quarta-feira, 12 de abril de 2023

 AUGUST  KLEINZAHLER


FOLLAIN'S PARIS

I can remember first walking to the city
accompanied by rumors  buzzing in the hedgerows.
I made my way past big red villas,
a perfect decor for both the criminal and his victim.

Small children played under carts
while babies in the chestnut's shadows
slept and wet through the afternoon.
There is an abundant peace to be found here

in the blue, then gray and mauve eyes
of the voluptuous women cutting bread into an embossed tureen.

The path to La Courtille has been dug up by pickaxes
but the sky hasn't changed,
tinted by smoke rising from café-restaurants
and the apartments of the rich

with their Belle Epoque furniture,
popular once more what this latest crop of indolents
always chattering about foreign travel
and smoking Turkish cigarettes.
                                                    As for the foreign smoke,
it raises into the same old blue sky of the Middle Ages
the jongleurs and dream-brokers tried to climb.

 Literature and life are warming to each other.
At the Botanical Gardens a stiff breeze
arrives with early evening, shaking
the small signs with Latin names on them

that hang half-hidden amid clusters of plants.
What a beautiful night for a philosophical debate!  

A man follows the alleyways
back to his flat with its persistent odor
that somehow has survived all the women perfumed
with heliotrope. He inspects the place

until he comes upon his shaving mirror,
spotted with coagulated drops of blood.
He takes off his sweaty shirt
and dust settles in the tufts of his armpits.

Old images possess him
as he lounges on his bed with its peony-colored coverlet
turned down. Images of Flanders and Artois,
the country girl smiling at the miner

who fusses with his Davy lamp.
Images of the Midi and burning walls.

He hasn't forgotten his copies of  Salambô,
Les Ordelletes and Poèmes saturniens

stacked on the shelves.
But for now he is preoccupied

with a hole in his stock, and besides
the books are looking worn.

Later on you may encounter him
walking the pavement of the quai de l'Oise,
watching wrinkles form on the water's surface,
or across the street

moving against a backdrop of brown doors.
He takes a elbow in the ribs 
at a busy intersection, and when the north wind
has at him as well

he yearns for spinach and quail fat,
the dark juices of roasts and splendid silverware.

He passes a dilapidated bar with a sign
of a curiously tempered charm 
that cost the painter not a little care.
The museum nearby is closed

with its coughs and slow steps,
its canoes, its Aztec mummies and once-poisoned arrows.

While at the Emporium
the feverish shoplifter dips her ringed fingers

into the lingerie.

(with Deborah Treisman)


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O PARIS DE FOLLAIN

Lembro-me de caminhar pela primeira vez para a cidade
acompanhado de rumores zumbindo nas sebes.
Passei por grandes mansões vermelhas.
um cenário perfeito para o criminoso e a sua vítima.

Crianças pequenas brincavam debaixo de carrinhos,
enquanto bebés à sombra dos castanheiros
dormiam e urinavam durante a tarde.
Há uma paz abundante a econtrar-se aqui 

nos olhos azuis, logo cinzentos e malva
das mulheres vuluptuosas a cortar pão para terrinas embutidas.

O caminho para La Courtille foi escavado com picaretas,
mas o céu não mudou,
tingido por fumos saídos dos cafés-restaurante
e dos apartamentos dos ricos

com uma mobília Belle Epoque,
popular, de novo, com esta colheita mais recente de indolentes
sempre a palrear sobre viajens ao estrangeiro
e a fumar cigarros turcos.
                                         Quanto ao fumo da fábrica,
sobe para o mesmo céu azul da Idade Média
a que os malabaristas e os mediadores de sonhos tentam trepar.

A liretatura e a vida confortam-se mutuamente.
Nos Jardins Botânicos uma brisa rigída
chega ao fim da tarde, sacudindo 
as pequenas placas com nomes em latim,

penduradas meio escondidas entre conjuntos de plantas.
Que bela noite para um debate filosófico!

Um homem segue as veredas
de regresso ao seu apartamento com o odor persistente,
que acidentalmente sobreviveu a todas as mulheres perfumadas
com heliotrópio. Inspecciona o local,

até que chega ao seu espelho de barbear,
manchado por gotas de sangue coaguladas.
Despe a camisa suada
e o pó assenta nos pelos dos sovacos.

Velhas imagens possuem-no
quando se estende na cama com a sua cobertura cor de peónia
puxada para os pés. Imagens de Flandres e de Artois,
a camponesa que sorri para o mineiro

que a inquieta com a sua lâmpada de Davy.
Imagens do Midi e de paredes ardentes.

Não esquecem os seus exemplares de Salambô,
Les Odelletes Poèmes saturniens,

arrumados nas estantes.
Mas por agora está preocupado
com um buraco na meia e, além disso,
os livros parecem gastos.

Mais tarde poder-se-á encontrá-lo
caminhando no pavimento do quai de l'Oise,
observando as rugas que se formam na superfície da água,
ou do outro lado da rua,

a deslocarem-se contra um fundo de portas castanhas.
Apanha com um cotovelo nas costelas
num cruzamento concorrido e quando o vento norte
também o assalta

anseia por espinafres e gordura de codorniz,
os molhos escuros de assados e esplêndido talher de prata.

Passa por um bar delapidado com uma tabuleta
de um encanto curiosamente cuidad
que custou ao pintor não pouca preocupação.
O museu vizinho está fechado

com as suas tosses e degraus lentos,
as suas canoas, as múmias aztecas e stas antes venenosas.

Entrando no Emporium
a febril ladra de lojas mergulha os dedos com anéis

na lingerie.

(com Deborah Treisman)

terça-feira, 4 de abril de 2023

 ALEKSANDAR RISTOVIC


VIAGEM FUTURO-PASSADO

A mtnha avó e eu viajamos para um mosteiro,
numa carruagem rústica puxada por um cavalo branco.
A avó ainda é uma rapariga e eu tenho 59 anos.

No colo, a avó tem um cesto de lírios silvestres
e eu tenho uma moeda no bolso com a qual todos
  os carrascos de Cristo foram subornados.
(Morrerei em breve, mas esse não é o assunto do poema.)

A viagem conduz-nos de taberna em taberna e em breve
estamos tão toldados que mal conseguimos ver-nos um ao outro.
O cocheiro espia-nos e benze-se às escondidas.

No caminho para o nosso destino damos boleia
a um mendigo que é débil mental.
Toca uma harmónica e nada pede em troca.

A minha avó e eu viajamos para um mosteiro
entre árvores verdes e o ar cheirando aos lírios dela
e à chuva que bate nas nossas caras.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

D. J. ENRIGHT


MIXED PROVERBS 

Outside the restaurant, garish but inside delicious no doubt,
A most famous of Guangzhou, if not of Canton as once,
Excited citizens are stringing up garlands or firecrackers.
What they are arguing about is beyond the visitor's knowing -
When he offers is lighter they absently wave it aside.
It must be a question of how best to arrange them, or whether
Such acts are utterly licit. The people fear the officials,
Thinks the foreign devil, who has heard of this local saying.
For what to tell what the party line currently is on fireworks,
Their potency and periodicity, their season and station?
He remembers is childhood, and a miserable sprinkling of them,
They didn't have money to burn, and the sense of dull guilt
When a rocket winked out or a Catherine wheel stopped dead.
Come on, he wants to cry, let's have them, a good half-hour
Of continuous din, driving out evil spirits (should any remain),
And damn the expense! But the bickering goes on, matches are 
Struck, then pinched out, fingers point upwards and downwards.

His official hosts, at the door, solicit him nervously, please to
Enter, the feast is afoot. The officials fear the foreign devils.
What the eye never saw, the heart never grieves over; he can't
Pretend he ever yearned for stewed turtle or sea cucumber.
But he thinks of the engine his father once bought for him,
And even a tender. Ang somehow a section of rail was wanting,
The circle incomplete: when they forced the pieces together
The engine keeled over. The open floor was the only place for it,
Unauthentic and pitiful, as it banged into chair-legs and feet.
No matter, he's off to Shanghai tomorrow. It's a big country,
It can't be short of railway track. Sometimes the years supply
Our childhood lacks. All things come to them that wait.
But he must make sure to seem small and humble, and kowtow
To the woman who keeps the key to the WC.
The foreign devils fear the people. Now the circle's perfect.


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PROVÉRBIOS MISTURADOS

Fora do restaurante, vistoso, mas no interior, sem dúvida, delicioso,
Um dos mais famosos de Guangzhou, já não de Cantão, como antes,
Cidadãos exaltados enfileiram grinaldas de petardos.
Acerca do que discutem está para além do conhecimento  do visitante -
Quando oferece o seu isqueiro eles, distraidamente, recusam.
Pode ser um problema de como melhor dispo-los, ou se
Tais actos são inteiramente ilícitos. O povo teme as autoridades,
Pensa o demónio estrangeiro, que ouviu este dito local.
Pois como saber qual é a linha actual do partido sobre petardos,
A sua potência e perediocidade, o seu calendário e disposição?
Recorda a sua infância e um miserável chuvisco deled,
Não tinham dinheiro para queimar e o sentimento de culpa abafado
Quando um foguete tremeluzia ou um fogo de artifício se apagava.
Vá lá, deseja gritar, vamos rebentá-los, uma boa meia-hora,
De estrépito contínuo, afastando os maus espíritos (se algum ainda      sobrevive)
E que se lixe a despesa! Mas as discussões prosseguem, são acesos
Fósforos, logo apagados, dedos apontam para cima e para baixo.

Os seus hospedeiros oficiais, à porta, solicitam, nervosamente que        entre,
Por favor a festa está em marcha. As autoridades temem os diabos        estrangeiros.
O que os olhos não viram o coração nunca sofreu; ele não pode
Fingir que nunca desejou tartaruga estufada ou pepino-do-mar.
Mas lembra a locomotiva que, uma vez o pai lhe comprou
E até um tênder. E, por acaso, uma parte dos carris faltava,
O círculo incompleto: quando forçaram a junção das peças
A locomotiva descarrilou. O comprimento do soalho era o único          sítio propício,
Inautêntico e lamentável, quando batia nas  pernas da cadeira e nos      pés.
Pouco importa, parte amanhã para Shangai. É um país enorme,
Não é escasso em carris de comboios. Por vezes, os anos fornecem
O que faltava na infância. Tudo chega aos que esperam.
Mas ele deve certificar-se que parece pequeno e humilde e fazer          vénia
À mulher que guarda a chave para o WC.
Os diabos estrangeiros temem o povo. Agora completa-se o círculo.

terça-feira, 28 de março de 2023

 MIROSLAV HOLUB


O PASTOR DE NUVENS DE HANS ARP

Nascido por cesariana
(enquanto outros foram atirados ao
mundo com a água do banho), excluído de 
antologias que parecem
fornos para bolos de Natal,


com fundos oculares poupados
a lugrube diabetes poética,

imagina um unicórnio nos prados
enxugados por gelo inesperado
para anestesia local,

e observa como igrejas
extravasam para fora das cidades,
uma a seguir à outra,
e vagueiam por campos da Jutlândia,
arrebanhadas como ovelhas,
de cabeças juntas,

como os autocarros saem das cidades
em rebanhos vermelhos
e se enterram como
escaravelhos funerários, zumbidores
em montes de toupeira de inverno,

observa como traficantes fogem das cidades,
como lemingues dirigindo-se a um mar distante,
e repara que tudo o que sobra das cidades
é um muro com desenhos de criança, a lápis,

e uma grande, elevada
parábola de alumínio,
brilhando ao sol,
como espada de faraó,embora
com um sino na ponta,
e subindo para um céu alcochoado
com a seda de sondas cósmicas

e
(enquanto outros fazem adubo
de poesia para cultivar malmequeres
e couve chinesa) ele, inadvertidamente
planta uma linha fina
e terna para Hans Arp,

ele sorri
porque conhece a próxima
desintegração de cidades
e o nascimento de uma nova geometria.

sábado, 25 de março de 2023

LUIS ALBERTO DE CUENCA


 PLEGARIA (I)

Virgen del Carmen, tú, que ejerces de patrona
de la marinería, sálvame del naufragio
de este amor, que amenaza terminar ahogándome.
Sé benévola, diosa del Carmelo, aunque solo
sea por el poema que te escribí hace mucho,
cuando el mundo era joven, hilando alejandrinos
que honraran tu grandeza. El amor no era entonces
este mar iracundo y terrible de ahora,
sino un estanque tibio donde darse un buen baño,
un oasis de luz en medio de la niebla.


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SÚPLICA (I)

Virgem do Carmen, tu, que és padroeira 
da marinha, salva-me do naufrágio
deste amor, que ameaça acabar afogando-me.
Sê benévola, deusa do Carmelo, ainda que apenas
seja por este poema, que há muito escrevi,
quando o mundo era jovem, tecendo alexandrinos
que honraram a tua grandeza. O amor não era então
este mar iracundo e terrível de agora,
mas um tanque morno onde tomar um bom banho,
um oásis de luz no meio da névoa.

segunda-feira, 20 de março de 2023

 JON JUARISTI


AQUA MUNDA

Hoy, cuando te destruye
El mismo ruiseñor de piedra y humo
Que consumió su gracia irrepetible,
Te perguntas si, acaso,
De haberlo pretendido,
Habrías conseguido
Robársela unos años a la muerte.

Estúpida cuestión. Olvida y vive en paz
Lo poco que te queda,
Pues no eres ya aquel necio veinteañero
Que amaba amar y, antes de las resacas,
Se creía, el cabrón, omnipotente.

Y agradece a la edad
Que te obligue a advertir el sinsentido
Del lamentable asunto
Que devastó tu juventud. Enfrente
Sólo tienes la noche y el vacío
Y el viento sobre lóbregas colinas. 


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AQUA MUNDA

Hoje, quando te destrói
O mesmo rouxinol de pedra e fumo
Que consumiu a sua graça irrepetível,
Perguntas-te se, por acaso,
De tê-lo pretendido
Terias conseguido
Roubar uns anos à morte.

Estúpida questão. Olvida e vive em paz 
O pouco que te resta.
Pois já não és aquele néscio de vinte anos
Que amva amar e, antes das ressacas,
Cria.se, o cabrão, omnipotente.

E agradece à idade
Que te obrigue a perceber o sem-sentido
Do lamentável assunto
Que devastou a tua juventude. Em frente
Só tens a noite e o vazio
E o vento sobre lôbregas colinas.

quinta-feira, 16 de março de 2023

 J. V. CUNNINGHAM

POEMS AND EPIGRAMS (1960-1970)


[7]

ON A LINE FROM BODENHAM'S "BELVEDERE"

"Experience is the mistress of old age:"
Kept at my cost, as old as I am, bitch
And parasite, I screw her in my rage
And would kill her, but which of us is which?


[9]

I grow old, but I know that Science some
Few years from now will find millennium:
To be immortal, with an annual raise,
And practice continence on New Year's Days.


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[7] SOBRE UM VERSO DE "BELVEDERE DE BODENNHAM

"Experiência é a amante da velhice:"
Mantida à minha custa, velha como eu, cadela
E parasita, fornico-a na minha raiva
E matá-la-ia. mas quem de nós é quem?


[9]
Envelheço, mas sei que a Ciência daqui
A poucos anos encontrará o milénio:
Ser imortal, com um acrescento anual
E praticar continência nos Dias de Ano Novo

  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...