segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

 ALEKSANDAR RISTOVIC


PRETO NO BRANCO OU FUNDO VERDE

O meu corvo prefer andar a voar,
seja sobre um relvado ou um campo nevado.
Talvez tenha chegado à conclusão
que é mais digno caminhar quw voar?

Por vezes, rncontramo-nos sós, num campo.
Ele não se devia e eu também não.
Ficamos a olhar um para o outro:
uma criatura teimosa em frente de outra.

Depois, um de nós desiste,
digamos que ele - mas não levanta voo,
limita-se a rodar e dirigir-se
para a esquerda ou para a direita.

Fico a pensar, este meu corvo não é uma ave,
apenas tem parecenças,
com o seu bico, asas e garras,
mas os seus propósitos e comportamento são humanos.

Agora, enquanto observo, através da janela, no crepúsculo,
a neve rodopia à volta da árvores desnudas,
ouço-o grasnar para si mesmo,
recusando nitidamente guardar o que tem em mente.

Uma mulher atira-lhe para os pés
bugigangas, jóias baratas e pérolas.
Por último, mostra-lhe o peito roliço
e o corvo solta um suspiro.

domingo, 16 de janeiro de 2022

 FERNANDO ORTIZ


UNA AMIGA

He preferido siempre las mañanas.
Aún no enroquecida la ciudad
hice grata costumbre del paseo
por avenidas gratas de silencio.
Hubo una perra, Rufa era su nombre,
Que salía conmigo y con el alba
al claro frescos de la prima hora.
Huameaba la la perra en los rincones,
me adelantaba y esperaba luego
para juguetear y saludarme.
Refregaba su lomo por la hierba
de un cercano jardín. Y si ella erguía
hocico, orejas, cueelo, allí, sin duda,
por el suelo saltaban unos pájaros.
Quiso Rufa cazarlos muchas veces
y nunca jamás pudo, aunque puso
constancia e ilusión de tenaz niño.
Y, sorprendida por el vuelo súbito,
me miraba con ojos inocentes
como quien quiere que le explique algo
alguien de confianza, un buen amigo.
De vuelta a casa, muy de amanecida
- mis hijas, aún pequeñas, descansaban -
solo en mi gabinete, con mis libros,
Rufa se retiraba a su rincón
donde se ensimismaba en sus assuntos.

Hoy que me he despertado con el alba,
me veo inclinado sobre mi escritorio,,
absorto, en mi pequeño apartamiento.
Mis hijas, ya mayores, vendrán luego
a visitarme. Aberta la ventana,
se oye el lejano aullido de algún perro. 


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UMA AMIGA

Preferi sempre as manhãs.
Ainda não enroquecida a cidade
faz grato costume o passeio
por avenidas gratas de silêncio.
Tive uma cadela, Rufa de seu nume,
que saía comigo e com a alvorada
para o claro fresco da primeira hora.
Farejava a cadela pelos cantos,
adiantava-se e logo esperava
para brincar e saudar-me.
Roçava o lombo pela erva
de um jardim próximo E se erguia
focinho, orelhas, pescoço, aí, sem dúvida,
pelo solo saltavam uns pássaros.
Quis Rufa caçá-los muitas vezes
e nuca conseguiu, ainda que empenhasse
constância e ilusão de tenaz criança.
E, surpreendida pelo voo súbito,
mirava-me com olhos inocentes
como quem quer que lhe explique algo
alguém de confiança, um bom amigo.
De volta a casa, muito cedo
- as minhas filhas, ainda pequenas, descansavam -
sozinho no meu gabinete, com os meus livros,
Rufa retirava-se para o seu canto
onde se ensimesmava nos seus assuntos.

Hoje que acordei com a alvorada,
vejo-me inclinado sobre a minha secretária,
absorto, no meu pequeno apartamento.
As minhas filhas, já crescidas, virão mais tarde
visitar-me. Aberta a janela,
ouve-se o longínquo latido de algum cão.

sábado, 15 de janeiro de 2022

D. J. ENRIGHT


BACK

Where is that sought-for place
Which grants a brief release 
From locked impossibilities?
Impossible to say,
No signposts point the way.

Its very terrain vague
(What mountainside? What lake?)
It gives the senses nothing.
Nothing to carry back,
No souvenir, no photograph.

Towards its borders no train shrieks
(What meadowland? What creeks?)
And no plane howls towards its heart.
It is yourself you hear
(What parks? What gentle deer?)

Only desperation finds it,
Too desperate to blaze a trail.
It only lives by knowing lack.
The single sign that you were there is,
You know that you are back.


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DE REGRESSO

Onde está esse lugar desejado
Que garante uma breve libertação
De impossibilidades encerradas?
É impossível dizer,
Não há tabuletas para indicar o caminho.

Até o terreno é vago
(Que encostas? Que lago?)
Não oferece nada aos sentidos,
Nada com que voltar.
Nem lembrança, nem fotografia.

Em direcção às suas fronteiras nenhum comboio guincha
(Que pastagens? Que enseadas?)
E nenhum avião ruge em direcção ao seu centro.
È a ti mesmo que ouves
(Que parques? Que veado dócil?)

Só o desespero o encontra.
Demasiado desesperado para encontrar um rasto.
Apenas vive por conhecer a falta.
O único sinal de que estiveste lá é
Que sabes que regressaste.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

MIROSLAV HOLUB



BREVE REFLEXÃO SOBRE MATAR A CARPA DE NATAL

Pega-se num malho de cozinha
e uma faca 
e golpeia-se
no sítio exacxto, para que não se contorça, pois
contorcer-se só significa complicações e reduz o lucro.

E quem observa já cerra os olhos, já admira a destreza,
já puxa pela carteira. Há papel disponível
para a embrulhar. E fumo sai das chaminés.
E o Natal espreita pelas janelas, desliza pelo solo
e mergulha em barris.

Tal é a lei da felicidade.

Apenas me pergunto se a carpa é a criatura certa.

Uma criatura bastante melhor seria seguramente uma
que - esticada - achatada - bem segura -
rodasse o seu olho azul
para o malho, a faca, a carteira, o papel,
os espectadores e as chaminés
e o Natal.

E rapidamente

dissesse alguma coisa. Por exemplo

Estes são os meus dias mais felizes, estes são os meus dias dourados.
Ou
O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim,
Ou
E contudo move-se.

Ou pelo menos
Aleluia!
 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

AURORA LUQUE


BICHOS


Qué bichos raros somos los poetas.
En nuestra casa apenas nos soportan.
En el trabajo usado para fines nutricios
nos ven como a pedantes infelices.
No les puedes contar de nuevo el mismo sueño.
A solas con nosotros, con la página
acariciada casi de algún otro poeta
infeliz y pretérito,
nos redimimos, ebrios,
en un ritual patético y sedante.

Qué bichos raros somos los poetas.
Un monedero apenas de momentos menudos
de concordia, de ardor y de verdad
es la ganancia mínima que deja
nuestra libresca vida con su magra
maleta malcerrada,
                                cuando nos detenemos
en alguna estación donde la muerte
con su vagón sobierbo y antilírico
frena brusca una noche
y nos va recogiendo en su silencio.


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BICHOS

Que bichos estranhos somos os poetas.
Na nossa casa mal nos suportam.
No trabalho usado para fins nutritivos
vêem-nos como pedantes infelizes.
Não se lhes pode contar, de novo, o mesmo sonho.
A sós connosco, com a página
quase acariciada de algum outro poeta
infeliz e pretérito,
redimimo-nos, ébrios,
num ritual patético e sedativo.

Que bichos estranhos somos os poetas.
Apenas um mealheiro de momentos miúdos
de concórdia, de ardor e de verdade
é o ganho mínimo que deixa 
a nossa livresca vida com a sua magra
maleta mal fechada,
                                  quando nos detemos
nalguma estação onde a morte
com o vagão soberbo e anti-lírico
trava bruscamente uma noite
e nos vai recolhendo no seu silêncio.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

 PABLO GARCÍA CASADO


SABBAT

Los polígonos, las áreas comerciales, las oficinas ilumi-
nadas. En todas partes el rostro de la angustia, los hora-
rios, y esa puerta que nunca cierra. El cansacio de
abrirmos sábado tarde, el lunes se lo instalan, Antonio,
acompaña el señor hasta la puerta. Y las tarjetas pasan-
do por las ranuras, los coches atestados de familia, los
teléfonos de servicio. Dulces operadoras que trabajan
hasta muy tarde, ahorrando para un sábado futuro de
zapatillas, cine en casa y ojos cerrados. Buenas tardes, le
atende Luisa, en que puedo ajudarlo.


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SABBAT

Os polígonos, as áreas comerciais, as oficinas ilumi-
nadas. Em toda a parte o rosto da angústia, os horá-
rios e essa porta que nunca se fecha. O cansaço de
abrirmos aos sábados à tarde, segunda-feira, instalam-no, Antonio,
acompanha o senhor à porta. E os cartões passan-
do pelas ranhuras, os carros atestados de família, os
os telefónes de serviço. Doces operadoras que trabalham
até muito tarde, poupando para um sábado futuro de
sapatilhas, cinema em casa e olhos fechados. Boas tardes,
chamo-me Luisa, em que posso ajudá-lo.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

 JULIO MARTÍNEZ MESANZA

A VECES SIENTO LO QUE PENSARÍA

A veces siento lo que pensaría
si un dia me perdiera donde mueren 
los sonorosos tranvías de San Siro.
Si un día, bajo el blanco sol perdido,
de improviso dejaron de importarme
las cartesianas cruces que me guían:
el claro espacio y el complejo tiempo,
la tirania del después y el antes
y la balanza de alegría y culpa.


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ÀS VEZES SINTO O QUE PENSARIA

Às vezes sinto o que pensaria
se um dia me perdesse onde morrem
os sonoros rléctricos de San Siro.
Se um dia, sob o branco sol perdido,
de repente deixassem de importar-me
os cartesianos cruzamentos que me guiam:
o claro espaço e o complexo tempo,
a tirania do depois e o antes
e a balança de alegria e culpa. 

  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...