sexta-feira, 15 de julho de 2022

 AUGUST KLEINZAHLER

CAT IN LATE AUTUMN             


Minou sleeps all day. Old
               soldiers with bum radios
stuck in downtown residence hotels
               see more light
than Minou.
              Sundays,
when rain streams off fire escapes,
              plunging into alleys,
and what little is left of light
              on the street comes off
olive oil cans from Lucca and the groves
              near Córdoba
in a window with pears, dish soap
              and nuts, Minou
looks nearly dead, a forepaw draped on top
              of his head. He's way 
out there, sunk deep        
              in the textured rayon
of a buff-colored cushion. His whiskers'
              occasional twitch: you see
the heart jump in his fur
              as he stalks the perimeter
of an enormous dream, rain
              turning so heavy near dusk
night slips in 
              without you even noticing.


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GATO NO FIM DO OUTONO

Minou dorme o dia todo. Velhos
             soldados com rádios estridentes
enfiados em lares do centro
             vêem mais luz
que Minou.
             Aos domingos
quando a chuva escorre pelas escadas de incêndio,
             despenhando-se nos becos,
e o pouco que sobra de luz
             na rua tem origem
em latas de azeite de Lucca e dos pomares
             junto a Córdoba
numa janela com peras, sabão da louça
             e nozes, Minou
parece quase morto, uma pata dianteira por cima
             da cabeça. Está
lá fora, enterrado fundamente
             na textura de plástico
de uma almofada bege. Os seus bigodes
             estremecem de vez em quando - vê-se
o coração saltar-lhe no pêlo
             enquanto persegue o perímetro
de um sonho imenso, a chuva
             ficando tão densa perto do crepúsculo
que a noite se introduz
             sem que sequer se repare.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

 ALEKSANDAR RISTOVIC

COMPARAÇÃO

Dizem que Ulisses não gostava do mar,
e, por isso, foi o cativo
de brisas marítimas, de tempestades e ondas
que são como cobertas de cama rendadas.
O mesmo acontece comigo. Não gostando de poesdia
e ainda assim rendido a ela, tornei-me o seu cativo
e não posso oferecer ao leitor mais que mesmo.
Como alguém que continuamente muda 
de remos para vela e vice-versa, apostando tudo
numa história em que não será reconhecido
entre as imagens cuidadosamente escolhidas:

sem esse porco,
sem esse morango no jardim,
sem esse fumo de cachimbo.
Sem essa espuma na boca.
Sem essa roda.
Sem essa mão sobre a qual passa a roda,
enquanto rola esmagando gravilha
paralela a outra roda.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

FERNANDO ORTIZ

EL TIPO AQUÉL 

Ahora al personaje literario
- el mismo que os habló desde mi verso -
yo lo deshago, digo, y lo disperso
como al humo dispersa el incensario.

Fue siempre un paseante solitario
que, haciendo de su ombligo el universo,
dio enver del mundo sólo el lado adverso.
Un sujeto tristón. Un perdulario.

Quien lo inventó no quiere ni hablar de él,
pues cada día se le acerca más
con su paso apagado y quejumbroso.

Oírle me resultaba ya enfadoso.
Para penas las mías; y además
me da un poco de grima el tipo áquel. 


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AQUELE TIPO

Agora ao personagem literário
- o mesmo que vos falou desde o meu verso -
desfaço-o, digo, disperso-o
como o incensório dispersa o fumo.

Foi sempre um passeante solitário
que, fazendo do seu umbigo o universo
deu em ver do mundo só o lado adverso.
Um sujeito tristonho. Um perdulário.

Quem o inventou nem quer falar dele,
pois cada dia lhe fica mais próximo
com o seu passo apagado e queixoso.

Ouvi-lo já me resulta enfadonho.
Para penas, as minhas; e, além disso,
arrepia-me um pouco aquele tipo.

terça-feira, 12 de julho de 2022

 D. J. ENRIGHT

VERY CLEAN OLD MAN

Do you know that land? -
Where the nocturnal tiger
Empties the rubbish bins,

Where the deathless mosquito
Stings the flesh to life
And the body runs with oils!

This splendid desk of teak
I brought from that lost land,
Large, larger than my room -

Now in this temperate clime
Cracks have run across it,
Large, larger every day.

My nails slipped through them, 
Then my fingers - next
my typewriter...

If you change your country
Change while you are young,
Before your bones go brittle
And your life cracks across.

These suburbs of the West,
Dog-haunted, dream
Of soap powders, and the wind
Empties the rubbish bins...

Maybe you should try the moon
- You cracked old man -
Once they dust it down.


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VELHO MUITO ASSEADO

Conheces essa terra? -
Onde o tigre nocturno 
Esvazia os caixotes do lixo.

Onde o mosquito imortal
Pica a carne para a vida
E o corpo funciona a óleo!

Esta esplêndida secretária de teca
Que trouxe dessa terra perdida,
Espaçosa, mais espaçosa que a minha sala -

Agora neste clima temperado
Está atravessada por rachas 
Grandes, maiores dia a dia.

As minhas unhas deslizaram por elas,
Depois os meus dedos - a seguir
A minha máquina de escrever.

Se mudares de país
Muda enquanto és jovem,
Antes de os ossos ficarem quebradiços
E a tua vida rachar por eles.

Estes subúrbios do Oeste,
Assolados por cães, sonham
Com pós de sabão e o vento
Esvazia os caixotes do lixo...

Talvez devesses tentar a lua
- Tu, velho rebentado -
Desde que eles a varram.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

 MIROSLAV HOLUB

DOMINGO

Os corredores da Maratona atingiram o ponto de viragem:
Domingo, o dia de canções tristes
junto à ponte de caminho de ferro
e das nuvens.
                       Os teus olhos, no zénite -
e dizer isto sem usar o corpo é
como correr sem tocar no solo.
                      Há trinta anos
passou aqui um transporte, vagões abertos
carregados de silhuetas,
com cabeças e ombros cortados
no papel negro do horror.
E estas pessoas amavam alguém,
mas o comboio regressava vazio
todos os domingos, apenas
alguns ganchos de cabelo
e cinzas
no soalho do vagão.

Quem sabe como tocar no solo,
quem sabe como não tocar no solo?
Não se pode não acreditar
na existência da linha de chegada da Maratona
dentro de duas horas e quarenta minutos,
entre o barulho ensurdecedor das nuvens
e vagões abertos vazios
sobre a ponte do caminho de ferro.

domingo, 10 de julho de 2022

 AURORA LUQUE

ESPIGAR

                                                                               A Agnès Varda
                                                        y al LP  La rosa del azafrán que había en mi casa

La segunda existencia de las cosas
derecho de espigueo
le glâneur/ la glâneuse

un edicto del siglo dieciséis autorizaba
a espigar a los pobres después de la cosecha
tras la puesta del sol
y antes de amanecer

esta mañana muy tempranico
coros de espigadoras encerradas
en un círculo negro de vinilo
hambre de trigos vístete de canciones
hambre de canciones sáciate de pasiones diminutas

por los carriles de los rastrojos
la espigada
la muchacha-espiga pasó a ser la mujer espigante

                                       si a tu lado me aguarda un querer
                                        no me importaban los aires ni el sol
                                       ni que arranques de cuajo la mies

Agnès glâneuse de nuevo va a nombrar
este desatendido microamor hacia el mundo

- Dos momentos son buenos
para espigar moluscos en la arena
después de las tormentas fabulosas
o tras la alta marea
(pues llega la tormenta de la trágica muerte
desordena lo alzado en las orillas
y has de salir descalza solitaria
a espigar los residuos de ánima y de ánimo
caracolas con un poco de carne
salada y comulgable)

Agnès ha regresado de Japón
la espigadora con su esportilla
entra en su casa vieja
trae su maleta llena de trouvailles
soy la hormiguita de los despojos
- Hormiguea y espiga, mas no pierdas
tu musical carácter de cigarra
canta la dignidad de lo que arrastra vida con ahínco
nadie escriba por ti la canción de lo útil

por eses trigos van ellas solas
y se engalanan con amapolas
la mujer espigante pasó a ser la anciana espigadora

Agnès filma su mano izquierda con una
cámara en la derecha
y encuentra a un animal autónomo.
- Me gusta ser vieja, creo . dice

Y como tiene muy buenos ojos
espiga a veces de los manojos

Varda espiga espigadores.
Me quisiera enrolar
                                 ser una de las suyas
en los silencios de horas despojadas
contra el mundo que eleva vacíos deslumbrantes
y luminosas nadas flatulentas
que fabrica furiosamente ruidos
y ficción de alimentos impolutos

ir detrás de las hoces
cuidando los descartes
espigas en el borde nodoso de la acequia
manzanas olvidadas en lo alto de las ramas
la carne irregular la piel manchada
los malformados frutos
las horas malvividas calientes y deformes
palabras averiadas
que olvidamos guardar
y están a la intempiere entre los surcos

levantarse y volverse a agachar
todo el día a los aires y al sol
si acricio lo roto entre mis manos
volverá a germinar

¿y si escribir no fuera
sino un himno al final de la cosecha
sino un recolectar despreocupadas
aceitunas o díscolas espigas
o un racimo en la helada

celebrar la segunda existencia de las cosas
recuperar la vida que acusaron de inútil
el amor del camino?

Ten memoria de mí, segadora


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RESPIGADORA

                                                                              Para Agnès Varda
                e para o LP La rosa del azafrán que havia na minha casa

A segunda existência das coisas
direito de respigar
le glâneur/la glâneuse

um édito do século dezasseis autorizava
os pobres a respigar depois da colheita
depois do pôr do sol
e antes de amanhecer

esta manhã muito cedinho
coros de respigadoras encerrados
num círculo negro de vinil
fome de trigo veste-te de canções
fome de canções sacia-te de paixões diminutas

pelos sulcos do restolho
a respigada
a rapariga-respiga passou a se a mulher respigante

                                                  se a teu lado me aguarda um desejo
                                                  não me importam os ares nem o sol
                                                  nem que arranques pela raíz a messe 

Agnès glâneuse de novo vai nomear 
este desatendido microamor pelo mundo

- Dois momentos são bons 
para respigar moluscos na areia
depois das tormentas fabulosas
ou a seguir à maré alta
(pois chega a tormenta da trágica morte
desordena o alçado nas margens
e irás sair descalça solitária
a respigar os resíduos de alma e de ânimo
búzios com um pouco de carne
salgada e comungável)

Agnès regressou do Japão
e respigadora com o seu abanador
entra na sua casa velha
traz a sua maleta cheia de trouvailles
sou a formiguita dos despojos
- Formigueia e respiga, mas não percas
o teu musical carácter de cigarra
canta a dignidade do que arrasta vida com afinco
ninguém escreva por ti a canção do útil

por esses trigos só elas vão
e enfeitam-se com papoilas
a mulher respigante passou aser a anciã respigadora

Agnès filma a sua mão esquerda com uma 
câmara na direita
e encontra um animal autónomo
- Gosto de ser velha, creio . diz

E como tem muitos bons olhos
respiga por vezes dos molhos

Varda respiga respigadores.
Quereria alistar-me
                                ser uma das suas
nos silêncios de horas despojadas
contra o mundo que eleva vazios deslumbrantes
e luminosos nadas flatulentos
que fabrica furiosamente ruídos
a ficção de alimentos impolutos

ir detrás das foices
cuidando das sobras
espigas na margem lodosa da acéquia
maçãs esquecidas no cimo dos ramos
a carne irregular a pele manchada
os malformados frutos
as horas mal vividas quentes e disformes
palavrasa avariadas
que olvidamos guardar
e estão na intempérie entre os sulcos

levantar-se e voltar a agachar-se
todo o dia aos ares e ao sol
se acaricio o rosto entre as mãos
voltará a germinar

e se escrever não fosse
senão um hino ao final da colheita
senão uma recolha de despreocupadas
azeitonas ou díscolas espigas
ou um rácimo na geada

celebrar a segunda existência das coisas
recuperar a vida que acusaram de inútil
o amor do caminho?

Lembra-te de mim, segadora

sexta-feira, 1 de julho de 2022

PABLO GARCÍA CASADO

COLMENAS

Todo lo que ocurre, todo lo que no puedo ver. Esa espe-
sa gelatina que impide mirar más allá de las persianas.
El dolor pero también el baile, flores pero también dine-
ro, devuélveme ese dinero, es mío, lo gané con mis propias
manos. Los hijos que salen de los cuartos hacia la muer-
te, los teléfonos que suenan en medio de la noche, como
un espanto, esa luz que se enciende apresurada en la esca-
lera, es una niña, se parece a ti, la esperanza que hierve
en cada celda. Todo lo que ocurre y que está más allá de
mis ojos.


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COLMEIAS

Tudo o que ocorre, tudo o que não posso ver. Essa espes-
-sa gelatina que impede que se olhe para lá das persianas.
A dor, mas também o baile, flores, mas também dinhe-
ro, devolve-me esse dinheiro, é meu, ganhei-o com as próprias
mãos. Os filhos que saem dos quartos em direcção à mor-
te, os telefones que tocam a meio da noite, como
um espanto, essa luz que se acende apressada na esca-
da, é uma menina, parece-se contigo, a esperança que ferve
em cada célula. Tudo o que ocorre e está para lá dos
meus olhos.

  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...