.

O Eterno é aguçado
como a lâmina da faca
que a Morte enterra
no teu coração.

O Eterno é,
como a própria vida, efémero.
Chega ao fim
enquanto se fala.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

 SZILÁRD BORBÉLY

(Fehérgyarmat - Hungria - 1963 -2014)

Estas versões foram feitas a partir de traduções inglesas, pelo que se omitem os originais.


ASSUNTOS FINAIS : MORTE

Não havia mais do que devia haver,
os resíduos habituais dos dias mais recentes
amontoados pela brisa nos cantos do pátio,
até que Fány, a mulher a dias, os varreu

e para o andar do rés-do-chão exclamou
"Bom dia!" e "Que há hoje para o almoço?"
O Sol brilhou. Pombas pousaram nos beirais
e cicatrizes no cimento foram observadas,

cada uma por si, eternamente. Era Primavera.
As portadas estavam dobradas, as persianas corridas.
A janela aberta apenas uma ranhura, o que era bizarro,
mas talvez nem assim tanto. . E depois todos

procuravam a causa do estranho cheiro. Fez-se
noite e depois manhã. O terceiro dia. Ninguém
pensou no casal de velhos no andar do rés-do-chão.
Os detectives estavam entediados. Nada já consegue

perturbá-los. Estavam bêbedos quando chegaram e
emborcaram ainda mais na loja de bebidas próxima. Os cadaveres
foram rapidamente sepultados, porque era Páscoa.. O caso
foi encerrado. E ninguém cantou o Dies Irae.

  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...