quinta-feira, 12 de maio de 2022

 LUIS ALBERTO DE CUENCA

GUARDIANES DE FRONTERA

Que no vienen los bárbaros.
Que viven aqui dentro,
en esta herida abierta
que es el cerebro humano.
De modo que dejad 
de alardear, fogosos
corceles. Envainad,
heróes, vuestras espadas.
Los bárbaros existen
tan sólo en nuestras mentes,
y en ellas desarrollan
todas sus perversiones.
Son revolucionarios
que inauguran la Historia
cada día: patíbulos,
guillotinas, denuncias
anónimas, matanzas,
fusilamientos... Son
mensajeros del orden
y la verdad (¿a qué
orden y a qué verdad
se estarán referiendo?),
y en nombre de ese orden
y esa verdad instalan
el terror en el mundo.
Y no somos capaces
de dejar de inventarlos.
Seguimos, seguiremos
proyectando sus sombras
desde el fondo del alma.
Porque leyes y normas,
y principios que deben
defenderse, y fronteras
sagradas, y mujeres
y niños que salvar,
y civilizaciones
que corren el peligro
de extinguirse, no son
más que la cara amable
de una misma moneda
que tiene en el reverso
la serpiente del caos
y el veneno del odio.
Andamos por la vida
presumiendo de dioses
y en el fondo no somos
más que pobres, crueles
y estúpidos diablos.


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GUARDAS DE FRONTEIRA

Que não vêm os bárbaros.
Que vivem aqui dentro,
nesta ferida aberta
que é o cérebro humano.
De modo que deixai
de desfilar, fogosos
corcéis. Embainhai,
heróis, as vossas espadas.
Os bárbaros existem
apenas nas vossas mentes, 
e nelas desnvolvem
todas as suas perversões.
São revolucionários
que inauguram a História
a cada dia: patíbulos,
guilhotinas, denúncias
anónimas, matanças,
fusilamentos... São
mensageiros da ordem
e da verdade (a que
ordem e a que verdade
se estarâo referindo?)
e em nome dessa ordem
e dessa verdade instalam
o terror no mundo.
E não somos capazes
de deixar de inventá-los.
Seguimos, seguiremos
projectando as suas sombras
desde o fundo da alma.
Porque leis e normas
e princípios que devem 
defender-se e fronteiras 
sagradas e mulheres
e crianças para salvar
e civilizações
que correm o perigo
de extinguir-se não são
mais que a cara amável
de uma mesma moeda
que tem no reverso
a serpente do caos
e o veneno do ódio.
Andamos pela vida
presumindo de deuses
e no fundo não somos
mais que pobres, cruéis
e estúpidos diabos.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

 JON JUARISTI

PÓNTICA

Al otro pertenecen
Las escenas que guarda tu memoria:
Imágenes confusas
Que el óxido del tiempo deteriora.

 Otro es el que las sueña
Desde un ayer de rabia silenciosa.

Muere con ellas una lengua exangüe
Y una causa llamada a la derrota.

Y tú envejeces lejos,
En el destierro de la terra toda,
Entre voces ajenas
Y soledades próximas,
Perdiendo cada día y rescatando
Los colores, las líneas y las formas
De un mundo ajeno que creíste tuyo
Y alzando en torno de su ausencia torva
Gastados laberintos de palabras,
Una mansión decrépita y angosta,
Una torre, un brocal, quizá una vida.

Del otro son los sueños que custodias.


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PÔNTICA

Ao outro pertencem
As cenas que guarda a tua memória:
Imagens confusas 
Que o óxido do gtgempo deteriora.

Outro é que as sonha
Desde um ontem de raiva silenciosa.

Morre com elas uma língua exangue
E uma causa convocada à derrota.

E tu envelheces longe,
No desterro da terra toda,
Entre vozes alheias
E solidões próximas,
Perdendo cada dia e resgatando
As cores, as linhas e as formas
De um mundo alheio que creste teu
E erguendo em torno da sua ausência turva
Gastos labirintos de palavras,
Uma mansão decrépita e estreita,
Uma torre, um bocal, talvez uma vida.

Do outro são os sonhos que custodias. 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

 WELDON KEES

JANUARY

Morning: blue, cold, and still.
Eyes that have stared too long
Stare at the wedge of light
At the end of the frozen room
Where snow in a windowsill,
Packed and cold as a life,
Winters the sense of wrong
And emptiness and loss
That is my awakening,
A lifetime drains away
Down a path of frost;
My face in the looking-glass
Turns away from the light
Toward fragments of the past
That break with the end of sleep.
This wakening, this breath
No longer real, this deep
Darkness where we toss,
Cover a life at the last,
Sleep is too short a death.


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JANEIRO

Manhã: azul, fria e estática.
Olhos que olharam demasiado
Olham para o limiar da luz
No fundo do quarto gelado
Onde neva num parapeito,
Densa e fria como uma vida,
Hiberna a sensação de erro
E vazio e perda
que é o meu despertar.
Uma vida escoa-se
Por uma vereda de gelo;
A minha cara no espelho
Afasta-se de novo da luz
Para fragmentos do passado
Que se rompem com o fim do sono.
Este despertar, esta respiração
Já  irreal, esta escuridão
Funda onde nos agitamos,
Pelo menos resguardam uma vida.
O sono é uma morte muito curta.

domingo, 8 de maio de 2022

VÍCTOR BOTAS 


VÍA CRUCIS

No te engañes: no hay más que dos caminos.
Mas puedes escoger, así que deja 
tu estameña y el cuenco de las gachas
y cúbrete en silencio de orgullosa
púrpura, suave lino, azul diadema,
o de húmedas guirnaldas palpitantes,
y avanza como un rey o como un toro
que inmolaran los flámines a Júpiter.
No te engañes: no hay más que dos caminos.
Y por los dos trás el matadero.


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VÍA CRUCIS

Não te enganes: há apenas dois caminhos.
Mas podes escolher, portanto deixa
a tua estamenha e a malga das migas
e cobre-te em silêncio de orgulhosa
púrpura, suave linho, diadema azul
ou de húmidas grinaldas palpitantes
e avnça como um rei ou como um touro
que os flâmines imolaram a Júpiter.
Não te enganes: há apenas dois caminhos.
E pelos dois irás ao matadouro.

sábado, 7 de maio de 2022

 J. V. CUNNINGHAM


[5]

Here lies New Critic who would fox us
With his poetic paradoxes:
Though he lies rigid and quiet,
If he could speak he would deny it.


[12]

The Elders at their services begin
With paper offerings. They release from sin
The catechumens on the couches lying
In visions, testimonies, prophesying:
Not, "Are you saved" they ask, but in informal
Insistent query, "Brother, are you normal?"


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[5]

Aqui jaz o Novo Crítico que ludibriaria
Com os paradoxos poéticos.
Embora aqui repouse rígido e silencioso,
Se pudesse falar iria negá-lo.


[12]

Os Anciãos nos seus ritos começam
Com oferendas de papel. Libertam de pecado
Os catecúmenos reclinados nos sofás
Em visões, testemunhos, profetizando:
Não, "Estarás salvo?", perguntam, mas em informal,
Inquérito insistente, "Irmão, serás normal?"

sexta-feira, 6 de maio de 2022

 DICK DAVIS

AUBADE

for Joshua Mehigan


These are the dawn thoughts of an atheist
Vaguely embarrassed by what looks like grace:
Though colours don't objectively exist,
And have no form and occupy no space.

So that the carpet's sumptuous dyes must make
Bold arabesques untrue as Santa Claus,
And all Matisse's pigments are a false
Fobbed off on us by intellectual laws.

Though neither Fauve nor Esfahan survive
The deconstructed physics of our seeing -
Still we consent, and actively connive
In their unreal adjustments to our being. 

So the thin rhetoric we use to cope
With being so peculiarly here,
Which cannot but be based on baseless hope
And self-constructed images of fear,

Serves to interpret what we are, although
We hesitate to say that what it says
Refers to anything that we could know
Beyond the mind's perpetual paraphrase.

And sensing no quiddity remains
Outside the island sorceries of sense
(Queen Circe's simulacra in our brains
That make and unmake all experience)

Still, still we long for Light's communion
To pierce and flood our solitary gloom:
Still I am grateful as the rising sun
Picks out the solid colours of my room.


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ALBA

para Joshua Mehigan

Estes são os pensamentos madrugadores de um ateu
Vagamente embaraçado pelo que parece a graça:
Embora as cores não existam objectivamente
E não tenham forma e não ocupem espaço.

De forma que as tintas sumptuosas do tapete devem produzir
Arabescos ousados, falsos como o Pai Natal,
E todos os pigmentos de Matisse são uma falsificação,
Que nos é impigida por regras intelectuais,

Embora nem os Fauve, nem Esfahan sobrevivam
À física desconstruída da nossa visão -
Ainda assim assentimos e somos cúmplices activos
Nos seus ajustes irreais à nossa pessoa.

Assim a pobre retórica que usamos para lidar
Com estarmos peculiarmente aqui,
Que só pode ser baseada em esperança infundada
E imagens auto-construídas de medo,

Serve para interpretar o que somos, embora
Hesitemos em dizer que o que diz
Se refere a algo que pudessemos conhecer
Além da paráfrase perpétua da mente.

E pressentindo que nenhum sofisma permanece
Fora das feitiçarias insulares do senso
(Os simulacros da Rainha Circe nos nossos cérebros
Que fazem e desfazem toda a experiência)

Ainda, ainda assim ansiamos pela comunhão da luz
Para penetrar e inundar a nossa escuridão solitária;
Ainda assim fico grato quando o sol nascente
Colhe as cores sólidas do emu quarto.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

MIGUEL D'ORS


ORACIÓN POR NOSOTROS, LOS DE SIEMPRE


                                   "Todo esto del Concilio está muy bien, pero
                                                  desengañate: al final, al Cielo iremos los de
                                                  siempre".

                                                      (De un chiste de Mingote)

Aqui estamos nosotros, los de siempre,
nuestra virtud, que Tú tan bien conoces.

Nosotros te creímos casi desde la cuna,
y hasta aqui Te seguimos
con paso regular, sin armar alboroto.
Perdónanos, Señor.
                                Ni un minuto de duda.
No robamos a nadie, no injuriamos;
a la mujer del prójimo, ni un siquiera mirarla;
no quebrantamos nunca
el domingo, la Pascua, los ayunos,
los diezmos y primicias. Tú lo sabes:
los tuyos siempre. (Y sabes
que no sieümpre fue fácil). Perdónanos, Señor.

Mientras nuestros hermanos menores se embriagaban
en burdeles rfemotos, nosotros con los bueyes,
podando, vendimiando de sol a sol, doblados,
aguantándole al viejo
su malhumor, su gota, el que siempre estuviera
hablándonos del otro - el sinvergüerza aquel-.
Y de dinero, justos. Perdónanos, Señor.

Cuando Simón ("el Piedra") 
Te negaba tres veces (y nosotros
temblábamos detrás de los olivos),
nuestro silencio estaba -Tú lo sabes-
contigo. Y no digamos cuando Judas
Te traicionó. Perdónanos, Señor.

A nosotros no nos
hizo falta que nos crucificasen
a Tu derecha para creer en Ti -a última hora,
viendo ya de muy cerca
las puertas del Infierno ("Así cualquiera")-,
ni caer de un caballo,
ni reclamar a voces confesión
como los bandoleros de las viejas comedias,
que ene un solo minuto ¡zas!, santos de primera.
Nosotros veinticuaro horas al día,
treinta días al mes, doce meses al año,
rectos en Tu camino. Perdónanos, Señor.

Mientras otras ovejas se Te decarrilaban,
nosotros, gente de orden,
responsables, tranquilos, trabajando,
artesanos callados, en nuestra salvación.
Perdónanos, Señor.
                                Porque no Te entendiemos:
vuelve a casa el perdido
aquel, olendo a piara todavía,
y Tú que le organizas la gran fiesta;
a los que se pusieron
a trabajar cuando era prácticamente noche,
el 100% del sueldo; y a Simón le haces Papa.
Y nosotros, perplejos: "Pues si que fuimos primos".
Perdónanos, Señor.
                                No Te entendimos.
Algunos nos decían: "Os ha faltado Amor";
y hubo quien sentenció que las mismas rameras
entrarán en Tu reino delante de nosotros.
Y nosotros, perplejos: "Qué justicia es la Tuya?"
Perdónanos, Señor.
                               Tú sabes que lo hacíamos
todo por agradarte.
Tú sabes que si fuimos como fuimos,
si tuvimos estrecho el corazón,
si medimos en gramos, segundos y milímetros
la inmensidad de Tu misericordia
fue porque así formábamos parte de Tus designios:
la sombra que hace más clamorosa la luz.
Perdónanos, Señor. Y en nuestras obras mira,
más que los resultados,
                                      las buenas intenciones.

                                                           30-I-2003


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ORAÇÃO POR NÓS. OS DE SEMPRE

                                "Tudo isto do Concílio está muito bem, mas
                                desengana-te: no fim, para o céh, iremos os de
                                sempre".

                                             (De um chiste de Mingote).

Aqui estamos, os de sempre,
a nossa virtude, que Tu tão bem conheces.

Cremos em Ti quase desde o berço,
e até aqui Te seguimos
com passo regular, sem armar alvoroço.
Perdoa-nos, Senhor.
                                 Nem um minuto de dúvida.
Não roubamos ninguém, não injuriamos;
à mulher do próximo, nem sequer mirá-la;
não falhamos nunca o domingo, a Páscoa, os jejuns,
os dízimos e prmícias. Tu sabe-lo:
teus sempre. (E sabes 
que nem sempre foi fácil). Perdoa-nos, Senhor.

Enquanto os nossos irmãos menores se embriagavam
em bordéis remotos, nós, com os bois,
podando, vindimando de sol a sol, dobrados,
aguentando ao velho
o seu mau humor, a sua gota, que estivesse sempre
a falar-nos do outro -esse sem vergonha-.
E de dinheiro, apertados. Perdoa-nos, Senhor.

Quando Simão ("o Pedra")
Te negou três vezes (e nós 
tremiamos atrás das oliveiras)
o nosso silêncio estava - Tu sabe-lo -
contigo. Para não falar quando Judas
Te atraiçoou. Perdoa-nos, Senhor.

A nós não
foi necessário que nos crucificassem 
à Tua direita para crer em Ti - à última hora,
vendo já de muito perto
as portas do Inferno ("Assim qualquer um") -,
nem cair de um cavalo,
nem reclamar aos gritos confissão
como os bandidos das velhas comédias
que num minuto, zás!, santos de primeira.
Nós, vinte e quatro horas por dia,
trinta dias por mês, doze meses por ano,
rectos no Teu caminho. Perdoa-nos, Senhor.

Enquanto outras ovelhas se desencaminhavam,
nós, gente de ordem,
responsáveis, tranquilos, trabalhando,
artesãos calados, na nossa salvação.
Perdoa-nos, Senhor.
                                 Porque não Te entendemos:
volta a casa aquele 
perdido, cheirando ainda a bedum
e Tu organizas-lhe a grande festa;
a trabalhar quando era praticamente noite,
100% de soldo: e a Simão fazes Papa.
E nós, perplexos: "Pois se fomos primeiros".
Perdoa-nos, Senhor.
                                 Tu sabes que fazíamos
tudo para agradar-te.
Tu sabes que se fomos como fomos,
se tivemos o coração estreito,
se medimos em gramas, segundos e milímetros
a imensidão da Tua misericórdia
foi porque assim formàvamos parte dos Teus desígnios:
a sombra que torna mais resplandecente a luz.
Perdoa-nos, Senhor. E nas nossas obras repara,
mais que nos resultados,
                                        nas boas intenções.

                                                        30-I-2003


  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...