sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

 PEIRE VIDAL (...1183-1204...)


Baron, Jhesus, qu'en crotz fon mes
per salvar crestiana gen,
nos mand'a totz comunalmen
qu'anem cobrar lo saint paes,
on venc per nostr'amor morir.
E si no-l volem obezir,
lai on feniran tuit li plag,
n'auzirem maint esquiu retrag.

Que-l saint Paradis que-ns promes,
on non a pena ni tormen,
voi aura liurar francamen
a sels qu'iran ab lo Marques
outra la mar per Dieu servir;
e cill qui no-l volran seguir,
non i aura negun, brun ni brag,
que no-n puesc'aver gran esglag.

E veiatz del segle qual es,
que qui-l sec plus, ai pieitz s'en pren;
pero non i a mas un bon sen:
qu'om lais los mals e prenda-ls bes,
Que pus la mortz vol assalhir,
negus non pot ni sap gandir.
Doncs pus tuit morem atrazag,
ben es fols qui viu mal ni lag.

Tot lo segle vei sobrepes
d'enjan e de galiamen;
e son ja tan li mescrezen
c'apenas renha dreigz ni fes,
que quasqus ponha en trair
son amic per si enrequir.
Pero-lh trachor son aissi trag,
cum selh qui beu tueissec ab lag.

Catalan et aragones
an senhor honrat e valen
e larc e franc e conoissen,
humil et adreg e cortes.
Mas trop laissa enmanentir
sos sers, cui Dieus bais et azir;
qa'a totz jorns estan en agag
per fare n cort dan et empag.

Reis aunitz val meins que pages,
quan viu a lei de recrezen
e piora-ls bes qu'autre despen
e pert so que-l paire conques.
Aitals reis fari'ad aucir
et en lach lues a sebelhir,
qui-s defen a lei de contrag
e no pren ni dona gamag.

Domnas vielhas non am ieu ges,
quan vivon descauzidamen
contr'Amor e contra Joven;
quar fir paratg'an si mal mes,
fer es de comtar e de dir
e fer d'escotar e d'auzir;
quar franc domnei an si tot frag
qu'entre lor no-n trob'om escag.

Dona, si-m tenetz en defes
que d'al re non ai pessamen
mas de far vostre mandamen.
E s'en grat servir vos pogues
entre-l despulhar e-l vestir,
ja mais mals no-m pogra venir;
quar vostre dig e vostre fag
m'an sabor de roza de mag.

Reis de Leon, senes mentir,
devetz honrat pretz reculhir,
cum selh qui semen'en garag
temprat d'umor ab douz complag.


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Barões, Jesus, que foi crucificado
para salvar a gente cristã,
ordena a todos, sem excepção,
ir recuperar o santo país.
onde veio, por nosso amor, morrer.
E se não queremos obedecer-lhe,
quando acabarem todas as disputas,
ouviremos muitas, duras, reprimendas.

O santo Paraíso, que nos prometeu,
onde não há pena, nem tormento,
irá dá-lo livremente 
a quem for com o Marquês
ao ultramar, para Deus servir;
os que o não queiram seguir,
nenhum haverá, moreno ou louro,
que grande medo não vitime.

Vede como é o mundo,
que quem mais o segue pior lhe passa;
só há um juízo certo:
que se deixem os males e se tomem os bens,
que quando a morte assalta 
ninguém pode, nem sabe, evitá-la.
Já que todos temos que morrer,
é louco quem vive no mal e na vileza.

Todo o mundo vejo surpreso
por enganos e por trapaças;
e já são tantos os descrentes,
que mal reinam direito e fé,
que qualquer pugne por trair
o seu amigo e enriquecer.
Mas os traidores serão atraiçoados,
como quem no leite bebe veneno.

Catalães e aragoneses
têm senhor honrado e valente,
generoso, nobre e aconselhado,
humilde, hábil e cortês.
Mas deixa que prosperem demasiado
os seus servos, que Deus humilhe e confunda,
pois estão todos sempre à espreita
de, na corte, fazerem dano e estorvo.

Rei desonrado vale menos que campónio,
se vive como um cobarde
e chora os bens que outros gastam
e perde os que o seu pai conquistou.
Tal rei deveria ser morto
e enterrado em sítio escuro,
que é reprovável a sua conduta
e não dá nem recebe golpes.

Donas velhas não me agradam,
que vivem descuidadamente,
contra Amor e contra Juventude;
à nobreza tanto prejudicam,
duro é de contar e dizer
e duro de escutar e de ouvir;
romperam de tal forma a cortesia
que, entre elas, de todo, não se encontra.

Dona, defendeis-me de tal forma,
que mais nada me aflige
senão cumprir vossas ordens.
Se me fosse concedido servir-vos,
entre o desnudar e o vestir,
já nenhum mal me poderia atingir;
os vossos ditos e as vossas obras
sabem-me a rosa de Maio.

Rei de Leão, sem mentir,
deveis alcançar mérito honrado,
como quem semeia em alqueive
bem regado, para bom fim.

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