segunda-feira, 30 de novembro de 2020

 ALEKSANDAR RISTOVIC  (Casar, Jugoslávia - Sérvia - 1933-1994)


As versões que se seguem, foram realizadas a partir de traduções em inglês, da responsabilidade do poeta americano Charles Simic; por tal motivo o texto original dos poemas é omitido.


    SEM TÍTULO

O tempo dos bobos está a chegar,
tempo de tenda de feira
e desse com uma cara de palhaço,
      a maldizer Deus.

Tempo de penas de pavão,
a pena que desliza da direita para a esquerda
sobre o papel de pernas para o ar.

Tempo em que não levantarás o dedo mindinho
sem mergulhar em algo
considerado indecente.

O tempo dos bobos está a chegar,
tempo do professor ignorante
e do livro impossível de abrir
por qualquer lombada. 

domingo, 29 de novembro de 2020

 FERNANDO ORTIZ


             INTERIOR

                                  (Joaquín Sáenz)

Quien sabe si aquella luz viene de fuera o de adentro
de los alzados visillios. Ni a qu´lado del espejo
surge esa mano de niebla que va dibujando un sueño
de relojes y almanaques, de puertas y verdinegros
salones acristalados que son del agua el reflejo.
Agua de un rio muy hondo que viene desde muy lejos
- Aquí las cosas nos miran con grandes ojos secretos -.

Con parsimonia el reloj suena en el patio en silencio.


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          INTERIOR

                               (Joaquín Sáez)

Quem sabe se aquela luz vem de fora ou de dentro
das cortinas subidas. Nem de que lado do espelho
surge essa mão de névoa que vai desenhando um sonho
de relógios, de almanaques, de portas e verde-negros
salões envidraçados que são da água o reflexo.
Água de um rio muito fundo que vem desde muito longe.
- Aqui as coisas observam-nos com grandes olhos secretos -.

Com parcimónia o relógio soa no pátio em silêncio.


                                   

sábado, 28 de novembro de 2020

 D. J. ENRIGHT


BLUE UMBRELLAS

"The thing that makes a blue umbrella with its tail -
How do you call it?" you ask. Poorly and pale
Comes my answer. For all I can tell it is peacock.

Now that you go to school, you will learn how we call
                 all sort or things;
How we mar great works by our mean recital.
You will learn, for instance, that Head Monster
                is not the gentleman's accepted title;
The blue-tailed eccentrics will be merely peacocks;
               the dead bird will no longer doze
Off till tomorrow's lark, for the letter has killed him.
The dictionary is opening, the gay umbrellas close.

              Oh our mistaken teachers -
It was not a proper respect for words that we need,
But a decent regard for things, those older creatures
             and more real.
Later you may even resort to writing verse
To prove the dishonesty of names and their black greed -
To confess your ignorance, to expiate your crime,
            seeking a spell to lift a curse.
Or you may, more commodiously, spy on your children,
            busy discoverers,
Without the dubious benefit of rhyme.


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SOMBRINHAS AZUIS

"Aquilo com que se faz uma sombrinha azul com a sua cauda -
Como se chama?" perguntas. Pobre e pálida
é a minha resposta. Pois tudo o que lhe posso chamar é pavão.

Agora que vais para a escola, aprenderás que nome damos
           a todo o tipo de coisas.
Como arruinamos grandes obras com a nossa récita mesquinha.
Aprenderás, por exemplo, que o Monstro Principal
          não é o título recomendado para os senhor;
Os excêntricos de cauda azul serão apenas pavões;
          a ave morta não continuará a dormitar
Até à brincadeira da manhã, pois a letra matou-a.

          Oh, os nossos professores equivocados! -
Não era um respeito devido pelas palavras que necessitávamos,
Mas um cuidado decente das coisas, essas criaturas mais antigas
          são mais reais.
Mais tarde até poderás recorrer a escrever versos
Para provar a desonestidade dos nomes e a sua ganância negra -
Para confessar a tua ignorância e espiar o teu crime,
         procurando um feitiço para levantar uma maldição.
Ou poderás, mais comodamente, espiar os teus filhos,
         descobridores atarefados,
Sem o benefício duvidosos da rima.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

 MIROSLAV HOLUB


     NAPOLEÃO

Meninos, quando
nasceu Napoleão Bonaparte,
pergunta o professor.

Há mil amos, dizem as crianças.
Há cem anos, dizem as crianças.
No ano passado, dizem as crianças.
Ninguém sabe.

Meninos, o que 
fez Napoleão Bonaparte,
pergunta o professor.

Ganhou uma guerra, dizem as crianças.
Perdeu uma guerra, dizem as crianças.
Ninguém sabe.

O nosso talhante tinha um cão
chamado Napoleão,
diz Frantisek.
O talhante costumava bater-lhe e o cão morreu
de fome
há um ano.

E todas as crianças têm agora pena
de Napoleão.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

 AURORA LUQUE


              PENTESILEA

Las crines empapadas como algas
blanquecinas se alejan: el hermoso caballo,
desnuda ya la muerte por los campos,
huye despavorido entre despojos.
En el alba, la cueva delicada
de un pecho frente a un turbio destino de guerrero.

- Qué dulcemente amargo el sabor insensible
de la noche contigo, oh Amazona.
La fruta de tu aliento, tibia y dulce,
no puede ya morder: un dios cambió los dados, y la muerte
anticipó su turno en la escalera
de la vida perfecta de los héroes.
El prólogo, los himnos, los presagios,
la gloria de la red, la humedad de los ojos,
la carnación, el iris, el fulgor, el asombro
con que la diosa engaña sin piedad a los seres
me fueran evitados; solo al darte la muerte
me devolvió tu cuerpo su perfume de sombra
y solo he alcanzado, del amor, la belleza
altiva de su cumbre en brazos de la nada.


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              PENTESILEIA

 As crinas empapadas como algas
esbranquiçadas afastam-se: o formoso cavalo,
desnuda já a morte pelos campos,
foge espavorido entre despojos.
Na alba, a curva delicada
de um peito frente a um turvo destino de guerreiro.

- Que docemente amargo o sabor insensível
da noite contigo, oh Amazona.
A fruta do teu hálito, tépida e doce,
já não pode morder: um deus trocou os dados e a morte
antecipou o o seu turno na escada
da vida perfeita dos heróis,
o prólogo, os hinos, os presságios,
a glória da rede, a humidade dos olhos,
o coração, a íris, o fulgor, o assombro
com que a deusa engana sem piedade os seres
foram-me poupados; só ao dar-te a morte
o teu corpo me devolveu o seu perfume de sombra
e só alcancei, do amor, a beleza
altiva do seu cume nos braços do nada.



terça-feira, 24 de novembro de 2020

 PABLO GARCÍA CASADO


DESAHUCIO

dime! es que hay otra? otracapaz de lavarte
de plancharte de hacerte la comida de acompañarte
al baño después de pasarte el día bebendo?

sabe esa puta lo que es sentirse como el trapo 
donde limpias la polla después de la faena?
no no quiero hablar fuera de aquí a la puta calle

echarlo todo a perder por unas tetas operadas!


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DESPEJO

diz-me! é que há outra? capaz de lavar
de passar a ferro de fazer-te a comida de acompanhar-te
ao quarto de banho depois de passares o dia a beber?

sabe essa puta o que é sentir-se como o trapo
onde limpas o caralho depois da faena?
não não quero falar fora daqui para a puta da rua

deitar tudo a perder por umas tetas operadas!

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

 JULIO MARTÍNEZ MESANZA


    LA TORRE EN EL YERMO

Sólo el orden anhelo, y la belleza
que en la mujer no cabe. Sólo anhelo 
la vida que non duda, la que cumple
sin sombras los designios y no intriga.
Quiero la claridad de las espadas,
la claridad de formas poderosas.
La torre me deslumbra desde el yermo
y hacia la torre marcho. Aunque me aguarde
la desdentada boca del escarnio
o la falaz palabra del sofista
o el hacha doble que el traidor empuña,
veré desde la torre la ignominia.


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    A TORRE NO ERMO

Só a ordem anseio e a beleza
que na mulher não cabe. Só anseio
a vida que não duvida, a que cumpre
sem sombras os desígnios e não intriga.
Quero a claridade das espadas,
a claridade de formas poderosas.
A torre deslumbra-me desde o ermo
e para a torre caminho. Ainda que me aguarde
a desdentada boca do escárnio
ou a falaz palavra do sofista
ou o machado duplo que o traidor empunha,
verei desde a torre a ignomínia.



  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...