terça-feira, 13 de julho de 2021

 WELDON KEES


SARATOGA ENDING

1.
Iron, sulphur, steam: the wastes 
Of all resorts like this have left their traces.
Old canes and crutches line the walls. Light
Floods the room, stripped from the pool, broken
And shimmering like scales. Hidden 
By curtains, women dry themselves
Before the fire and review
The service at hotels,
The ways of dying, ways of sleep,
The blind ataxia patient from New York,
And all the others who were here a year ago.


2.
Visconti mad with pain. Each day,
Two hundred drops of laudanum. Hagen, who writhes
With every step. The Count, a shrunken penis
And a monocle, dreaming of horses in the sun,
Covered with flies - Last night I woke in sweat
To see my hands, white, curled upon the sheet
Like withered leaves. I thought of days
So many years ago, hauling driftwood up from the shore,
Waking at noon, the harbor birds following
Boats from the mainland. And then no thoughts al all.
Morphine at five. A cold dawn breaking. Rain.


3.
I lie here in the dark, trying to remember
Whwt my life has taught me. The driveway lights blur
In the rain. A rubber-tired metal cart goes by,
Followed by a nurse; and something rattles
Like glasses being removed after
A party is over and the guests have gone..
Test tubes, beakers, graduates, thermometers -
I reach for a cigarette and my fingers
Touch a tongue depressor that I see
As a bookmark; and all I know
Is the touch of this wood in the darkness, remembering
The warmth of one bright summer half a life ago -
A blue sky and a blinding sun, the face
Of the long dead who, high above the shore,
Looked down on waves across the sand, on rows of yellow jars
In which the lemon trees were ripening.


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FINAL EM SARATOGA

1.
Ferro, enxofre, vapor: os desperdícios
De todas as estâncias como esta deixaram as suas marcas.
Bengalas velhas e muletas perfiladas na parede. A luz 
Enche a sala, despojada da piscina, quebrada
E cintilante como escamas. Escondidas
Por cortinas, mulheres secam-se
À lareira e reveem  
O serviço no hotéis,
Os modos de morrer, modos de sono,
O doente cega, com ataxia, de Nova Iorque.


2.
Visconti, louco de dor. Todos os dias 
Duzentas gotas de láudano. Hagen, que se contorce
A cada passo. O Conde, de pénis murcho
E monóculo, sonhando com cavalos ao sol,
Cobertos de moscas. - Ontem à noite acordei suado
A ver as minas mãos enroladas sobre o lençol
Como folhas ressequidas. Pensei em dias,
Muitos anos atrás, arrastando madeira flutuante desde a margem,
Acordando ao meio-dia, as aves do porto seguindo
Barcos do continente.. A seguir, nenhum pensamento. 
Morfina às cinco. O início de uma madrugada fria. Chuva.


3.
Estou aqui, deitado no escuro, tentando recordar
O que a vida me ensinou. As luzes do acesso esfumadas
Pela chuva. Passa uma cadeira metálica, com rodas de borracha,
Seguida por uma enfermeira; e algo chocalha 
Como copos a serem removidos, depois
Do fim de uma festa e os convidados terem saído.
Tubos de ensaio, provetas, vasos graduados, termómetros -
Companheiros destes anos, que já não contabilizo.
Puxo de um cigarro e os meus dedos
Tocam num abaixador de língua que uso
Como marcador de livros; e tudo o que sei
É o toque desta madeira na escuridão, lembrando
O calor de um verão inteiro, há meia vida atrás -
Um céu azul e um sol que cegava, a cara
De alguém há muito morto, que no cimo da margem
Observa as ondas através da areia, as filas de potes amarelos
Onde os limoeiros amadureciam.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

 VÍCTOR BOTAS


CHEQUEO

Vida normal, ya digo. (Entre paréntesis
no le convienen nada más de siete
pitillos; ni abusar del café: dos 
o tres tacitas bastaran, Y, sobre
todo, ni una gota de alcohol.) Es bueno
un poco de ejercicio, pero nada
de esfuerzos. - Doctor, son treinta y cinco
y no setenta años los que tengo , 
le dije, como hablando a las paredes.
Usted está muy sano; así que vida
normal, ya se lo digo. En cuanto
al sexo, también todo normal; en casa
y evite otras mujeres peligrosas
y muy muy excitantes - lo he probado
yo científicamente - son las citas
en secretos lugares y muy dulces;
a usted le irá mejor la sacarina.


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EXAME

Vida normal, é o que digo. (Entre parênteses,
não lhe convém mais que sete
cigarros, nem abusar do café: duas
ou três chavenazinhas bastarão. E, sobretudo
nem uma gota de álcool.) è bom
um pouco de exercício, mas nada 
de esforços. - Doutor, são trinta e cinco
e não setenta anos que tenho,
disse-lhe, como se falasse para as paredes.
O senhor está muito são, portanto, vida
normal, como lhe disse. Quanto 
ao sexo, também tudo normal: em casa
e evite outras mulheres: perigosas
e muito, muito excitantes - provei-o
eu, cientificamente - são os encontros
em lugares secretos e muito doces;
e para si será preferível a sacarina. 

domingo, 11 de julho de 2021

 J. V. CUNNINGHAM


EPIGRAMS: A DIARY

[40]

To a Student

Fiction, but memory. Here  you know
Motive and act who made them so.
Life falls in scenes; its tragedies
Close in contrived catastrophes.
Much is evasion. Some years pass
With Some years later. In this glass
Reflection sees reflection's smile
And sef-engrossemente is good style.

Fiction is fiction: its one theme
Is its allegiance to its scehme.
Memoir is memoir: there your heart
Awaits the judgement of your art.
But memoir in fictitious guise
Is telling truth by telling lies-


[41]

A is A: Monism Refuted

This Monist who reduced the swarm
Of being to a single form,
Emptying the universe for fun,
Requires two A's to think them one.


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EPIGRAMAS: UM DIÁRIO

[41]

A um Estudante

Ficção, mas memória. Aqui sabes
Motivo e acto que assim os fizeram.
A vida acontece em cenas; as suas tragédias
Encerradas em catástrofes inventadas.
Muito é evasão. Alguns anos passam
com Anos mais tarde. Neste espelho
O reflexo vê o sorriso do reflexo
E auto-plágio é bom estilo.

Ficção é ficção: o seu único tema
É a sua fidelidade ao seu esquema.
Memória é memória: aí o teu coração
 Aguarda o julgamento da tua arte.
Mas memória em disfarce fictício
É dizer a verdade dizendo mentiras.


[41]

A é A: Monismo Refutado

Este monista que reduziu o enxame
Do ser a uma única forma,
A seu prazer esvaziando o universo,
Precisa de dois As para os julgar um.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

DICK DAVIS


PRAGMATIC THERAPY

Old childood traumas must come out they say -
Dig down, prise loose, let in the light of day.

You found a rusted nail stuck in a door,
Tugged, wrestled with the pliers, fume and swore

Until it snapped - and left a jagged pin
Lying in wait to snag unwary skin.

What could you do but bang it home? You hit
The thing with all your strength and buried it.


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TERAPÊUTICA PRAGMÁTICA

Os velhos traumas da infância devem aflorar, dizem -
Escava-se fundo, força-se a libertação, traz-se à luz do dia.

Encontraste um prego ferrugento numa porta,
Puxas, atacas com o alicate, praguejas colérico,

Até que se parte - e deixou uma ponta anfractuosa
Que fica à espera de rasgar a pele inadvertida.

Que poderias fazer senão martelá-lo? Bates
A coisa com toda a força e ela afunda-se.


quinta-feira, 8 de julho de 2021

 MIGUEL D'ORS


EL"PUNTO C"

Es un punto del tiempo, y también un estado
de la materia, y de ánimo. Santo Tomás de Aquino
acaso explicaríaque es un inexplicable
vacío que se abre tanquam abyssus entre
el acto y las potencias,
o entre la realidad y las ideas.

Para no enmarañarmonos en tanto latinorum,
es esa misteriosa frontera que separa
cada multicolor, sinfónica, etcétera bandada
de sueños que se vuela por la imacinación

y el pobre pajarito
-qué gris, qué poca cosa, y a ver si hasta tiñoso-
que un instante después late en tu mano
y no sabes qué hacer con él, por mucho
que el refranero diga
que vale más que aquel ciento de "puede ser".

Y para que lo entiendan
también los capricornianos (de
aquí viene la "C"), unos ejemplos: es
el átomo de tiempo en que ya hemos abierto
la caja del regalo pero aún
no nos ha defraudado; el de la conversión
de aquel maravilloso objeto X
que ayer nos deslumbraba desde el escaparate
en este objeto X que ahora nos pertence
y no es maravilloso ni deslumbra ni nada,
y a fin de cuentas ni es el mismo objeto;
es -no puedo decírselo mejor-
ese estrangulamiento del reloj
por donde la arenilla de los sueños del viernes
va cayendo a la noche tediosa de domingo.

                                                        Poyo, 26-V-2009


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O "PONTO C"

É um ponto do tempo e também um estado
da matéria e do ânimo. São Tomás de Aquino
acaso explicaria que é um inexplicável
vazio que se abre tanqum abyssus entre
o acto e as potências,
ou entre a realidade e as ideias.

Para não nos emaranharmos em tal latinório,
é essa misteriosa fronteira que separa
cada multicor, sinfónica, banda
de sonhos que te voa pela imaginação

e o pobre passarito
-que cinzento, que pouca coisa, se calhar até tinhoso-
que um instante depois lateja na tua mão
e não sabes que fazer com ele, por mito
que o adagiário diga
que vale mais que aquela centena "a voar".

E para que o entendam
também os não capricórnios (daqui
vem a "C") uns exemplos: é
o átomo de tempo em que já abrimos
a caixa do presente, mas ainda
não nos defraudou; o da conversão
daquele maravilhoso objecto X
que ontem nos deslumbrava no escaparate
neste objecto  X que agora nos pertence
e não é maravilhoso, nem deslumbra, nem nada,
e no final de contas nem o mesmo objecto
é -não posso dizê-lo melhor-
esse estrangulamento do relógio
por onde a areia dos sonhos de sexta-feira
vai caindo na noite entediante de domingo.

                                                           Poyo, 26.V-2009

quarta-feira, 7 de julho de 2021

 FRANK O'HARA


A STEP AWAY FROM THEM

It´s my lunch hour, so I go
for a walk among the hum-colored
cabs. First, down the sidewalk
where laborers fedd their dirty 
glistening torsos sandwiches
and Coca-Cola, with yellow helmets
on. They protect them from falling 
bricks, I guess. Then onto the 
avenue where skirts are flipping
above heels and blow up over
grates. The sun is hot, but the
cabs stir up the air. I look
at bargains in wristwatches. There
are cats playing in sawdust.
                                             On
to Times Square, where the sign
blows smoke over my head, amd higher
the waterfall pours lightly. A
Negro stands in a doorway with a 
toothpick, languorously agitating.
A blonde chorus girl clicks: he 
smiles and rubs his chin. Everything
suddenly honks: it is 12:40 of 
a Thusday.
                  Neon in daylight is a 
great pleasure, as Edwin Denby would
write, as are light bulbs in daylight.
I stop for a cheeseburger at JULIET'S
CORNER, Giulietta Masina, wife of
Federico Fellini, è bell'attrice.
And chocolat malted. A lady in
foxes on such a day puts her poodle
in a cab.
              There are severl Puerto
Ricans on the avenue today, which
makes it beautiful and warm. First
Bunny died, then John Latouche,
then Jackson Pollock. But is the
earth as full as life was full of them?
And one has eaten and one walks,
past magazines with nudes
and the posters for BULLFIGHT and
the Manhattan Storage Warehouse
which they'll soon tear down. I
used to think they had the Armory
Show there.
                    A glass of papaya juice
and back to work. My heart is in my
pocket, it is Poems by Pierre Reverdy.
                                                    
                                                    1956


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A UM PASSO DE DISTÂNCIA

É a minha hora de almoço, vou pois
passear por entre os táxis pintados
de ruído. Primeiro, pelo passeio
onde trabalhadores alimentam os troncos
sujos brilhantes com sanduíches
e Coca-Cola, usando capacetes 
amarelos. Acho que os protegem
da queda de tijolos. Depois pela
avenida em que as saias rodopiam
nos calcanhares e levantam voo sobre
os gradeamentos. O sol queima, mas
os táxis agitam o ar. Observo
pechinchas em relógios de pulso. Há
gatos que brincam na serradura.
                                                    Para
Times Square, onde o anúncio
sopra fumo sobre a minha cabeça e no alto
a cascata sussurra suavemente. Um
Negro numa portada com um
palito, mexe-se langorosamente.
Uma corista loura faz soar um estalido: ele
sorri e esfrega o queixo. De súbito
tudo buzina: são 12:40 de
uma Quinta-Feira.
                              Neon de dia é um
grande prazer, como Edwin Denby
escreveria, como são as lâmpadas eléctricas de dia.
Paro para um cheeseburger no JULIET'S
CORNER, Giulietta Masina, mulher de
Federico Fellini, è bell'attrice.
E chocolate com malte. Uma senhora que
em tal dia usa pele de raposa mete o cão d'água
dentro de um táxi.
                              Há varios Porto
Riquenhos na avenida hoje, o que
a torna bela e quente. Primeiro morreu
Bunny, depois John Latouche,
depois Jackson Pollock, A terra
está tão cheia deles, como a vida esteve?
Comeu-se e passeia-se,
passa-se pelas revistas com nus
e os cartazes de TOURADA e
a Manhattan Storage Warehouse,
que em breve demolirão. Antigamente
pensava que nela se exibia o
Armory Show.
                        Um copo de sumo de papaia
e volto para o trabalho. O meu coração está no
meu bolso, é Poemas de Pierre Reverdy

                                                             1956

terça-feira, 6 de julho de 2021

 W. H. AUDEN


THE EPIGONI

No use invoking Apolo in a case like theirs:
The pleasure-loving gods had died in their chairs
And would not get up again, one of them, ever,
Though gutural tribesmhad crossed the Great River,
Roasting their dead and with no name for the yew.
No good expecting long-legged ancestors to
Return with long swords from pelagic paradises
(They would be left to their own devices,
Supposing they had some); no point pretending
One didn't foresee the probable ending
As dog-food, or landless, submerged, a slave:
Meanwhile, how should a cultured gentlemah behave?

It would have been an excusable failing
Had they broken out into womanish wailing
Or, dramatising their doom, held forth
In sonorous clap-trap about death;
To their credit, a reader will only perceive
That the language they loved was coming to grief,
Expiring in preposterous mechanical tricks,
Epanaleptics rhopalics, anacyclic acrostics:
To their lasting honour, the stuff they wrote
Can safely be spanked in a scholar's foot-note,
Called shallow by a mechanised generation to whom
Haphazard oracular grunts are profound wisdom.


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OS EPÍGONOS

È inútil invocar Apolo num caso como o deles,
Os deuses amantes do prazer morreram nos seus tronos
E nenhum jamais se re-ergueria,
Mesmo que tribos guturais tivessem passado o Grande Rio,
Queimando os seus mortos e não sabendo nomear o teixo.
É ilusório esperar que de paraísos pelágicos regressem
Antepassados andarilhos com grandes espadas
(Seriam deixados aos seus expedientes,
Se alguns tivessem); inútil fingir
Que não se previa tal desenlace 
Como pasto de cães, ou despossuído, subjugado, um escravo:
Entretanto, como devia um cavalheiro culto comportar-se?

Teria sido uma fraqueza desculpável
Se tivessem cedido a um lamento feminil
Ou, dramatizando a catástrofe, sustentado
Trapalhada estrondosa sobre a morte;
Em seu crédito um leitor entenderá apenas
Que a língua que amavam se tornou mágoa,
Expirando em truques mecânicos, ridículos,
Acrósticos epanalépticos, ropálicos, anacíclicos:
Em sua honra perene as páginas que escreveram
São tranquilamente fustigadas numa nota erudita,
Desprezadas por uma geração mecanizada para quem
Grunhidos oraculares são profunda sabedoria.

  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...