terça-feira, 8 de dezembro de 2020

 DICK DAVIS


DESIRE

Of the violence of that pain
What poor traces still remain -

This I learnt: the wry technique
Of avoiding what I seek.


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DESEJO

Da violência dessa dor
Que pobres traços ainda persistem -

Tal aprendi; a técnica oblíqua
De evitar o que persigo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

 MIGUEL D'ORS


    "TALLER DE ESCRITURA CREATIVA"

Muy bien; ya te obedcen la rima, el metro, el verso
libre contemporáneo, los géneros poéticos,
el tono, el personaje; ya posees
el angho repertorio del oficio: la imagen,
la metáfora, el símil, la metonimia, el en-
cabalgamiento, la aliterácion,
el idioma con todas sus reglas y excepciones,
sin faltar el zeugma ni la epanadiplosis.

Ahora solo te falta
que tu sangre y tus niervos se rocen treinta años
con el mal, la grandeza, la estupidez del mundo;
tener colmada la memoria de
tierras, gentes, palabras, noches, libros, catástrofes;
las cicatrices de querer y ser querido
y de querer sin ser querido, y ser querido
sin querer, y querer no queriendo querer;
y haber cursado un máster de soledad, y que
el aletazo negro de la muerte
se haya rozado alguna vez el hombro.

Y después ya veremos
qué era lo que tenía determinado Apolo
(que, para oscurecer
un poco más la situación, no existe).


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   "OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA"

Muito bem: já te obedecem a rima, o metro, o verso
livre contemporâneo, os géneros poéticos,
o tom, a personagem; já possuis 
o amplo repertório do ofício: a imagem,
a metáfora, o símile, a metonímia, o en-
cavalgamento, a aliteração,
o idioma com todas as suas regras e excepções,
sem faltar sequer o zeugma e a epanadiplose.

Agora só te falta
que o teu sangue e os teus nervos afrontem trinta anos
o mal, a grandeza, a estupidez do mundo;
ter atulhado a memória de
terras, gentes, palavras, noites, livros, catástrofes;
as cicatrizes de querer e ser querido,
e de querer sem ser querido e ser querido
sem querer e querer não querendo querer;
e ter frequentado um mestrado de solidão e que
o golpe da asa negra da morte
alguma vez te tenha roçado o ombro.

E depois logo veremos
o que era que tinha determinado Apolo
(que, para confundir
um pouco mais a situação, não existe).

domingo, 6 de dezembro de 2020

 W. H. AUDEN


    GARE DU MIDI

A nondescript express in from the South,
Crowds round the ticket barrier, a face
To welcome which the mayor has not contrived
Bugles or braid: somrthing about the mouth
Distracts the stray look with alarm and pity.
Snow is falling. Clutching a little case,
He walks out briskly to infect a city
Whose terrible future may have just have arrived.


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    GARE DU MIDI

Um expresso do Sul insignificante.
Multidões à volta da bilheteira, uma cara
A saudar que a vereação não celebrou
Com fanfarras ou galões: algo em torno da boca
Perturba o olhar errante com alarme e piedade.
Neva. Empunhando uma maleta,
Caminha energicamente pra enfrentar uma cidade
Cujo terrível futuro pode ter acabado de chegar.



        

sábado, 5 de dezembro de 2020

 LUCIANO ERBA


AUTORITRATTO 

Uomo vecchio in città 
disperso su tronchi secondari di ferrovia 
o com un piatto di lesso 
davanti a tetti umidi di pioggia. 

Tutti qui il tuo quie ora? 
Interroghi l’alfabeto delle cose 
ma al tuo non capire niente di ogni sera 
sai la risposta di un mazzo di rose? 

Rimani quello che andava per ciliege 
e a mani vuote 
strappava al tronco nastri di corteccia. 

Resti un ladro di polli 
con gli occhi oggi ancora spuvveduti 
di quando in ritardo andavi a scuola


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AUTO-RETRATO 

Homem velho na cidade 
perdido em linhas secundárias de comboio 
ou com um prato de cozido 
diante de tectos húmidos de chuva. 

Tudo aqui o teu que é agora? 
Interrogas o alfabeto das coisas 
mas ao teu nada entender de cada noite 
sabes a resposta de um ramo de rosas? 

Permaneces aquele que andava às cerejas 
e de mãos vazias 
arrancava do tronco tiras de casca. 

Continuas um ladrão de galinhas 
com os olhos ainda hoje desprevenidos 
de quando ias atrasado para a escola

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

 PEIRE VIDAL (...1183-1204...)


Baron, Jhesus, qu'en crotz fon mes
per salvar crestiana gen,
nos mand'a totz comunalmen
qu'anem cobrar lo saint paes,
on venc per nostr'amor morir.
E si no-l volem obezir,
lai on feniran tuit li plag,
n'auzirem maint esquiu retrag.

Que-l saint Paradis que-ns promes,
on non a pena ni tormen,
voi aura liurar francamen
a sels qu'iran ab lo Marques
outra la mar per Dieu servir;
e cill qui no-l volran seguir,
non i aura negun, brun ni brag,
que no-n puesc'aver gran esglag.

E veiatz del segle qual es,
que qui-l sec plus, ai pieitz s'en pren;
pero non i a mas un bon sen:
qu'om lais los mals e prenda-ls bes,
Que pus la mortz vol assalhir,
negus non pot ni sap gandir.
Doncs pus tuit morem atrazag,
ben es fols qui viu mal ni lag.

Tot lo segle vei sobrepes
d'enjan e de galiamen;
e son ja tan li mescrezen
c'apenas renha dreigz ni fes,
que quasqus ponha en trair
son amic per si enrequir.
Pero-lh trachor son aissi trag,
cum selh qui beu tueissec ab lag.

Catalan et aragones
an senhor honrat e valen
e larc e franc e conoissen,
humil et adreg e cortes.
Mas trop laissa enmanentir
sos sers, cui Dieus bais et azir;
qa'a totz jorns estan en agag
per fare n cort dan et empag.

Reis aunitz val meins que pages,
quan viu a lei de recrezen
e piora-ls bes qu'autre despen
e pert so que-l paire conques.
Aitals reis fari'ad aucir
et en lach lues a sebelhir,
qui-s defen a lei de contrag
e no pren ni dona gamag.

Domnas vielhas non am ieu ges,
quan vivon descauzidamen
contr'Amor e contra Joven;
quar fir paratg'an si mal mes,
fer es de comtar e de dir
e fer d'escotar e d'auzir;
quar franc domnei an si tot frag
qu'entre lor no-n trob'om escag.

Dona, si-m tenetz en defes
que d'al re non ai pessamen
mas de far vostre mandamen.
E s'en grat servir vos pogues
entre-l despulhar e-l vestir,
ja mais mals no-m pogra venir;
quar vostre dig e vostre fag
m'an sabor de roza de mag.

Reis de Leon, senes mentir,
devetz honrat pretz reculhir,
cum selh qui semen'en garag
temprat d'umor ab douz complag.


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Barões, Jesus, que foi crucificado
para salvar a gente cristã,
ordena a todos, sem excepção,
ir recuperar o santo país.
onde veio, por nosso amor, morrer.
E se não queremos obedecer-lhe,
quando acabarem todas as disputas,
ouviremos muitas, duras, reprimendas.

O santo Paraíso, que nos prometeu,
onde não há pena, nem tormento,
irá dá-lo livremente 
a quem for com o Marquês
ao ultramar, para Deus servir;
os que o não queiram seguir,
nenhum haverá, moreno ou louro,
que grande medo não vitime.

Vede como é o mundo,
que quem mais o segue pior lhe passa;
só há um juízo certo:
que se deixem os males e se tomem os bens,
que quando a morte assalta 
ninguém pode, nem sabe, evitá-la.
Já que todos temos que morrer,
é louco quem vive no mal e na vileza.

Todo o mundo vejo surpreso
por enganos e por trapaças;
e já são tantos os descrentes,
que mal reinam direito e fé,
que qualquer pugne por trair
o seu amigo e enriquecer.
Mas os traidores serão atraiçoados,
como quem no leite bebe veneno.

Catalães e aragoneses
têm senhor honrado e valente,
generoso, nobre e aconselhado,
humilde, hábil e cortês.
Mas deixa que prosperem demasiado
os seus servos, que Deus humilhe e confunda,
pois estão todos sempre à espreita
de, na corte, fazerem dano e estorvo.

Rei desonrado vale menos que campónio,
se vive como um cobarde
e chora os bens que outros gastam
e perde os que o seu pai conquistou.
Tal rei deveria ser morto
e enterrado em sítio escuro,
que é reprovável a sua conduta
e não dá nem recebe golpes.

Donas velhas não me agradam,
que vivem descuidadamente,
contra Amor e contra Juventude;
à nobreza tanto prejudicam,
duro é de contar e dizer
e duro de escutar e de ouvir;
romperam de tal forma a cortesia
que, entre elas, de todo, não se encontra.

Dona, defendeis-me de tal forma,
que mais nada me aflige
senão cumprir vossas ordens.
Se me fosse concedido servir-vos,
entre o desnudar e o vestir,
já nenhum mal me poderia atingir;
os vossos ditos e as vossas obras
sabem-me a rosa de Maio.

Rei de Leão, sem mentir,
deveis alcançar mérito honrado,
como quem semeia em alqueive
bem regado, para bom fim.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

 GIUSEPPE GIOACHINO BELLI


      LA LÈGGE 

La lègge a Roma sc’è, sori stivali: 
io nun ho detto mai che nun ce sia: 
ché er Governo há trescent’una scanzia 
tutte zeppe de bbani ggenerali.

E mmanco vederete caristia 
d’abbti, monziggnori e cardinali, 
giudisci de li sagri tribbunali, 
da impiccavve sur detto d’una spia. 

La mi’ proposizzione è stata questa, 
c’un ladro che ttiè a mezzo chi ccomanna 
e ccià ddonne che ss’arzino la vesta, 

rubbassi er palazzon de Propaganna, 
troverete er cazzaccio che lárresta 
ma nun trovate mai chi lo condanna. 
 
                                                            8 Aprile 1834

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              A LEI 

Existe lei, em Roma, ó cavalheiros: 
nunca eu disse que não havia: 
o Governo tem trezentas e uma estantes 
todas atulhadas de decretos capitais. 

E nunca vereis haver carestia 
de abades, monsenhores, cardeais, 
juízes do sacro tribunal 
a enforcar-vos por denúncia de espia. 

A minha posição é antes esta, 
que um ladrão conluiado com o mando 
e com mulheres que ergam as saias, 

se roubasse o palácio da Propaganda, 
encontraria o palerma que o prendesse, 
mas nunca quem o condenasse.

                                                             8 de Abril de 1834



                   ER BUSCIO DE LA CHIAVE 

Gran nove! La padrona e cquer Contino 
scopa de la città, spia der governo, 
ar zòlito a ttre ora se chiuderno 
a ddì er santo rosario in cammerino. 

“Ebbè”, cominciò llei cor zu’ voscino, 
“sta vorta sola, e ppoi mai ppiù in eterno”. 
“E cche! avete pavura de línferno?”, 
j’arisponneva lui pianin pianino. 

“L’inferno è un’invenzion de preti e ffrati 
pe ttirà nne la rete li merlotti, 
ma nnò cquelli che ssò sprerggiudicati”. 

Fin qui intesi parlà: poi laggni, fiotti, 
mezze-vosce, sospiri soffogati… 
Cos’averanno fatto, oh ggiuvenotti? 

                                                            29 Aprile 1834


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                     O BURACO DA FECHADURA 

Grandes novas! A patroa e esse condezinho 
coscuvilheiro, espia do governo,
 a sós, pela tardinha, fecharam-se 
na alcova para rezar o santo rosário. 

“Vá lá”, começou a vozinha dele, 
“só esta vez e nunca mais, pelo eterno”. 
“O quê? Tereis medo do inferno?”, 
já respondia ele, muito baixinho. 

“O inferno é invenção de curas e frades 
para apanhar na rede os simplórios, 
mas não aqueles mais entendidos”. 

Logo, calaram-se: depois gemidos, 
sussurros, a meia voz, suspiros sufocados… 
que estariam a fazer, meu jovem? 

                                                              29 de Abril 1834

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

 ANÓNIMOS (ANTES DE 1330)


A tua casa está atulhada
de livros de teologia. Porquê?
São inúteis sem dinheiro,
o qual não possuis.
Ouro é que precisas, moedas
do país! A tua rapariga
cuida da Suma Teológica
e de toda essa tralha?


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O mundo é balança, onde os homens são pesados -
quanto piores mais se gabam;
mas é assim que estão feitas as balanças -
o prato vazio é o que se eleva.





  FRANK O'HARA PISTACHIO TREE AT CHATEAU NOIR Beaucoup de musique classique et moderne Guillaume and not as one may imagine it sounds no...